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Argentina recebe dono da Palantir e debate sobre IA gera alerta de soberania

Visita de Peter Thiel levanta preocupações sobre inteligência artificial, controle social e possível perda de autonomia tecnológica no país

Ilusração com logotipo da Palantir 3 de agosto de 2025 REUTERS/Dado Ruvic (Foto: Dado Ruvic)

247 - A visita de Peter Thiel à Argentina intensificou o debate sobre inteligência artificial, controle social e possível perda de autonomia tecnológica no país, em meio a especulações sobre acordos com o governo de Javier Milei. O empresário, ligado à Palantir Technologies, chegou a Buenos Aires na última semana e deve se reunir com o presidente argentino, ampliando preocupações sobre o uso de tecnologias avançadas em segurança e defesa.

As informações foram divulgadas pela Telesur, com base em dados de veículos como Página 12, Radio Con Vos e agências, destacando que a presença de Thiel ocorre em um contexto de discussões sobre soberania digital e possíveis parcerias estratégicas envolvendo inteligência artificial.

Fundador da Palantir e cofundador do PayPal, Thiel também atua como conselheiro de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Sua visita está relacionada ao interesse na experiência econômica e política do governo argentino, além de possíveis negociações envolvendo o uso de softwares avançados de análise de dados. A empresa que lidera fornece ferramentas utilizadas por governos como os dos Estados Unidos, Reino Unido e Israel para operações militares, inteligência e segurança.

Fontes do governo argentino confirmaram reuniões entre Thiel e o assessor presidencial Santiago Caputo. O encontro foi descrito como uma conversa sobre política internacional e tecnologia, além do posicionamento estratégico da Argentina no cenário global. Também houve contatos com o Ministério das Relações Exteriores.

A possibilidade de contratação da Palantir reacende discussões sobre iniciativas semelhantes no passado. Um senador peronista manifestou preocupação ao afirmar que o empresário “é um conselheiro de Trump e fornecedor de IA para a defesa dos EUA” e alertou para riscos de “privatização da guerra e a entrega da soberania estatal às corporações da indústria armamentista”.

Especialistas também apontam riscos mais amplos. O analista Ariel Garbarz afirmou nas redes sociais que “estamos enfrentando uma colonização digital”. Já a jornalista Valeria Di Croce declarou, em entrevista à Rádio 750, que o interesse de grandes empresas tecnológicas envolve fatores geopolíticos e recursos naturais estratégicos: “O que essas grandes empresas precisam, como disseram o presidente e seu ex-conselheiro Demian Reidel, são grandes extensões de terra, baixas temperaturas, fácil acesso à água, em vastos territórios: essa é a Patagônia”.

Ela acrescentou que “um dos objetivos é claramente a instalação de bases, mas o outro é a extração de minerais críticos, cobre, lítio, terras raras, que também estão ligados ao desenvolvimento dessa tecnologia”.

A cientista política Flavia Broffoni também avaliou que o empresário busca criar estruturas com legislação favorável aos seus interesses, afirmando que a Patagônia se tornou “um centro estratégico muito tentador para o poder mundial”.

Manifesto tecnológico e visão estratégica

A visita ocorre após a divulgação do manifesto “República Tecnológica” pela Palantir, documento que propõe uma nova abordagem de governança baseada em tecnologia e defesa. No texto, a empresa afirma: “Silicon Valley tem uma dívida moral com o país que tornou possível sua ascensão. A elite de engenharia do Vale do Silício tem uma obrigação afirmativa de participar da defesa da nação”.

O manifesto defende ainda maior envolvimento da sociedade em questões militares e destaca o papel da tecnologia como elemento central de poder: “A capacidade das sociedades livres e democráticas para prevalecer requer algo mais que um apelo moral. Requer poder duro, e o poder duro neste século será construído sobre software”.

O documento também aponta a inteligência artificial como eixo central da nova corrida armamentista: “A pergunta não é se armas de IA serão construídas; é quem as construirá e com que propósito”.

Atuação internacional e controvérsias

A Palantir também é alvo de críticas por sua atuação em conflitos internacionais. Relatórios e denúncias indicam que suas tecnologias são utilizadas em operações militares, incluindo na Faixa de Gaza, com sistemas capazes de analisar dados, identificar padrões e auxiliar na seleção de alvos.

O jornalista Juan Alonso destacou que a empresa, avaliada em mais de 400 bilhões de dólares e com contratos com CIA, Mossad e forças de segurança em diversos países, “prevê o comportamento humano, apontando possíveis ações consideradas ‘terroristas’ e relatando ‘alvos’ em Gaza, em toda a Palestina ocupada pelo Exército israelense e em qualquer lugar do mundo”.

Análises publicadas por especialistas indicam que essa integração tecnológica transforma conflitos em ambientes de experimentação, com uso de sistemas automatizados que ampliam o alcance das operações e levantam questionamentos sobre responsabilidade e transparência.

A presença de Thiel na Argentina, nesse contexto, amplia o debate sobre os limites da tecnologia, os impactos geopolíticos da inteligência artificial e os desafios relacionados à soberania nacional diante do avanço das grandes corporações tecnológicas.

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