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Críticas a Boric explodem no fim do mandato e ativistas do Chile denunciam traição aos movimentos sociais

Lideranças sindicais, ambientalistas e feministas afirmam que promessas de mudança foram abandonadas

Presidente do Chile, Gabriel Boric (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

247 – A presidência de Gabriel Boric chega ao fim no Chile sob duras críticas de organizações sociais e políticas que estiveram entre as forças que impulsionaram sua ascensão ao poder. Lideranças ligadas ao sindicalismo, ao ambientalismo, ao feminismo e à luta do povo mapuche acusam o governo de ter rompido compromissos centrais assumidos no ciclo aberto pela revolta social, convertendo expectativas de transformação em frustração, repressão e continuidade de estruturas herdadas do passado.

Segundo reportagem da teleSUR, publicada nesta terça-feira, 10 de março de 2026, ativistas e dirigentes sociais denunciam que o governo Boric não apenas deixou de cumprir promessas históricas, como também aprofundou problemas sensíveis, entre eles o déficit habitacional, a criminalização de lideranças e o fortalecimento de mecanismos repressivos. O quadro, segundo os entrevistados, transformou o fim do mandato em um momento de forte decepção entre setores populares que apostaram em mudanças profundas no país.

Uma das críticas mais contundentes foi feita pelo sindicalista Luis Mesina, que resumiu de forma severa sua avaliação sobre a gestão. Em entrevista à teleSUR, ele afirmou: “Não avançou absolutamente em nenhuma medida das que haviam sido prometidas. E no tema da moradia eu creio que já é francamente, não há qualificativo para qualificar o déficit habitacional que com este governo aumentou, muito mais do que nos governos de Piñera”.

A declaração sintetiza um sentimento de desencanto presente em parte expressiva dos movimentos sociais chilenos. Para esses setores, o governo que surgiu embalado pelo discurso de renovação política e de superação do modelo neoliberal acabou preservando pilares fundamentais desse mesmo sistema. Em vez de consolidar direitos sociais, afirmam os críticos, a administração Boric teria mantido a lógica de mercantilização em áreas essenciais e frustrado expectativas de reforma estrutural.

No centro das críticas está também a política de segurança e a resposta estatal às lutas sociais. O advogado e ecologista Luis Mariano Rendón manifestou forte insatisfação com o que considera um recuo em compromissos elementares assumidos durante e após o estallido social. De acordo com a reportagem, ele destacou que, apesar das promessas de perseguir responsáveis por violações de direitos humanos cometidas naquele contexto, o que se viu não foi responsabilização, mas proteção aos autores desses crimes.

O diagnóstico de Rendón é reforçado por exemplos concretos citados pelos ativistas ouvidos pela teleSUR. Entre eles, aparecem o desaparecimento da simbólica Plaza Dignidad como referência política do ciclo de mobilizações, a multiplicação das remoções de ocupações de terra e a aprovação de dezenas de leis classificadas pelos críticos como repressivas. O conjunto desses fatos é apresentado como evidência de que o governo se afastou da agenda popular que o levou ao Palácio de La Moneda.

Outro ponto de grande peso político e simbólico diz respeito à situação do povo mapuche. Segundo a reportagem, mais de 100 dirigentes mapuche foram encarcerados durante o mandato presidencial de Gabriel Boric. O dado aprofunda a percepção, entre organizações sociais e setores progressistas, de que o governo recorreu à repressão também contra demandas históricas dos povos originários, em vez de construir uma saída baseada em reconhecimento político, diálogo e justiça.

Mesina e Rendón convergem na caracterização de que houve uma ruptura aberta entre o governo e o movimento social. Para ambos, não se trata apenas de insuficiência administrativa ou de promessas parcialmente cumpridas, mas de uma autêntica traição política. Essa formulação carrega enorme peso no cenário chileno, porque remete diretamente à expectativa de que Boric pudesse representar uma inflexão em relação ao receituário neoliberal consolidado durante décadas.

Na área da saúde, Luis Mesina aponta outro episódio que, em sua avaliação, simboliza a capitulação do governo diante dos interesses privados. Segundo ele, a intervenção para salvar as Isapres, seguradoras privadas que financiam atendimentos e benefícios de saúde, foi uma demonstração clara de recuo político. A crítica sugere que, em vez de enfrentar a estrutura privatista do sistema, o governo teria optado por preservar seus operadores.

As críticas também resgatam um dos momentos mais controversos da trajetória de Boric antes de sua chegada à presidência: o acordo de 15 de novembro de 2019, firmado no contexto da crise aberta pelas mobilizações massivas no país. A dúvida sobre o significado político daquele pacto permanece viva entre ativistas e intelectuais que enxergam ali um marco de contenção institucional do levante popular.

A socióloga e feminista Claudia Dides questionou diretamente a decisão de Boric de firmar aquele acordo. Segundo a teleSUR, ela criticou o fato de o então dirigente ter assinado o compromisso naquela noite sem reconhecer as violações de direitos humanos em curso, apesar da gravidade do momento vivido pelo país. Sua avaliação acrescenta uma dimensão ética e política ao debate sobre o papel desempenhado por Boric na reorganização institucional do Chile após as grandes manifestações.

A contestação ao governo, portanto, não se limita ao balanço administrativo de quatro anos de mandato. Ela alcança o próprio sentido da experiência política construída em torno de Boric: a de um dirigente jovem, vindo do campo progressista, que despertou esperanças de ruptura, mas termina sua passagem pelo poder acusado por antigos apoiadores de adaptação ao sistema, abandono das bases sociais e reforço de mecanismos tradicionais de dominação.

Esse desfecho ganha ainda mais dramaticidade diante da transição presidencial. Com a posse nesta quarta-feira, 11 de março, o ultradireitista José Antonio Kast sucede Gabriel Boric no comando do país. A mudança encerra um ciclo de altas expectativas e deixa como saldo uma profunda divisão no campo popular chileno, além de um ambiente de desalento entre movimentos que apostaram na possibilidade de transformação institucional depois do estallido social.

O fato de Boric deixar La Moneda apenas quatro anos depois de derrotar Kast nas urnas, e agora ser sucedido justamente por seu adversário de ultradireita, amplia o significado político do desgaste. Para os críticos, o fracasso em responder às demandas populares abriu espaço para o avanço conservador. Em outras palavras, a frustração social acumulada durante o mandato teria contribuído para desmontar a base simbólica que sustentou a vitória progressista anterior.

Ao final de seu governo, Boric passa a ser julgado não apenas por promessas não cumpridas, mas pelo contraste entre o discurso de mudança e a percepção de continuidade. As falas reunidas pela teleSUR mostram que, para parcelas importantes dos movimentos sociais chilenos, o ciclo que se encerra não representa uma etapa inconclusa de reformas, mas um processo de renúncia política diante das forças que o governo prometia enfrentar.

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