Fome, clima, energia, IA e comércio, diz Lula ao destacar eixos fundamentais para a cooperação entre África e América Latina
Em Bogotá, o presidente brasileiro propõe agenda que vai da erradicação da fome ao desenvolvimento da inteligência artificial para unir os dois continentes
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva delineou neste sábado (21), durante o Foro de Alto Nível CELAC-África, em Bogotá, uma proposta de cinco frentes prioritárias para estreitar os laços entre a América Latina e o continente africano. Em seu discurso, Lula estabeleceu como pilares centrais dessa aproximação a erradicação da fome, o combate às mudanças climáticas, o avanço na transição energética, o desenvolvimento da inteligência artificial e da infraestrutura digital, e a expansão do comércio e dos investimentos entre as duas regiões.
Na capital colombiana, o presidente brasileiro abriu sua intervenção com um alerta sobre a dimensão da crise alimentar que ainda assola os dois continentes. "340 milhões de pessoas passam fome na América Latina, no Caribe e na África. Essa é uma realidade inaceitável em um mundo que produz alimentos suficientes para todos", afirmou.
O presidente apontou o potencial produtivo africano como peça-chave para reverter esse quadro: "A América Latina e o Caribe têm demonstrado que é possível avançar com políticas públicas eficazes. A África reúne enorme potencial agrícola e pode se tornar um grande produtor mundial de alimentos. O Brasil está comprometido em contribuir para esse esforço."
Meio ambiente
A preservação ambiental e o enfrentamento à crise climática foram apresentados por Lula como o segundo vetor estratégico da cooperação. O presidente ressaltou que, apesar de não serem os principais responsáveis históricos pelo aquecimento global, os países das duas regiões figuram entre os mais atingidos por eventos climáticos extremos. "Egito e Brasil sediaram recentemente COPs do Clima. Em breve será a vez da Etiópia. Apesar de não sermos historicamente responsáveis pelo aquecimento global, somos os mais afetados por eventos climáticos extremos. Temos em comum a preocupação de combater processos de desertificação. Compartilhamos a responsabilidade de cuidar das duas maiores florestas tropicais do mundo: a Floresta Amazônica e a do Congo", disse.
Lula também destacou a atuação conjunta no combate aos crimes ambientais, já classificados como a terceira maior fonte de recursos para o crime organizado, e mencionou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre como instrumento concreto dessa parceria. "Essa iniciativa já mobilizou quase 7 bilhões de dólares", ressaltou, frisando que "não se trata de doações" e que "os lucros gerados pelo TFFF serão repartidos entre os países de florestas tropicais e os investidores."
A transição energética foi incorporada a esse eixo como consequência direta da agenda climática. O presidente apontou o contraste entre o expressivo potencial das duas regiões em fontes limpas — solar, eólica e hídrica — e o acesso ainda precário à eletricidade em vastas parcelas de seus territórios. "A formação de um mercado internacional de biocombustíveis abre oportunidades de desenvolvimento local e viabiliza a descarbonização da economia. Nossos países também possuem importantes reservas de minerais críticos, que desempenham um papel estratégico na transição para economias de baixo carbono", afirmou.
Inteligência Artificial
Lula defendeu que os dois continentes precisam avançar juntos no campo tecnológico. "América Latina e África não podem ficar para trás no aproveitamento dos benefícios que a Inteligência Artificial pode gerar em matéria de agricultura, saúde, educação e segurança", alertou. Para viabilizar esse salto, o presidente anunciou que o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê duas linhas de financiamento voltadas à cooperação bilateral: "São 20 milhões de dólares para financiamento de projetos conjuntos e 10 milhões para o uso de infraestruturas de IA brasileiras."
O presidente também defendeu uma governança digital que concilie avanço tecnológico e proteção de direitos. "Precisamos de um modelo de cooperação que alinhe governança digital e respeito aos direitos fundamentais, fortalecendo nossa soberania. A regulação do mundo virtual não é um mecanismo de controle. É antes de tudo um instrumento de inclusão e proteção das pessoas", disse. Lula citou ainda a aprovação recente do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente como exemplo concreto dessa orientação, voltado a proteger os jovens no ambiente online.
Comércio
No encerramento dos cinco eixos, Lula defendeu o fortalecimento das relações econômicas como alicerce das relações políticas entre os países. "As trocas comerciais e os fluxos de investimento conferem lastro às relações políticas entre os países. Por isso, devem ser outro eixo estruturante do relacionamento", afirmou. O presidente caracterizou a África como um continente de grande vitalidade econômica, movido por uma população jovem e por intensa urbanização, e lembrou que a Zona de Livre Comércio Continental Africana, em vigor desde 2021, é a maior do mundo, reunindo 1,3 bilhão de pessoas e um PIB combinado de US$ 3,4 trilhões.
Para avançar na agenda comercial, Lula apontou os acordos já firmados pelo Mercosul — com o Egito e com a União Aduaneira da África Austral — como base a ser ampliada. "É estratégico estender e aprofundar essas iniciativas. A construção de sinergias entre o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Africano de Desenvolvimento é imprescindível para ampliar o financiamento a projetos conjuntos", concluiu.


