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Superbactéria KPC derrotou antibióticos e colocou uma UTI em quarentena

O Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, em Campinas (SP), precisou suspender temporariamente as atividades da Unidade de Terapia Intensiva

Fachada do Hospital Mário Gatti, no município de Campinas (SP) (Foto: Reprodução/EPTV)

247 - Sete pacientes da UTI adulta do Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, em Campinas (SP), testaram positivo para a KPC, bactéria de difícil combate por sua capacidade de resistir a antibióticos. O diagnóstico levou o hospital a suspender temporariamente as atividades da unidade — e o episódio, que ganhou repercussão na mídia paulista, trouxe de volta ao debate uma preocupação antiga entre especialistas em saúde pública: o avanço de microrganismos multirresistentes dentro dos próprios ambientes hospitalares. Os relatos foram publicados no Portal G1.

De acordo com informações divulgadas pelo próprio hospital, os pacientes infectados foram isolados em ala específica com equipe exclusiva de atendimento, enquanto os demais internados da unidade foram transferidos para outros setores. A medida fez parte de um protocolo de contenção que incluiu desinfecção completa da UTI e pequenas reformas estruturais para garantir a segurança do ambiente antes da reabertura.

O que é a KPC e por que ela preocupa tanto

A sigla KPC vem de Klebsiella pneumoniae carbapenemase — e entender o que isso significa é essencial para compreender o tamanho do desafio que ela representa. Trata-se de uma variante da Klebsiella pneumoniae, uma bactéria que ocorre naturalmente no organismo humano, mas que, ao longo do tempo, desenvolveu uma capacidade perigosa: produzir uma enzima capaz de destruir os antibióticos mais potentes disponíveis na medicina atual.

O infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), explica o mecanismo com clareza: "A KPC é uma Klebsiella que desenvolveu, por mutações, a capacidade de produzir uma enzima que destrói boa parte dos antibióticos normalmente usados para combatê-la." Essa enzima, chamada carbapenemase, age diretamente sobre os carbapenêmicos — uma classe de antibióticos considerada última linha de defesa contra infecções bacterianas graves.

Resistência parcial complica o tratamento

Um aspecto frequentemente mal compreendido sobre bactérias multirresistentes é que a resistência nem sempre é absoluta. Para Kfouri, o tema exige nuance: "A resistência antimicrobiana não é simples, não é tudo ou nada.

Às vezes a bactéria tem resistência parcial e precisamos associar antibióticos para conseguir tratar." Isso significa que, em muitos casos, os médicos precisam combinar diferentes medicamentos — incluindo alguns raramente utilizados — para obter alguma eficácia no tratamento, o que aumenta os riscos de efeitos colaterais e exige maior controle clínico.

Quais infecções a KPC pode causar

A bactéria não afeta um único órgão ou sistema. Dependendo do ponto de entrada no organismo e do estado imunológico do paciente, ela pode provocar pneumonia, infecção na corrente sanguínea — condição conhecida como sepse —, infecção urinária e até meningite. Em pacientes já debilitados, como os que se encontram internados em UTI, essas infecções têm potencial para evoluir rapidamente para quadros graves.

A transmissão ocorre por diferentes vias: secreções respiratórias, fezes, sangue e urina são as principais. Mas o ambiente hospitalar em si também é um vetor relevante — superfícies contaminadas, equipamentos e até as mãos de profissionais de saúde podem funcionar como elo de transmissão entre pacientes.

Por que hospitais chegam a fechar setores inteiros

Quando um caso de KPC é identificado dentro de uma unidade hospitalar, o protocolo exige resposta imediata e abrangente. Isso porque a presença confirmada da bactéria em um paciente é, por si só, um sinal de que o microrganismo pode estar circulando no ambiente — e não apenas naquele indivíduo.

"Se você identifica um caso, é sinal de que a bactéria pode estar circulando naquele ambiente. Por isso são necessários cuidados rigorosos para evitar novos casos", afirmou Kfouri. Entre as medidas adotadas estão o isolamento imediato dos infectados, a desinfecção completa de quartos e equipamentos, a designação de equipes exclusivas para o atendimento dos casos confirmados e o monitoramento intensivo dos demais pacientes da unidade.

No caso do Mário Gatti, mesmo com a adoção de protocolos padrão de limpeza — incluindo a chamada limpeza terminal de cada leito —, a bactéria continuou circulando na UTI, o que levou a administração do hospital a tomar a decisão mais drástica: fechar temporariamente toda a unidade para uma descontaminação mais profunda.

Um problema que vai além de Campinas

O surto no hospital campineiro não é um episódio isolado. A presença da KPC em hospitais brasileiros foi identificada ainda no início dos anos 2000, e surtos pontuais têm sido registrados desde então em diferentes estados do país.

A disseminação desse tipo de bactéria está diretamente relacionada ao uso prolongado e, muitas vezes, indiscriminado de antibióticos potentes em ambientes de internação — um ciclo que especialistas em saúde pública alertam há décadas ser difícil de romper sem mudanças estruturais nos protocolos hospitalares e na cultura de prescrição médica.

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