Manifestantes indígenas atacam escritório da Cargill em São Paulo e terminal portuário no Pará
Eles protestam contra um decreto do governo Lula que, conforme denunciam, prejudicaria o modo de vida das populações nativas amazônicas
247 - Protestos de indígenas e movimentos sociais, registrados na noite de 20 de fevereiro e na madrugada de 21 de fevereiro, resultaram na invasão, depredação e ocupação do Terminal Portuário de Santarém, no Pará, além de ataques ao escritório da Cargill, em São Paulo (SP).
O alvo dos manifestantes é a inclusão de trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização, que abre caminho para concessões ligadas ao plano de hidrovias na Amazônia. O modal aquaviário é considerado importante pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um corredor logístico para escoar produtos do agronegócio.
De acordo com a Reuters, citando a empresa, os manifestantes forçaram os funcionários da Cargill a deixar o terminal. A Cargill disse que há “fortes indícios de vandalismo e depredação dos ativos” no terminal. Na capital paulista, os relatos dão conta de bloqueios de vias e vandalismo.
Ao mesmo tempo, em reação aos protestos, que se estendem há um mês, o governo federal decidiu suspender, no dia 6 de fevereiro, o processo de contratação para a dragagem do Tapajós. Segundo o governo, o decreto não autoriza obras nem privatiza hidrovias.
A Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), por meio de nota, se manifestou, solicitando "às autoridades a adoção imediata das medidas necessárias para:
• Restabelecer a posse e o funcionamento seguro do Terminal de Santarém, conforme decisão judicial vigente;
• Garantir a segurança e a integridade dos trabalhadores;
• Assegurar a realização de perícias e a devida apuração dos fatos;
• Proteger o patrimônio público e privado e evitar novos prejuízos operacionais".
Segundo a ABTP, os atos contra a empresa não fazem sentido, uma vez que ela não exerce "ingerência sobre a pauta", além de 'desvirtuar o debate democrático, fragilizar a segurança jurídica e colocar em risco empregos, renda e a continuidade de atividades essenciais'.
Em uma carta após a ocupação, os manifestantes cobraram que o governo Lula reconsidere o decreto que, segundo eles, prejudicaria o modo de vida das populações nativas locais. "Os rios não são canais de exportação: são fonte de vida, sustento, memória e identidade para milhares de famílias", diz a carta, acrescentando que a dragagem afetaria a qualidade da água e a pesca da qual dependem para sobreviver.
De acordo com a Reuters, a Cargill embarcou mais de 5,5 milhões de toneladas métricas de soja e milho através de Santarém no ano passado. O volume exportado, proveniente principalmente da região Centro-Oeste, representou mais de 70% do volume total de grãos movimentados em Santarém.


