Fifa defende CazéTV e abre disputa por direitos da Copa de 2030
Entidade afirma que não houve conflito de interesses na Copa de 2026 e diz que ninguém foi excluído da negociação para 2030
247 - A Fifa defendeu o modelo de transmissão adotado pela CazéTV na Copa do Mundo de 2026 e afirmou que não identifica conflito de interesses na atuação da LiveMode, empresa responsável pela aquisição de direitos do torneio no Brasil e controladora do canal digital. Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, o diretor de Negócios da entidade, Romy Gai, também detalhou a situação dos direitos de mídia da Copa de 2030 e afirmou que ninguém foi excluído da futura disputa.
Segundo Gai, a relação entre LiveMode e CazéTV sempre foi conhecida e aprovada pela Fifa. A empresa adquiriu direitos de competições da entidade desde 2022, com a intenção de explorá-los total ou parcialmente por meio do canal digital comandado por Casimiro Miguel. “Não. A Livemode adquiriu os direitos de diversas competições da Fifa desde 2022 com a clara intenção de explorar total ou parcialmente esses direitos por meio da CazéTV, e isso sempre foi totalmente transparente, realizado com o conhecimento e a aprovação da Fifa”, afirmou o executivo.
A posição da entidade ocorre em meio a questionamentos sobre o papel da CazéTV no mercado brasileiro de mídia esportiva. O canal é o único veículo a exibir todos os jogos da Copa do Mundo de 2026 no Brasil, enquanto parte dos direitos também foi sublicenciada ao SBT e à NSports. A TV Globo, por sua vez, manteve presença relevante na cobertura do torneio.
Para a Fifa, a estratégia ampliou o alcance da competição no país e permitiu atingir diferentes faixas de público. Gai avaliou que a CazéTV trouxe uma linguagem considerada inovadora pela entidade, especialmente no ambiente digital. “Do nosso ponto de vista, a CazéTV trouxe um estilo de cobertura diferenciado e inovador, que tem sido extremamente eficaz para engajar novos públicos e ampliar o alcance das nossas competições”, disse.
O diretor também afirmou que a combinação entre transmissões em plataformas digitais e emissoras tradicionais resultou em uma cobertura ampla no Brasil. “As audiências registradas durante a Copa do Mundo da Fifa de 2026 reforçam o sucesso dessa parceria. Somadas à excelente cobertura da TV Globo, do SBT e da NSports, os torcedores brasileiros tiveram acesso a uma das coberturas mais diversificadas e abrangentes da Copa do Mundo da Fifa em todo o mundo”, declarou.
A Fifa rejeitou a avaliação de que o fato de a LiveMode adquirir, explorar e sublicenciar direitos esportivos possa representar um obstáculo em futuras negociações. Segundo Gai, esse formato é comum no mercado internacional de mídia esportiva, desde que esteja sujeito à aprovação da entidade.
“Na verdade, esse é um modelo consolidado em toda a indústria da mídia esportiva. Dependendo da estrutura de determinado mercado, é bastante comum que um detentor de direitos mantenha parte deles para suas próprias plataformas enquanto sublicencia outros, sempre sujeito à aprovação da Fifa”, afirmou.
No caso brasileiro, a LiveMode usou a CazéTV como plataforma própria para alcançar públicos mais jovens e diversos, ao mesmo tempo em que distribuiu parte dos direitos a outros veículos. Para Gai, a operação cumpriu os objetivos da Fifa no país. “Essa estratégia nos ajudou a atingir nossos objetivos no Brasil e, por isso, não vemos qualquer problema nesse modelo”, disse.
A entidade também negou qualquer envolvimento na criação de uma eventual liga de futebol no Brasil. Questionado sobre o tema, Gai respondeu apenas: “Não.”
Em relação à Copa do Mundo de 2030, que será organizada por Espanha, Portugal e Marrocos, com jogos inaugurais na América do Sul, a Fifa informou que ainda não definiu como será o processo de venda dos direitos de mídia no Brasil. Segundo o executivo, nenhum contrato foi assinado até o momento.
“Neste momento, todos os direitos de mídia da Copa do Mundo da Fifa de 2030 permanecem com a Fifa e nenhum acordo foi firmado”, afirmou Gai. Ele acrescentou que a entidade ainda decidirá qual modelo será adotado para a comercialização. “Ainda não decidimos como será o processo de comercialização. No momento oportuno, entraremos em contato com as partes interessadas utilizando o formato que entendermos ser o mais adequado para atingir os objetivos gerais da Fifa".
