Raposa-voadora: o que é o morcego gigante associado ao vírus Nipah
Espécie pode ultrapassar 1,80 metro de envergadura
247 - As chamadas raposas-voadoras, morcegos de grande porte do gênero Pteropus, voltaram ao centro do debate científico e das redes sociais após serem associadas ao vírus Nipah, patógeno de alta letalidade registrado em países da Ásia. Apesar da aparência incomum e do tamanho impressionante, esses animais estão longe dos estereótipos de filmes de ficção e não representam uma ameaça direta ao Brasil, segundo a ciência. A reportagem integra uma apuração especial do programa Terra da Gente, do G1.
Para esclarecer quem são esses morcegos, como conseguem abrigar vírus perigosos sem adoecer e quais são as reais possibilidades de o Nipah chegar ao território brasileiro, o Terra da Gente ouviu o biólogo Roberto Leonan M. Novaes, doutor em Biodiversidade e Biologia Evolutiva pela UFRJ e pesquisador da Fiocruz, especialista em morcegos.
Diferentemente da maioria dos morcegos que habitam o Brasil, as raposas-voadoras não dependem da ecolocalização para se orientar. “Enquanto os morcegos do Brasil são completamente noturnos e usam a ecolocalização (radar) para se orientar, as raposas-voadoras se orientam pela visão. Elas têm olhos grandes e comportamento crepuscular, sendo ativas até quando ainda há luz do sol”, explica Leonan.
O porte desses animais também chama atenção. Considerados os maiores morcegos do mundo, algumas espécies, como Pteropus vampyrus, podem ultrapassar 1,80 metro de envergadura. Além do tamanho, há uma característica evolutiva singular. “Eles possuem uma unha no dedo indicador, uma característica ancestral, enquanto os demais morcegos só têm unhas nos polegares”, destaca o pesquisador.
Apesar da fama assustadora, a dieta das raposas-voadoras é baseada quase exclusivamente em frutos, néctar e pólen. O risco, segundo os cientistas, surge quando o avanço humano sobre as florestas altera o equilíbrio natural e aproxima esses animais de áreas urbanas e de criação intensiva.
Uma das dúvidas mais frequentes é se um morcego infectado poderia voar da Ásia até o Brasil. A resposta é categórica. “Não existem raposas-voadoras e nenhum outro pteropodídeo (família desses morcegos) no Brasil e nem nas Américas. Eles são exclusivos do Sudeste da Ásia, Oceania, Madagascar e algumas regiões da África”, afirma Leonan. De acordo com ele, os oceanos Atlântico e Pacífico funcionam como barreiras naturais intransponíveis. “Não há qualquer chance desses morcegos saírem da Ásia ou África e chegarem aqui voando de forma natural".
Além da distância geográfica, há um abismo evolutivo. A linhagem das raposas-voadoras se separou dos morcegos das Américas há mais de 40 milhões de anos, o que resultou em diferenças profundas de anatomia, fisiologia e metabolismo entre as espécies.
Outra hipótese levantada é a de um humano infectado introduzir o vírus no país e transmiti-lo a morcegos nativos. Para o especialista, esse cenário é improvável. A possibilidade é considerada “muito remota”, já que exigiria condições específicas e não há evidências de que o Nipah consiga infectar espécies brasileiras. Segundo Leonan, a vigilância sanitária se concentra na transmissão entre humanos, com medidas de isolamento, e não no controle da fauna silvestre.
Um dos pontos mais intrigantes para a ciência é entender como as raposas-voadoras conseguem conviver com vírus altamente letais sem desenvolver a doença. A explicação está relacionada ao voo. Para sustentar corpos grandes no ar, esses morcegos mantêm um metabolismo extremamente acelerado, o que eleva a temperatura corporal. “Essa condição é quase como se os morcegos estivessem sempre com uma febre. Isso acabou selecionando vírus mais resistentes à temperatura em seus organismos”, detalha o pesquisador.
Para evitar danos celulares causados por esse calor constante, esses animais desenvolveram um sistema imunológico altamente eficiente, capaz de suprimir inflamações exageradas, produzir grandes quantidades de interferons e reparar rapidamente danos ao DNA. O resultado é um hospedeiro resistente, mas que carrega vírus adaptados a condições extremas, potencialmente perigosos para outros mamíferos, como humanos e porcos.
Leonan reforça que o medo em torno dos morcegos é alimentado por desinformação. “Infelizmente essas notícias geram medo nas pessoas, ainda mais depois da pandemia de Covid-19 e a avalanche de fake news que foram e continuam sendo geradas. Mas os morcegos não são os vilões, ao contrário. Morcegos são importantes sentinelas para a saúde do ambiente”, afirma.
Segundo o biólogo, os vírus sempre existiram, mas a destruição ambiental amplia as chances de transbordamento para humanos. “O problema não é a existência dos vírus, mas sim a forma como estamos alterando a natureza e aumentando as chances desses vírus de saltarem para novos hospedeiros, como os humanos, e causarem doenças.” No caso do Nipah, os surtos na Ásia estão associados ao consumo de seiva de tamareira crua contaminada e ao desmatamento. “O problema não está nos morcegos, mas na destruição das florestas. O desmatamento empurra os animais silvestres a viverem cada vez mais perto das cidades”, alerta.
No Brasil, os morcegos desempenham funções ambientais essenciais, como a dispersão de sementes que auxiliam no reflorestamento, a polinização de plantas e o controle de insetos que atacam lavouras. Para Leonan, reduzir a presença desses animais não torna o mundo mais seguro. “A diminuição de morcegos no mundo não o fará mais seguro. Ao contrário: fará mais pobre, mais contaminado e com mais riscos para nossa saúde. Manter a floresta em pé é manter o filtro ecológico que impede esses vírus de chegarem nas pessoas”, conclui o pesquisador.
