Brasil defende autonomia regional na Celac e rejeita América Latina e Caribe como “quintal”
Discurso de Lula lido por Mauro Vieira em Bogotá cobra integração, combate articulado ao crime, defesa da democracia e protagonismo regional em energia
247 – O governo brasileiro defendeu neste sábado, 21 de março, na X Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), em Bogotá, uma estratégia de fortalecimento da integração regional como resposta às pressões geopolíticas, à fragmentação política e à ofensiva do crime organizado. As informações foram publicadas pela Agência Gov, ao relatar o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, lido pelo chanceler Mauro Vieira diante dos líderes da região.
Na mensagem apresentada pelo ministro das Relações Exteriores, o presidente sustentou que a CELAC precisa ser consolidada como instrumento de afirmação política da América Latina e do Caribe no cenário internacional. Em um dos trechos centrais do discurso, Lula reafirmou a defesa da soberania regional e rejeitou qualquer lógica de tutela externa. “Mas a América Latina e o Caribe não cabem no quintal de ninguém”, disse.
A fala brasileira ocorreu em um momento particularmente sensível para a região, marcado pela intensificação da polarização política, por disputas geoeconômicas entre grandes potências e pelo aumento de pressões extrarregionais. Na cúpula realizada na capital colombiana, a Colômbia transmitiu ao Uruguai a presidência pro tempore da organização, num contexto em que os debates sobre autonomia estratégica e cooperação regional ganharam centralidade.
Segundo o discurso lido por Mauro Vieira, o fortalecimento da CELAC deve ser entendido como parte de um esforço histórico para construir uma identidade própria latino-americana e caribenha. “Quando caminhamos juntos, somos capazes de sobreviver às turbulências da economia e da geopolítica mundial. A CELAC representa o maior esforço já feito para afirmar a identidade própria da América Latina e do Caribe no cenário internacional. Na América do Sul, a solidez institucional do MERCOSUL oferece uma boa plataforma para ampliar nossa integração”, destacou o texto.
A mensagem do presidente associa a integração regional não apenas a uma agenda diplomática, mas a uma necessidade concreta de desenvolvimento, proteção institucional e sobrevivência política em um mundo cada vez mais instável. Ao defender uma maior coordenação entre os países da região, o Brasil indicou que a fragmentação enfraquece a capacidade de negociação internacional da América Latina e do Caribe e amplia sua vulnerabilidade diante de interesses externos.
No campo da segurança, o discurso apontou o crime organizado como uma das maiores ameaças à estabilidade regional. A avaliação apresentada pelo governo brasileiro é a de que a desarticulação entre os países acaba favorecendo a expansão dessas organizações, cuja atuação atravessa fronteiras, conecta cadeias ilícitas globais e compromete a soberania dos Estados. Por isso, a cooperação entre os países da região foi apresentada como condição indispensável para uma resposta eficaz.
O texto sustenta que o enfrentamento ao crime exige atacar toda a sua estrutura, especialmente o topo da cadeia de comando e seus mecanismos financeiros. “Esse problema não é só latino-americano, é global. É fundamental conter a fraude, o fluxo de armas que vêm de países ricos, combater a lavagem de dinheiro realizada em paraísos fiscais e regular o uso de criptomoedas. Ações pontuais geram resultados momentâneos. Só o fortalecimento das nossas instituições garante soluções duradouras”, afirma o discurso.
Ao tratar desse tema, o governo brasileiro também mencionou o Projeto de Lei Antifacção, apresentado como iniciativa destinada a ampliar os instrumentos legais do Estado para enfrentar facções criminosas. O objetivo, segundo o texto, é acelerar investigações, atingir o braço financeiro desses grupos e ampliar a responsabilização de organizações criminosas violentas. “Nosso objetivo é melhorar a articulação entre as polícias e reforçar o papel da Polícia Federal no combate a organizações criminosas e milícias privadas com atuação interestadual e internacional”, diz outro trecho.
A defesa da democracia foi outro eixo central da intervenção brasileira. No diagnóstico apresentado à cúpula, há um ambiente de deterioração institucional alimentado por campanhas de desinformação, pela manipulação tecnológica e por tentativas de desacreditar sistemas eleitorais. O discurso alerta para o impacto político e social do uso desregulado de novas ferramentas digitais, sobretudo em contextos de disputa de poder.
“A manipulação de algoritmos e a produção de conteúdos falsos por inteligência artificial distorcem a realidade e desequilibram o jogo político. Também põem em risco a integridade dos mais vulneráveis”, pontuou o texto lido por Mauro Vieira. A avaliação reforça a preocupação do governo brasileiro com o uso da tecnologia como vetor de instabilidade democrática, em especial quando associado à circulação massiva de desinformação produzida dentro e fora dos países.
O discurso também trouxe um recado político sobre a necessidade de preservar a soberania de países da região submetidos a pressões externas. Durante a programação da X CELAC, Lula se reuniu em Bogotá com o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, no Centro de Convenções Ágora. Em fala no sábado, o presidente brasileiro criticou abertamente a situação enfrentada por Cuba e Venezuela. “O que estão fazendo com Cuba? O que fizeram com a Venezuela? Isso é democrático?”, questionou Lula.
