Sombra do ICE ameaça afastar torcedores da Copa nos EUA
A poucos dias do início da competição, a atuação de agentes do Serviço de Imigração e Fronteiras dos EUA passou a preocupar torcedores estrangeiros
247 - A sombra do ICE ameaça afastar torcedores da Copa nos Estados Unidos, em meio a alerta de entidades sobre riscos a imigrantes, prisões, deportações e ações de fiscalização durante o torneio. As informações foram publicadas neste sábado (6) pela coluna de Sandra Cohen, no Portal G1.
A poucos dias do início da Copa do Mundo, a atuação de agentes do Serviço de Imigração e Fronteiras dos EUA, conhecido pela sigla ICE, nas 11 cidades norte-americanas que receberão jogos passou a preocupar torcedores estrangeiros, comunidades migrantes e organizações de direitos humanos.
Mais de 120 grupos da sociedade civil divulgaram um alerta de viagem voltado a cerca de 10 milhões de visitantes esperados para o torneio. O documento chama a atenção para possíveis violações de direitos de imigrantes, embora autoridades do governo dos Estados Unidos, incluindo o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmem que agentes do ICE não atuarão dentro dos estádios.
O temor, no entanto, é alimentado pelo contexto político e pelo histórico recente de operações anti-imigração realizadas no segundo mandato do presidente Donald Trump. A presença do ICE em torno da Copa se tornou um tema sensível não apenas para estrangeiros que viajarão ao país, mas também para comunidades imigrantes já estabelecidas nas cidades-sede.
De acordo com uma pesquisa Washington Post-Universidade de Maryland citada no texto original, 65% dos americanos são contrários à presença de agentes do ICE nos estádios durante o torneio. A Copa começa na próxima quinta-feira e terá 78 das 104 partidas disputadas em território norte-americano.
O alerta divulgado pelas entidades enumera riscos enfrentados por torcedores e imigrantes em situação irregular. Entre eles estão prisão e deportação, ampliação de restrições de viagem, monitoramento invasivo de redes sociais e dispositivos eletrônicos, além de tratamento cruel ou degradante durante detenções ou sob custódia do ICE.
Em diferentes cidades-sede, grupos locais passaram a organizar campanhas e mutirões para proteger torcedores e comunidades vulneráveis. Em Dallas, no Texas, o Movimento DFW distribui centenas de kits com apitos para que moradores possam alertar sobre a presença de agentes de imigração.
A tensão também chegou a Los Angeles, que receberá oito partidas da Copa do Mundo. Um sindicato que representa cerca de dois mil funcionários do SoFi Stadium ameaçou entrar em greve caso agentes do ICE fossem enviados ao local. A preocupação é que trabalhadores estrangeiros, maioria entre os funcionários, se tornem alvos preferenciais das operações.
Em Massachusetts, a comunidade haitiana vive uma combinação de entusiasmo e apreensão. A seleção do Haiti disputará sua primeira Copa do Mundo, mas o alto preço dos ingressos já afasta parte dos torcedores dos estádios. Além disso, encontros coletivos para assistir aos jogos despertam temor na maior diáspora haitiana nos Estados Unidos, formada por cerca de 87 mil pessoas.
Organizações como Human Rights Watch, Sport and Rights Alliance e Dignity 2026 pedem uma trégua do ICE durante o torneio, inspirada na tradição da trégua olímpica. A proposta é suspender operações de fiscalização migratória durante a Copa para reduzir riscos a torcedores, trabalhadores e comunidades imigrantes.
“A Fifa deveria resgatar as práticas da Grécia Antiga e insistir em uma trégua com o ICE para garantir que agentes federais não realizem ações violentas de fiscalização de imigração dentro e ao redor dos locais da Copa do Mundo. Prisões e deportações que violam os direitos humanos não têm lugar no jogo mundial”, afirmou Micky Worden, diretora de Iniciativas Globais da Human Rights Watch.
O secretário do Departamento de Segurança Interna, Markwayne Mullin, confirmou a presença de agentes do ICE nos jogos, mas disse que a atuação terá como foco o combate a ingressos falsificados, tráfico de pessoas, contrabando de drogas e produtos falsificados.
As declarações, porém, são recebidas com ceticismo por grupos que denunciam a truculência de agentes mascarados em operações de intimidação e prisão de imigrantes. Para essas organizações, a simples presença do ICE nas cidades-sede pode criar um ambiente de medo e esvaziar a participação de torcedores estrangeiros e comunidades migrantes em um dos maiores eventos esportivos do mundo.