O dirigente também descartou que alguma empresa já esteja em vantagem ou tenha sido retirada da disputa. “Ninguém detém atualmente os direitos de mídia da Copa do Mundo da Fifa de 2030 no Brasil, e ninguém foi excluído do processo”, declarou.
Antes de fechar qualquer acordo, a Fifa promete avaliar os interessados com critérios de conformidade. “Como acontece em todas as vendas de direitos de mídia da Fifa, realizaremos uma criteriosa due diligence de todos os potenciais parceiros para garantir que atendam aos nossos requisitos de conformidade”, disse.
A fragmentação das transmissões entre diferentes plataformas também foi tratada como reflexo da transformação do mercado. Para Gai, a Fifa não adota uma regra única para todos os países e busca equilibrar receita, alcance, engajamento e desenvolvimento do futebol.
“Acredito que isso simplesmente reflete a evolução do mercado de mídia esportiva ao longo das últimas duas décadas”, afirmou. “Não adotamos uma abordagem única para todos os mercados. Cada território é diferente e, por isso, analisamos cada mercado individualmente”.
O crescimento da presença de empresas de apostas esportivas entre os anunciantes das transmissões no Brasil também entrou na pauta. A CazéTV foi alvo de críticas e de uma investigação do Ministério da Justiça por suposta publicidade abusiva de bets. Após a repercussão, o canal mudou a forma de tratar os anúncios, deixando de mencionar odds durante as partidas por meio de narradores e comentaristas.
A Fifa afirmou não ter participação nas negociações publicitárias feitas pelos veículos que transmitem seus eventos. “Essas relações comerciais são uma questão dos próprios veículos de comunicação, portanto a Fifa não participa dessas negociações publicitárias”, disse Gai.
O executivo ressaltou, porém, que a entidade realiza checagens quando firma acordos próprios de patrocínio, inclusive com empresas ligadas ao setor de apostas ou previsões. “Da nossa parte, sempre que celebramos acordos de patrocínio, incluindo com empresas que atuam nos mercados de apostas ou de previsões, realizamos uma ampla due diligence para garantir que estejam em conformidade com a legislação e os regulamentos aplicáveis”.
Sobre o streaming gratuito, a Fifa demonstrou satisfação com os resultados obtidos no Brasil. A entidade avalia que a transmissão digital se consolidou como uma das principais formas de consumo esportivo, mas ressalta que o modelo não será automaticamente replicado em todos os mercados.
“Estamos muito satisfeitos com o que vimos”, afirmou Gai. “O streaming se tornou uma das formas preferidas de muitas pessoas ao redor do mundo para acompanhar o esporte, e ficamos particularmente satisfeitos com os resultados alcançados pela Livemode no Brasil e, mais recentemente, em Portugal”.
Ainda assim, a Fifa considera que fatores como legislação, infraestrutura, acesso da população e hábitos de consumo precisam ser avaliados caso a caso. “Por isso, não aplicamos o mesmo modelo em todos os lugares. Avaliamos cada mercado individualmente e decidimos qual abordagem atende melhor tanto à competição quanto aos torcedores”, declarou.
Gai também esclareceu que a LiveMode não atua como agência de vendas da Fifa no Brasil. Segundo ele, a empresa detém direitos de mídia de algumas competições da entidade no país, mas não representa a Fifa na negociação desses direitos.
“Apenas para esclarecer: atualmente, a Livemode detém os direitos de mídia de diversas competições da Fifa no Brasil. Ela não atua como agência de vendas dos direitos de mídia da Fifa no território”, disse.
Para os próximos ciclos de venda de direitos, a Fifa ainda não tomou decisão sobre o eventual uso de agências no Brasil. O dirigente afirmou que os interessados poderão apresentar propostas detalhando como pretendem explorar os direitos, e a entidade avaliará cada oferta de acordo com seus próprios critérios.
“Em seguida, avaliamos cada proposta com base em seus próprios méritos e concedemos os direitos àquela que acreditamos oferecer o melhor resultado geral para a Fifa, para nossas competições e para o futebol”, afirmou Gai.
A Fifa também indicou que seguirá aberta ao uso de agências, caso esse modelo seja considerado o mais eficiente em determinado mercado. “Se, em determinado mercado, concluirmos que trabalhar com uma agência é a melhor forma de alcançar esses objetivos, essa continuará sendo uma opção considerada. Trata-se de um modelo que tem funcionado bem em outros mercados, como em nossa parceria com a Dentsu no Japão”, concluiu.



