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CIA deve se instalar na Venezuela após sequestro de Maduro

Agência de inteligência deve liderar retorno dos EUA ao país em meio à transição política e à incerteza sobre a reabertura da embaixada

CIA (Foto: Reuters)

247 - A Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) trabalha de forma discreta para estabelecer uma presença permanente em território venezuelano, como parte dos planos do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para ampliar sua influência sobre o futuro político do país após o sequestro do presidente Nicolás Maduro. As discussões envolvem a definição do tamanho e do papel da atuação americana no curto e no longo prazo, em um cenário marcado por transição política e instabilidade na área de segurança, informa a CNN internacional.

De acordo com a reportagem, fontes familiarizadas com o planejamento afirmam que o Departamento de Estado deverá assumir, no futuro, a presença diplomática formal dos Estados Unidos na Venezuela, mas que a CIA terá papel central na fase inicial desse retorno. A avaliação dentro do governo é que, diante do momento político delicado no pós-Maduro, a agência de inteligência estaria mais preparada para abrir caminho, garantir segurança e iniciar contatos estratégicos no país.

Uma das fontes ouvidas pela emissora resumiu a estratégia ao afirmar: “O Estado fincou a bandeira, mas a CIA é realmente a influência”. Segundo esse interlocutor, os objetivos imediatos da agência incluem preparar o terreno para esforços diplomáticos, estabelecer relações com lideranças locais e oferecer suporte de segurança em um ambiente ainda instável.

No curto prazo, autoridades americanas podem atuar a partir de um anexo da CIA antes mesmo da reabertura oficial da embaixada em Caracas. Essa estrutura permitiria contatos informais com diferentes facções do governo venezuelano, integrantes da oposição e a identificação de possíveis ameaças externas, em um modelo semelhante ao adotado pela agência na Ucrânia. Um ex-integrante do governo dos Estados Unidos explicou o raciocínio: “Estabelecer um anexo é a prioridade número um. Antes dos canais diplomáticos, o anexo pode ajudar a criar canais de ligação, que serão com a inteligência venezuelana, e isso permitirá conversas que os diplomatas não podem ter”.

A CIA se recusou a comentar oficialmente o assunto. Historicamente, os Estados Unidos costumam enviar diretores da agência ou altos responsáveis da área de inteligência para reuniões sensíveis com líderes estrangeiros, baseadas em informações sigilosas. Nesse contexto, o diretor da CIA, John Ratcliffe, foi o primeiro alto integrante do governo Trump a visitar a Venezuela após a operação que resultou no sequestro de Maduro, reunindo-se com a presidente interina Delcy Rodríguez e líderes militares no início do mês.

Segundo uma fonte familiarizada com o planejamento, parte da mensagem transmitida por Ratcliffe à nova liderança foi clara: a Venezuela não poderá mais servir de refúgio para adversários dos Estados Unidos. A CIA deve assumir a tarefa de informar autoridades venezuelanas sobre dados de inteligência relacionados a países como China, Rússia e Irã. Um ex-funcionário do governo explicou o procedimento: “Se você vai informar a Venezuela sobre preocupações com China, Rússia e Irã, não seria o Departamento de Estado fazendo isso. O DNI teria que decidir o que desclassificar para compartilhar, e então agentes de inteligência fariam o briefing”.

A presença da CIA no país, no entanto, antecede a queda de Maduro. Nos meses que antecederam a operação, agentes da agência já atuavam em solo venezuelano. Em agosto, um pequeno grupo foi instalado de forma clandestina para monitorar padrões, locais e deslocamentos de Maduro, informações que fortaleceram a ação que levou à sua captura. Entre os recursos utilizados estava uma fonte da CIA dentro do próprio governo venezuelano, que ajudou a rastrear os movimentos do então presidente.

Ainda segundo a CNN, a decisão do governo Trump de apoiar Delcy Rodríguez em detrimento da líder da oposição María Corina Machado também levou em conta uma análise sigilosa produzida pela CIA sobre os impactos imediatos da saída de Maduro do poder. O documento, solicitado por formuladores de políticas de alto escalão, avaliava cenários e consequências de curto prazo e deve servir de base para novas recomendações da agência sobre a condução política do país.

Após a captura de Maduro, a CIA passou a concentrar esforços em exercer influência americana a partir de dentro da Venezuela e em avaliar o desempenho da nova liderança. Fontes envolvidas nas discussões iniciais, contudo, afirmam que ainda aguardam uma definição clara da Casa Branca sobre os objetivos estratégicos de longo prazo. A indefinição persiste apesar das declarações públicas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que sua administração iria “administrar” o país.

Essa falta de diretrizes claras também afeta os planos para a reabertura da embaixada dos Estados Unidos em Caracas, fechada desde 2019, quando os diplomatas americanos foram retirados do país. Desde então, a Unidade de Assuntos da Venezuela opera a partir da embaixada americana em Bogotá, na Colômbia. Na semana passada, o Departamento de Estado anunciou a nomeação da diplomata Laura Dogu para chefiar a unidade, função anteriormente exercida pelo embaixador interino em Bogotá, John McNamara.

Um alto funcionário do Departamento de Estado afirmou que o plano para a Venezuela “exige um encarregado de negócios em tempo integral” e que “Dogu está bem posicionada para liderar a equipe durante este período de transição”. Apesar disso, autoridades envolvidas no planejamento disseram à CNN que ainda não receberam orientações coesas da cúpula do governo ou da Casa Branca.

Passos iniciais para a reabertura da embaixada já começaram. No início de janeiro, pouco depois da saída de Maduro, uma equipe diplomática e de segurança foi enviada a Caracas para avaliar a possibilidade de uma retomada gradual das operações. Segundo um alto funcionário do Departamento de Estado, “um número limitado de diplomatas e técnicos americanos está em Caracas realizando avaliações iniciais para uma possível retomada faseada das atividades”.

A situação de segurança continua sendo um fator decisivo. Diplomatas estrangeiros geralmente não recebem treinamento para autoproteção, o que reforça a expectativa de que a CIA assuma um papel relevante nos primeiros momentos do retorno americano. Também permanece a incerteza sobre como a população venezuelana reagirá a uma presença mais visível da agência de inteligência no país.

Durante anos, Nicolás Maduro retratou a CIA como um inimigo recorrente, acusando a agência de tentar derrubar seu governo. Agora, após ajudar a afastá-lo do poder, a CIA se prepara para desempenhar um papel central na condução das relações entre os Estados Unidos e a nova liderança venezuelana em um momento decisivo para o futuro do país.

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