Ataque dos EUA à Venezuela abre "caixa de pandora" e amplia incertezas regionais
Especialistas analisam sequestro de Maduro, interesses petrolíferos e impactos geopolíticos da ofensiva ordenada por Trump
247 - Mais de 24 horas após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos, o cenário político na Venezuela e na América Latina segue marcado por incertezas. As declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a intenção de “administrar” o país aprofundaram a crise diplomática e levantaram questionamentos sobre os objetivos estratégicos de Washington na região.
A análise foi publicada pela Sputnik International, que ouviu especialistas em política internacional para avaliar os possíveis desdobramentos da operação. De acordo com os analistas, a ação norte-americana abriu o que foi descrito como uma “caixa de pandora política”, com consequências imprevisíveis para a estabilidade regional.
O observador de assuntos internacionais e pesquisador do think tank Issue Insight, John Kavulich, afirmou que, até o momento, não há sinais de uma ocupação direta da Venezuela por forças dos Estados Unidos. “Não temos tropas em solo… sejam essas tropas executivos de terno, militares de combate ou trabalhadores do setor de petróleo. Não há nada disso”, declarou em entrevista à Sputnik.
Segundo Kavulich, a tendência da política norte-americana será tentar controlar o que entra e o que sai da Venezuela, buscando influenciar o governo sem a presença de Maduro. Para ele, essa estratégia parece ter sido adotada sem um planejamento consistente. “Ele abriu uma caixa de pandora política”, resumiu.
No plano interno, o analista avaliou que, apesar da gravidade do episódio, as instituições venezuelanas demonstram resiliência. “As instituições do governo, até agora, têm se mostrado resistentes. A vice-presidente está assumindo, o gabinete está funcionando, não há tumultos nem revoltas”, observou.
Um ponto considerado crucial por Kavulich é a relação entre Venezuela e Cuba, vista como um termômetro da pressão que Washington poderá exercer. “A relação da Venezuela com Cuba será extremamente reveladora. Até que ponto o presidente Trump forçará o atual governo venezuelano a reduzir seu apoio a Cuba?”, questionou.
O especialista detalhou a interdependência entre os dois países. “A Venezuela fornece energia para Cuba. Cuba envia trabalhadores, inclusive profissionais de saúde, para a Venezuela, e isso envolve pagamentos de bilhões de dólares por ano. Um corte nessa relação econômica e financeira pode pressionar fortemente Cuba. A questão passa a ser: quem vai reagir, se alguém reagir?”, afirmou.
Outro analista ouvido pela Sputnik, o pesquisador da Higher School of Economics, Dr. Dylan Payne Royce, avaliou que o ataque reforça a centralidade do poder militar nas relações internacionais. “O ataque à Venezuela é mais um lembrete de que a força militar é a única defesa real contra agressões externas, de que a chamada ‘ordem liberal baseada em regras’ é uma mentira, e de que o suposto garantidor dessa ordem é, na prática, a principal ameaça para a maioria dos países”, declarou.
Royce também destacou o papel do petróleo como motivação central da ofensiva. “Os Estados Unidos deixaram bastante claro que o petróleo é, de fato, o principal motivo da operação”, disse. Segundo ele, Washington pode estar tentando extrair da Venezuela concessões muito maiores do que aquelas que Maduro estaria disposto a oferecer ou buscando uma vitória simbólica para consumo político interno. O analista citou a possibilidade de uma “vitória superficial”, baseada na crença de que a captura de Maduro levaria a um governo venezuelano submisso.
O pesquisador alertou ainda que, diante da postura de resistência adotada pela presidente interina Delcy Rodríguez, qualquer tentativa de controle efetivo exigiria uma escalada contínua de ações. Na avaliação de Royce, isso implicaria a necessidade de capturar sucessivos chefes de Estado até encontrar alguém disposto a se submeter aos interesses de Washington, hipótese que ele classificou como absurda.
Por fim, Royce afirmou que a operação deve ser vista como parte de uma estratégia mais ampla do governo Trump para reforçar a hegemonia dos Estados Unidos no continente americano, ao mesmo tempo em que reduz seu envolvimento em outras regiões do mundo. Segundo ele, essa postura gera preocupação adicional para países como Panamá, Colômbia, Cuba e até territórios estratégicos como a Groenlândia, ampliando o clima de instabilidade no entorno geopolítico da Venezuela.



