Contagem rápida da Ipsos no Peru mostra Roberto Sánchez à frente de Keiko Fujimori por margem mínima
Peru tem eleição apertada e mercados reagem
247 - A eleição presidencial no Peru entrou em uma fase de forte incerteza após uma contagem rápida indicar vantagem estreita de Roberto Sánchez sobre Keiko Fujimori, em um resultado que movimentou os mercados financeiros e pode exigir semanas de apuração até a definição oficial.
Segundo o Valor Econômico, a contagem rápida feita pelo instituto Ipsos apontou Sánchez com 50,3% dos votos, contra 49,7% de Fujimori. Embora não seja o resultado oficial, o levantamento utiliza uma amostra representativa das seções eleitorais do país e já demonstrou precisão em disputas anteriores.
O cenário confirma uma disputa voto a voto no segundo turno peruano. A campanha foi marcada por temas como criminalidade, insegurança pública e desigualdade socioeconômica, em um país profundamente dividido entre a capital, Lima, e as regiões rurais.
Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, disputou novamente a Presidência defendendo uma agenda de enfrentamento ao crime e resgatando parte do legado político de seu pai. Roberto Sánchez, parlamentar de esquerda, buscou apoio sobretudo nas áreas rurais e entre eleitores afetados pela desigualdade regional.
Apuração oficial pode se arrastar
A autoridade eleitoral peruana, a ONPE, informou que a contagem total deve ser concluída até meados de julho. A demora é considerada relevante porque a margem entre os dois candidatos é pequena, o que aumenta a expectativa por uma apuração minuciosa.
Com cerca de metade das urnas apuradas, Fujimori aparecia momentaneamente à frente, com 52,65% dos votos, contra 47,35% de Sánchez. Esse resultado parcial, porém, reflete sobretudo a contagem inicial dos votos de Lima, principal base eleitoral da candidata de direita.
A expectativa é que Sánchez reduza a diferença à medida que os votos das áreas rurais sejam incorporados ao resultado oficial. O candidato tem forte presença nesse eleitorado, em trajetória comparada à do ex-presidente Pedro Castillo, que também obteve apoio expressivo fora dos grandes centros urbanos.
Após a divulgação da contagem rápida da Ipsos, Fujimori pediu cautela aos apoiadores em pronunciamento feito em um hotel em Lima. Ela afirmou que haverá “longos dias pela frente antes de sabermos o resultado final”.
Ipsos fala em empate técnico
Alfredo Torres, chefe da Ipsos, afirmou que os números indicam um empate técnico e que será necessária uma apuração completa para apontar o vencedor. A avaliação reforça a tensão política no país, que já passou por eleições presidenciais recentes decididas por margens muito estreitas.
A contagem rápida da Ipsos coincidiu com o resultado final nas eleições de 2021 e 2011. Em 2016, apesar de uma margem de erro de 0,4%, o instituto indicou corretamente o vencedor da disputa presidencial.
O histórico aumenta a atenção sobre o levantamento, mas não elimina a necessidade de aguardar os números oficiais. Observadores eleitorais e a própria ONPE afirmaram que a votação ocorreu sem grandes problemas, diferentemente do primeiro turno, que teve atrasos, um dia extra de votação e represamento dos resultados.
Mercados reagem ao avanço de Sánchez
A possibilidade de vitória de Roberto Sánchez provocou tensão nos mercados financeiros. Investidores acompanham com preocupação sua agenda de reformas, que inclui uma nova Constituição, revisão de concessões mineradoras e ampliação de investimentos nas regiões rurais.
As propostas de Sánchez ganharam força entre parte do eleitorado que vê na desigualdade um dos principais problemas do Peru. O discurso também repercutiu entre trabalhadores ligados ao setor de mineração informal, que cresceu no país.
Ao mesmo tempo, o avanço do candidato assustou agentes econômicos. As ações peruanas já haviam caído na sexta-feira, após pesquisas indicarem que Sánchez ganhava terreno e se aproximava de Fujimori.
O resultado também contrariaria a recente tendência de vitórias da direita em países da América Latina. Chile, Argentina, Costa Rica e Equador elegeram presidentes de direita em pleitos recentes, enquanto a Bolívia encerrou duas décadas de governo socialista em sua disputa presidencial no ano passado.
Insegurança dominou a campanha
A segurança pública foi uma das principais preocupações dos eleitores peruanos durante a campanha. Pesquisas indicaram forte apreensão com o aumento dos homicídios e das extorsões, problemas que levaram a protestos generalizados e contribuíram para a destituição da ex-presidente Dina Boluarte.
Fujimori explorou esse tema ao comparar a luta de seu pai contra insurgentes maoístas à atual batalha do país contra o crime organizado. Alberto Fujimori foi posteriormente preso por violações dos direitos humanos e morreu em 2024.
A candidata chegou ao segundo turno em sua quarta tentativa de vencer uma eleição presidencial. Em 2021, ela perdeu para Pedro Castillo por cerca de 45 mil votos, uma diferença ligeiramente superior a 0,2%.
Sánchez aposta em desigualdade e interior
Roberto Sánchez tentou reproduzir parte da estratégia que levou Castillo à Presidência em 2021. Seu foco esteve no abismo socioeconômico entre Lima e as regiões rurais, tema central para milhões de peruanos que se sentem excluídos das decisões políticas e econômicas do país.
No início da votação, Sánchez convocou moradores das “aldeias mais remotas” a comparecer às urnas. Fujimori, por sua vez, afirmou que seu partido havia recrutado 95 mil fiscais para acompanhar a votação em todo o país.
As seções eleitorais abriram às 7h, horário local, e fecharam oficialmente às 17h, mas permaneceram funcionando nos locais onde ainda havia eleitores na fila.
País enfrenta polarização e Congresso fragmentado
A disputa ocorre em ambiente de alta tensão após um primeiro turno caótico, marcado por acusações de fraude e ameaças de protestos dos dois lados. O vencedor também terá de enfrentar um Congresso fragmentado, responsável pela destituição de três presidentes nos últimos cinco anos.
A instabilidade institucional aumenta o desafio do próximo governo, que herdará um país dividido, pressionado pela criminalidade e com forte desconfiança em relação às instituições políticas.
Em Lima, o eleitor Eric Beya resumiu o clima de incerteza após a votação. “É complicado em um mundo e em uma eleição tão polarizados. Os sentimentos são difíceis de processar, mas espero que, independentemente de quem vença, possa haver alguma compreensão e reconciliação”, disse.
A contagem de votos continuará sendo atualizada enquanto o Peru aguarda a definição de uma das eleições mais apertadas de sua história recente.



