Fungo amazônico revela potencial contra pragas agrícolas e novas infecções
Espécie descoberta pela Embrapa une controle biológico, estímulo ao crescimento vegetal e produção de compostos com ação antimicrobiana inédita
247 - Pesquisadores brasileiros identificaram na Amazônia uma nova espécie de fungo com grande potencial para aplicações na agricultura e na biotecnologia. Batizado de Trichoderma agriamazonicum, o microrganismo se destaca por atuar no controle biológico de doenças agrícolas, estimular o crescimento de plantas e produzir compostos naturais ainda não descritos pela ciência, com ação antimicrobiana promissora. A descoberta amplia as perspectivas de desenvolvimento de insumos sustentáveis e de novas moléculas para uso agrícola e medicinal.
O fungo foi identificado a partir de amostras coletadas na casca de uma espécie madeireira nativa da Amazônia e pertence ao gênero Trichoderma, amplamente estudado por sua eficácia no combate a pragas e fitopatógenos. A nova espécie, no entanto, apresenta características genéticas próprias que ampliam seu potencial de uso em sistemas produtivos sustentáveis. O Trichoderma agriamazonicum foi descrito em 2023 pelos pesquisadores Thiago Fernandes Sousa e Gilvan Ferreira da Silva, da Embrapa Amazônia Ocidental, e desde então vem sendo alvo de investigações mais aprofundadas.
Estudos conduzidos no Laboratório de Inovação em Microbiologia Aplicada da Amazônia (Amazon Micro-Biotech) confirmaram o desempenho promissor do fungo, inclusive fora do campo agrícola. Um dos diferenciais da espécie é a produção de peptídeos — pequenas cadeias de aminoácidos — com ação antimicrobiana que, em testes laboratoriais, apresentaram eficácia comparável ou superior à de antibióticos comerciais.
No âmbito agrícola, ensaios in vitro demonstraram que o fungo é capaz de controlar nove espécies diferentes de fitopatógenos, agentes causadores de doenças foliares em diversas culturas. Segundo Thiago Fernandes Sousa, o isolado foi extensivamente analisado durante sua tese de doutorado, defendida em 2025, com base em dados morfológicos e filogenéticos que sustentaram a classificação como nova espécie.
“Os resultados mostram que ela é capaz de inibir o crescimento micelial de fitopatógenos, tanto por micoparasitismo quanto pela produção de compostos orgânicos voláteis (COVs), com destaque para a inibição de Corynespora cassiicola e Colletotrichum spp.”, afirma o pesquisador, citando patógenos que afetam culturas como soja e frutas.
Outro eixo relevante das pesquisas envolve a mineração genômica dos chamados agrupamentos de genes biossintéticos, responsáveis pela produção de compostos bioativos. A partir dessa análise, os cientistas previram e sintetizaram peptaibols inéditos com ação antimicrobiana, utilizando uma metodologia inovadora conhecida como syn-BNP (Synthetic Bioinformatic Natural Product). Essa abordagem permite identificar moléculas bioativas com maior rapidez, dispensando etapas tradicionais de cultivo extensivo e purificação química.
Em testes controlados, um peptaibol de 18 aminoácidos, sintetizado com base em predições genômicas do T. agriamazonicum, mostrou atividade contra bactérias como Streptococcus sp. e Klebsiella pneumoniae, associadas a infecções respiratórias, incluindo pneumonia. O mesmo composto também apresentou eficiência antifúngica no biocontrole agrícola, inibindo o crescimento de Pseudopestalotiopsis sp., agente causador de mancha foliar em guaranazeiro.
As pesquisas também avaliaram o potencial do fungo na promoção do crescimento vegetal. Uma das linhagens analisadas demonstrou elevada capacidade de produzir ácido indolacético (AIA), um fitormônio essencial para o desenvolvimento das plantas. Em testes in vitro, o isolado alcançou a produção de 60,53 microgramas por mililitro de AIA, figurando entre os de maior rendimento. No entanto, experimentos em casa de vegetação indicaram que essa alta produção, isoladamente, não se traduziu em crescimento significativamente superior do pimentão quando comparada ao controle negativo, sugerindo que múltiplos mecanismos estão envolvidos nesse processo.
Ao relatar o processo de descoberta, Sousa explica que o fungo foi isolado da casca do cardeiro (Scleronema micranthum), árvore nativa da Amazônia, e permaneceu preservado em uma coleção de culturas desde 2004.
“No laboratório, estávamos realizando trabalhos de isolamento de microrganismos de diferentes habitats amazônicos. Esse Trichoderma foi isolado a partir da casca de cardeiro, uma espécie madeireira nativa. O isolado estava preservado em coleção de cultura desde 2004”, relata.
“Quando começamos a identificar taxonomicamente esses fungos do gênero Trichoderma, nos deparamos com essa nova espécie. Caracterizamos o isolado detalhadamente e descobrimos que ele possui dupla importância: para a agricultura, no controle biológico de fitopatógenos, e para a biotecnologia, com a produção de peptídeos que nunca haviam sido descritos na literatura científica”, complementa.
Para os pesquisadores, o caso evidencia tanto o potencial ainda pouco explorado da biodiversidade amazônica quanto a relevância estratégica das coleções biológicas. Gilvan Ferreira da Silva destaca que a preservação do isolado foi decisiva para que suas propriedades viessem à tona décadas depois.
“Esse potencial poderia ter sido perdido para sempre se não houvesse a coleção de culturas que mantém o isolado viável ao longo do tempo. Isso reforça a necessidade urgente de investimento contínuo na conservação, pesquisa e aplicação dos nossos recursos genéticos”, enfatiza.
A descoberta do Trichoderma agriamazonicum ocorreu no contexto das pesquisas desenvolvidas pelo Amazon Micro-Biotech, da Embrapa Amazônia Ocidental, que reúne estudos voltados à exploração sustentável da diversidade microbiana da região. Os resultados reforçam o papel da Amazônia como fonte estratégica de matéria-prima para inovações agrícolas, farmacêuticas e biotecnológicas, com participação de estudantes e pesquisadores apoiados por agências como CNPq, Capes e Fapeam.


