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Fifa ignorou cientistas e sindicato ao criar pausa obrigatória na Copa

Entidade adotou parada fixa para hidratação sem seguir recomendações de sindicato de jogadores e cientistas sobre calor extremo

Vista geral de telão durante intervalo para hidratação no Estádio de Nova York/Nova Jersey, East Rutherford, Nova Jersey, EUA 13 de junho de 2026 (Foto: REUTERS/Jeenah Moon)
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247 - A Fifa adotou pausas obrigatórias para hidratação na Copa do Mundo apesar de alertas feitos por cientistas e pelo sindicato internacional de jogadores sobre os riscos do calor extremo e a necessidade de critérios mais rigorosos para proteger atletas. A medida, que prevê duas interrupções de três minutos em cada partida, foi criada sem seguir as principais recomendações apresentadas por especialistas em saúde, clima e desempenho esportivo, segundo reportagem da Folha de S.Paulo.

A Fifpro, entidade que representa jogadores profissionais, já havia cobrado mudanças nas diretrizes da Fifa após divulgar, em agosto de 2025, um estudo sobre os impactos do calor extremo no futebol. Em maio de 2026, um mês antes do início do Mundial, um grupo de 21 especialistas também publicou uma carta aberta afirmando que os protocolos da entidade eram insuficientes para garantir a segurança dos atletas.

A controvérsia cresceu durante a competição porque as pausas passaram a ocorrer de forma obrigatória em todos os jogos, e não apenas em partidas com condições climáticas adversas. Com 104 confrontos previstos no torneio, a regra cria 208 novas interrupções, que também podem ser usadas como janelas publicitárias nas transmissões.

A crítica de cientistas e representantes dos atletas não é contra a existência de pausas para hidratação. O questionamento central é a obrigatoriedade da medida, independentemente da temperatura, da umidade, da exposição ao sol ou da estrutura dos estádios. Para os especialistas, a decisão deveria ser tomada conforme as condições reais de cada partida.

O fisiologista norte-americano Douglas Casa, professor emérito da Universidade de Connecticut e signatário da carta aberta enviada à Fifa, afirmou à Folha que a regra pode interferir desnecessariamente no andamento dos jogos.

“Não há necessidade de pausas para hidratação em todos os jogos em locais fechados com controle térmico nem naqueles em que a temperatura não ultrapasse 26°C ou 28°C. Essas pausas alteram o ritmo da partida. Só devem ser adotadas quando estritamente necessárias por questões de segurança e desempenho”, disse.

Casa também criticou o parâmetro usado pela Fifa para lidar com o calor. A entidade considera pausa de três minutos quando o índice WBGT ultrapassa 32°C. O WBGT, sigla em inglês para Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo, mede o impacto combinado de temperatura, umidade, vento e radiação solar sobre o corpo humano.

Para o especialista, o limite adotado pela Fifa é elevado demais para uma atividade de alta intensidade como o futebol. “O ideal seria algo em torno de 26°C ou 28°C. Além disso, para que a pausa seja realmente eficaz, ela precisa durar um pouco mais que 3 minutos, entre 5 a 6 minutos”, afirmou.

A climatologista Ivana Cvijanovic, pesquisadora do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento e também signatária da carta aberta, disse à Folha que não houve resposta adequada da entidade às preocupações apresentadas pelos especialistas.

“Não vejo nenhuma ação da Fifa em relação às preocupações levantadas na carta. A pausa para hidratação de três minutos foi introduzida antes da nossa carta e não está em conformidade com o que foi sugerido nela”, declarou.

Segundo Cvijanovic, a Fifa deveria adotar limites mais baixos para avaliar riscos e até adiar partidas em condições de calor extremo. Ela citou como exemplo o patamar de 28°C de WBGT, usado pela União Ciclística Internacional, em vez dos 32°C considerados pela entidade máxima do futebol.

“Essas pausas possivelmente poderiam ser evitadas. O ideal seria que tais decisões e recomendações se baseassem em dados reais, permitindo verificar os melhores limites e também a eficácia das pausas”, afirmou.

A pesquisadora também criticou a relação do futebol com a crise climática. “O ideal seria que o futebol deixasse de contribuir para o problema que enfrenta. Aceitar patrocínio da indústria de combustíveis fósseis torna o esporte conivente com a situação. Em segundo lugar, é preciso encarar a dura realidade de que os limites de segurança atuais são excessivamente altos e precisam ser reduzidos. E, se isso resultar na exclusão de certas localidades durante o verão, esse é o preço a pagar pela saúde dos jogadores mesmo que tais locais sejam justamente aqueles de onde provêm muitos dos patrocínios.”

A Fifpro indicou à reportagem um artigo científico de 2023, coassinado por Vincent Gouttebarge, diretor médico da entidade. O estudo recomenda pausas quando o WBGT ultrapassar 26°C ou quando a temperatura ambiente passar de 30°C. Também sugere atraso ou adiamento de partidas quando o WBGT superar 28°C ou a temperatura ambiente ultrapassar 36°C.

Ao anunciar a medida em dezembro, a Fifa afirmou que o calendário da Copa foi elaborado para reduzir deslocamentos, ampliar o descanso das seleções e permitir que torcedores de diferentes fusos horários acompanhassem seus times. A entidade disse ainda que fez uma análise técnica das sedes, considerando temperaturas médias e infraestrutura de climatização.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, defendeu as interrupções e afirmou que elas podem contribuir para manter a intensidade das partidas.

“Até o último segundo da partida os jogadores atacam. Talvez não, mas talvez seja também um pouco graças a essa pequena pausa. Nunca vimos 90 minutos em um torneio como este jogados com tamanha intensidade”, disse.

Infantino também afirmou que as pausas podem ajudar treinadores e atletas. “Talvez o técnico possa reavaliar certas situações, corrigir certos erros. Os jogadores descansam um pouco e voltam a todo vapor. Bem, isso é necessariamente ruim? Talvez seja bom.”

Sobre o possível ganho comercial, Infantino negou que a Fifa tenha ampliado receitas diretamente com a regra, alegando que os contratos já haviam sido assinados antes da criação das pausas. Ainda assim, as interrupções abrem espaço para que emissoras exibam anúncios durante os jogos, inclusive de marcas que não integram o grupo de patrocinadores oficiais da entidade.

A polêmica coloca em debate a capacidade da Fifa de adaptar a Copa a um cenário de temperaturas cada vez mais extremas. Para cientistas e representantes dos jogadores, a proteção dos atletas exige decisões baseadas nas condições de cada partida, limites de segurança mais baixos e medidas que vão além de interrupções fixas de três minutos.

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