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Pecuária e soja consomem volumes recordes de água no Brasil, aponta estudo

Produção agropecuária utiliza mais recursos hídricos do que grandes estados somados e revela riscos crescentes de escassez nas principais bacias do país

Pecuária e soja consomem volumes recordes de água no Brasil, aponta estudo (Foto: Agência Brasil )

247 - A produção de carne bovina e soja no Brasil demanda volumes de água que superam, com ampla margem, o consumo humano de grandes unidades da federação. Dados recentes mostram que apenas a pecuária brasileira utiliza anualmente mais água do que a população somada de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná e do Distrito Federal, evidenciando o peso do agronegócio sobre os recursos hídricos nacionais, segundo reportagem da Folha de São Paulo.

De acordo com o levantamento, a criação de gado consome entre 10,1 bilhões e 10,4 bilhões de metros cúbicos de água por ano para a manutenção do rebanho. Esse volume, retirado de rios e aquíferos, supera o uso doméstico conjunto desses cinco estados e do DF, estimado em 7,8 bilhões de metros cúbicos anuais. Já o cultivo da soja, principal grão exportado pelo país, demanda entre 188 bilhões e 206 bilhões de metros cúbicos de água por ano, o equivalente a cerca de sete vezes a capacidade total do reservatório da usina hidrelétrica de Itaipu.

No caso da soja, quase toda a água utilizada tem origem nas chuvas. A irrigação responde por uma parcela minoritária, entre 0,96 bilhão e 1,7 bilhão de metros cúbicos, cerca de 8% do total empregado na produção. Os números fazem parte de uma análise da Trase, iniciativa que rastreia cadeias produtivas globais, com base em dados do MapBiomas e da Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA). O estudo considerou o período de 2015 a 2017, escolhido pela consistência e compatibilidade das bases de dados disponíveis.

O trabalho dialoga com um cenário global em que a agricultura se mantém como o maior usuário de água doce do planeta. Segundo o Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos, o setor agrícola respondeu por cerca de 70% dos 4 trilhões de metros cúbicos de água utilizados pela humanidade em 2020.

Um dos autores do estudo, o pesquisador sênior do Instituto de Meio Ambiente de Estocolmo Michael Lathuillière, destaca que o objetivo da análise é tornar visível o consumo indireto de água associado às commodities. “Queremos mostrar justamente o nosso uso indireto de água, aquele consumido através de produtos”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “O Brasil, de certa forma, está exportando recursos hídricos".

A pesquisa também mensurou o grau de dependência hídrica dos maiores exportadores de soja e carne bovina nas 12 regiões hidrográficas do país. Para Lathuillière, grandes empresas ocupam uma posição estratégica na cadeia produtiva. “Os grandes exportadores têm essa posição interessante na cadeia produtiva e podem começar a avaliar não somente a sua dependência dos recursos hídricos ao longo da cadeia, mas também os riscos que podem correr com a falta de água em alguns lugares do Brasil”, disse.

O estudo aponta ainda que a maior parcela da água associada à pecuária não é ingerida diretamente pelos animais. O gado costuma beber em pequenos reservatórios, onde ocorre intensa evaporação, responsável por cerca de dois terços de toda a água envolvida na produção. Essa perda reduz a disponibilidade hídrica para outros usos a jusante, como a manutenção de ecossistemas aquáticos, o consumo humano e industrial e a geração de energia.

Uma pesquisa publicada em 2024 estimou que alterações climáticas associadas ao desmate provocaram prejuízos de US$ 1,03 bilhão, cerca de R$ 5,8 bilhões, à produção de soja e milho na Amazônia entre 2006 e 2019. Desde 1980, a região registra atraso no início do período chuvoso, redução do volume anual de precipitações e aumento das temperaturas. No Cerrado, dados divulgados em 2025 indicam queda de 27% na vazão dos rios desde a década de 1970, além de uma redução de 21% nas chuvas.

A diminuição da disponibilidade de águas superficiais e subterrâneas afeta tanto a pecuária quanto a soja irrigada, seja pela redução do fluxo dos rios e dos níveis dos aquíferos, seja pela intensificação da disputa por recursos hídricos nas áreas produtoras. No caso das exportadoras de carne, a exposição à escassez é descrita como altamente concentrada. Entre as empresas analisadas, apenas a Marfrig não enfrenta nível crítico de falta de água na bacia do São Francisco, embora cerca de um terço de suas exportações esteja sujeito a alto risco nas bacias do Atlântico Sul e do Uruguai.

Lathuillière também chama atenção para fragilidades na gestão hídrica. “Há uma questão em relação às outorgas de captação de água no Brasil, em que muitos reservatórios são construídos sem autorização”, afirmou. Segundo ele, “há um problema político e de gestão nas fazendas”.

No caso da soja, altamente dependente das chuvas, o impacto climático é ainda mais direto. Os principais exportadores obtêm grande parte da produção em áreas com probabilidade de seca entre 10% e 20%. O cenário mais delicado envolve a Bunge, que concentra mais de um terço de sua produção em municípios com chance de estiagem superior a 20%.

O estudo sugere que a redução dos riscos hídricos exige ação coordenada entre empresas, governos e financiadores. Entre as medidas apontadas estão o estabelecimento de metas para o uso da água ao longo da cadeia de suprimentos, a melhoria dos sistemas de reporte e o alinhamento de políticas públicas e crédito com práticas sustentáveis. Os pesquisadores também defendem a ampliação da transparência ambiental nas cadeias produtivas, incorporando indicadores de uso da água além daqueles já voltados ao desmatamento.

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