Capitão de Cabo Verde é investigado por estupro de brasileira
Ryan Mendes, capitão da seleção de Cabo Verde, é alvo de denúncia por estupro na Nova Zelândia. Polícia investiga caso desde abril
247 - Ryan Mendes, capitão da seleção de Cabo Verde, é alvo de denúncia por estupro feita por uma brasileira na Nova Zelândia, onde a seleção africana disputou amistosos em março pelo Fifa Series. A polícia neozelandesa investiga o caso desde 10 de abril, e documentos médicos, fotos de lesões e registros da ocorrência foram entregues às autoridades, segundo informou o GE.
A denunciante, que teve a identidade preservada, trabalhava como intérprete e apoio operacional da delegação de Cabo Verde durante o torneio organizado na Oceania. Ela havia sido contratada pela Federação Neozelandesa de Futebol para auxiliar a equipe, cujo idioma oficial é o português, e ficou hospedada no mesmo hotel da seleção em Auckland.
A denúncia aponta que o caso ocorreu em 27 de março, após a partida entre Cabo Verde e Chile, vencida pelos chilenos por 4 a 2. Segundo o relato apresentado à polícia, a brasileira foi chamada a uma sala reservada à delegação no hotel, acreditando que precisaria atuar como intérprete, mas percebeu que se tratava de uma confraternização e retornou ao quarto por se sentir mal.
Ainda conforme a denúncia, pouco depois ela ouviu batidas na porta e abriu pensando tratar-se de alguma solicitação profissional. Nesse momento, Ryan Mendes teria entrado no quarto, agredido a brasileira fisicamente e cometido o estupro. A vítima relatou à polícia agressões como esganaduras, socos e mordidas enquanto tentava se defender.
A brasileira fotografou, ainda no hotel, lesões visíveis no corpo, incluindo cortes na boca e hematomas no pescoço, na perna e na lateral do tronco. O site informou ter tido acesso às imagens, ao boletim de ocorrência e ao relatório médico da clínica que prestou atendimento à denunciante após o episódio.
O relatório médico citado registra múltiplas equimoses, ou manchas roxas, nas mamas, no pescoço e nos lábios, além de áreas de sensibilidade no couro cabeludo e nas nádegas. O exame genital também apontou a presença de “duas lesões circulares, dolorosas à palpação, na base dos pequenos lábios”.
Após receber atendimento em uma clínica especializada no acolhimento de sobreviventes de violência sexual, a brasileira passou por exame forense, registrou a ocorrência na polícia e foi submetida a perícia em uma delegacia. Ela também segue recebendo acompanhamento psicológico.
A Polícia da Nova Zelândia confirmou que há uma investigação em andamento, mas não divulgou nomes por causa das regras de privacidade do país. “A Polícia da Nova Zelândia confirma que uma denúncia está sendo investigada, registrada em 10 de abril de 2026 na região central de Auckland. Não podemos fornecer mais informações neste momento”, informou a corporação.
Segundo a apuração, investigadores recolheram imagens das câmeras de segurança do hotel e aguardam o laudo pericial dos exames realizados há cerca de três meses. Ao fim dessa etapa, a polícia decidirá se há elementos para apresentar acusação formal à Justiça neozelandesa.
A brasileira e o marido também enviaram notificações extrajudiciais à Federação Cabo-Verdiana de Futebol e à Fifa em 10 de maio, com o relato do caso, provas e pedido para que o jogador fosse impedido de disputar a Copa do Mundo. No dia 20 de maio, eles preencheram o formulário de Safeguarding da Fifa, canal usado para denúncias relacionadas à proteção de pessoas envolvidas no futebol. Segundo relataram, não receberam resposta.
A Federação Neozelandesa de Futebol afirmou que o caso está sob responsabilidade das autoridades policiais. “Entendemos que este assunto está com a Polícia da Nova Zelândia, então eles seriam mais apropriados para comentar a situação”, declarou a entidade.
A Fifa afirmou que não comentaria o caso. A Federação Cabo-Verdiana de Futebol, por sua vez, não havia se posicionado até a publicação da reportagem. O GE informou ter enviado cinco e-mails para endereços institucionais da entidade disponíveis no sistema da Fifa e no site da federação, sem resposta.
A reportagem também procurou representantes de Ryan Mendes. O empresário do atacante não havia respondido até a publicação original. A família da brasileira, funcionários da Federação Cabo-Verdiana, a polícia, a Fifa e especialistas em direito internacional também foram consultados pelo ge.
Ryan Mendes, de 36 anos, atua pelo Igdir FK, da Segunda Divisão da Turquia, e é um dos principais nomes da seleção de Cabo Verde. O atacante foi titular nas três partidas da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, competição em que Cabo Verde estreou e avançou à segunda fase após terminar em segundo lugar no Grupo H.
A seleção cabo-verdiana tem confronto marcado contra a Argentina na próxima fase, em Miami. Antes do Mundial, Mendes já havia disputado quatro edições da Copa Africana de Nações, em 2013, 2015, 2022 e 2024. Ao longo da carreira, passou por clubes como Batuque, de Cabo Verde, Le Havre e Lille, da França, Nottingham Forest, da Inglaterra, além de equipes dos Emirados Árabes e da Turquia.
O trâmite jurídico na Nova Zelândia prevê que, após a investigação policial, as autoridades avaliem se há provas suficientes para apresentar uma acusação. Caso isso ocorra, o processo segue para julgamento na Corte Distrital. Segundo o guia do Ministério da Justiça neozelandês, uma condenação por violência sexual pode resultar em pena de até 20 anos de prisão, conforme a gravidade do caso.
O advogado especialista em direito internacional Mauricio Ejcher explicou que o processo judicial no país é dividido em etapas. “O processo judicial tem quatro partes: a administração, para juntar e organizar documentos, a revisão prévia com participação do juiz, o julgamento e a sentença. Cabe uma apelação só, na corte superior, que é regional”, afirmou.
Em situações que envolvam eventual extradição, caso uma denúncia seja aceita e haja ordem de prisão, o procedimento pode incluir a inclusão do nome do investigado na Interpol ou um pedido formal de cooperação internacional. A Nova Zelândia, no entanto, não possui acordo de extradição com Cabo Verde.