A posição brasileira se conecta à visão de que a América Latina e o Caribe devem construir seus próprios caminhos, sem submissão a políticas de isolamento, coerção ou interferência. Essa linha política apareceu, no discurso, como parte de uma concepção mais ampla de autonomia regional, ancorada na cooperação entre países com histórias, desafios e potencialidades comuns.
Outro aspecto destacado foi o apoio brasileiro à presidência colombiana da CELAC e ao esforço para ampliar parcerias extrarregionais. O governo brasileiro apontou que a região precisa reconhecer melhor seu peso estratégico e transformar seus ativos em força política, econômica e diplomática. “Mantivemos diálogo com China, União Europeia e África. Esses países e blocos veem na América Latina e no Caribe potencial que nós mesmos não sabemos reconhecer e aproveitar. É um paradoxo que uma região com tantos recursos ainda padeça de tantos males. Somos potências em energia, biodiversidade e agricultura.”
Nesse ponto, o discurso articula integração regional e desenvolvimento soberano. A ideia central é que a América Latina e o Caribe não podem continuar ocupando uma posição subordinada nas cadeias globais, exportando matérias-primas e importando bens de maior valor agregado. O texto propõe uma mudança de paradigma, em que a região passe a disputar espaço em setores estratégicos e a construir uma inserção internacional menos dependente.
O debate sobre minerais críticos aparece como parte decisiva dessa estratégia. O governo brasileiro lembrou que a América Latina possui a segunda maior reserva mundial de minerais críticos e terras raras, insumos indispensáveis para a produção de chips, baterias, painéis solares e outros componentes fundamentais à revolução digital e à transição energética. Ao abordar o tema, Lula defendeu que a região tenha acesso a todas as etapas das cadeias de valor.
“Temos a oportunidade de reescrever a história da região, sem repetir o erro de permitir que outras partes do mundo enriqueçam às nossas custas. A adoção de um marco regional, com parâmetros comuns mínimos, aumentaria nosso poder de barganha junto a investidores”, manifesta o discurso. A formulação sugere uma agenda de coordenação regional para evitar a repetição do velho padrão extrativista que historicamente empurrou a América Latina para a condição de fornecedora de recursos naturais sem controle efetivo sobre os ganhos gerados.
A defesa do fortalecimento do Estado também apareceu na fala brasileira como resposta às desigualdades estruturais da região. O texto recorda que quase um terço da população latino-americana e caribenha trabalha por conta própria e que mais de 36% das pessoas com mais de 60 anos ainda permanecem no mercado de trabalho. O argumento é que esse quadro exige políticas públicas robustas, capazes de garantir proteção social, renda e dignidade.
“Nossos cidadãos estão envelhecendo e têm direito a uma aposentadoria digna. O papel dos governos é trabalhar pelo bem-estar das famílias”, salienta o discurso. Ao enfatizar essa dimensão social, o governo brasileiro insere a integração regional numa lógica que vai além do comércio e da diplomacia, associando-a também à construção de modelos de desenvolvimento que enfrentem precarização, desigualdade e vulnerabilidade social.
A infraestrutura foi tratada como uma das chaves para transformar o potencial regional em realidade concreta. Para o governo brasileiro, a integração física da América Latina e do Caribe é indispensável para ampliar o comércio intrarregional, reduzir custos logísticos, fortalecer cadeias produtivas e dar maior resiliência à região diante de crises internacionais. Nesse campo, a mensagem foi direta ao defender conexões mais amplas entre oceanos, países e sistemas energéticos.
“Precisamos de rotas por terra, água e ar, do Atlântico ao Pacífico, por onde os produtos possam circular e os cidadãos possam transitar. Necessitamos de uma rede elétrica interconectada, para garantir e baratear a oferta de energia. Em um mundo com bloqueios marítimos e cortes no abastecimento de insumos, essa integração é ainda mais importante”, apontou o texto.
A dimensão econômica do discurso também se concentrou no diagnóstico da baixa densidade do comércio dentro da própria região. Segundo a mensagem do presidente, a América Latina e o Caribe ainda dependem excessivamente de fornecedores externos para mercadorias e serviços que poderiam ser obtidos ou produzidos regionalmente. Esse padrão limita o dinamismo econômico interno e enfraquece a autonomia dos países diante de choques globais.
“As exportações intrarregionais na América Latina e no Caribe correspondem a apenas 14% do total do nosso comércio. Para reverter esse quadro, precisamos incentivar a internacionalização das nossas empresas.” A observação reforça a leitura de que o avanço da integração não é apenas uma bandeira política, mas uma necessidade econômica para ampliar a capacidade produtiva, gerar empregos, agregar valor e reduzir dependências externas.
Ao levar esse discurso à X Cúpula da CELAC, o governo brasileiro recolocou a integração regional no centro de sua estratégia diplomática. A mensagem lida por Mauro Vieira combina defesa da soberania, combate articulado ao crime organizado, reação à desinformação, proteção da democracia, fortalecimento do Estado e desenvolvimento produtivo. Em conjunto, esses elementos formam a base de uma proposta política para que a América Latina e o Caribe deixem de atuar de forma dispersa e passem a exercer um papel mais ativo no cenário internacional.
A intervenção brasileira em Bogotá, assim, reafirma a CELAC como espaço de concertação política e como instrumento para construir uma região menos vulnerável à coerção externa, mais integrada economicamente e mais preparada para disputar os benefícios da transição energética, da revolução tecnológica e das novas configurações da geopolítica mundial.

