‘Estou indignado com a passividade da ONU’, diz Lula ao citar a guerra no Irã
Presidente condena a omissão do Conselho de Segurança em Bogotá e alerta que o mundo vive a maior concentração de conflitos desde a Segunda Guerra
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou a tribuna da Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), realizada neste sábado (21) em Bogotá, na Colômbia, para fazer duras críticas à Organização das Nações Unidas e cobrar uma postura mais firme da instituição diante da escalada dos conflitos armados ao redor do mundo. O discurso, amplamente repercutido, foi marcado por um tom de indignação diante do que o presidente brasileiro classificou como omissão do principal organismo multilateral do planeta. Um dos conflitos mencionados foi o do Irã, atacado pelos Estados Unidos e por Israel desde o dia 28 de fevereiro.
Em seu pronunciamento, Lula dirigiu suas críticas especialmente ao Conselho de Segurança da ONU, apontando o que chamou de "falta total e absoluta de funcionamento das Nações Unidas". "Estou indignado com a passividade dos membros de segurança. Não foram capazes de resolver o problema da Faixa de Gaza, do Iraque, da Líbia, da Ucrânia, do Irã", afirmou o presidente diante dos líderes reunidos na capital colombiana.
No discurso, Lula traçou um panorama sombrio do cenário geopolítico atual e situou o momento presente em perspectiva histórica. "O mundo de hoje está vivendo a maior concentração de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial", declarou, referindo-se ao período entre 1939 e 1945.
Para o presidente, as consequências dessas guerras não se limitam ao campo humanitário. "As guerras na Ucrânia, em Gaza, no Irã e tantos outros conflitos geram efeitos econômicos, sociais e políticos no mundo todo", disse, destacando que uma das sequelas mais imediatas é o "aumento do preço da energia e dos alimentos".
A preocupação do presidente com o agravamento do cenário internacional ficou evidente ao longo de toda a fala. "Estou extremamente preocupado com o que está acontecendo", afirmou Lula, que em seguida recorreu a dados divulgados pela própria ONU em setembro de 2025 para reforçar seu argumento.
Estatísticas
Os números citados pelo presidente revelam uma corrida armamentista sem precedentes. Os gastos militares globais atingiram um novo recorde no ano passado, somando US$ 2,7 trilhões - a estatística foi divulgada em 9 de setembro de 2025. Mais de 100 países, distribuídos por todas as regiões do planeta, ampliaram seus orçamentos de defesa, elevando o investimento em armamentos a um patamar inédito na história recente.
O contraste entre esse volume de recursos e as necessidades humanas básicas foi o ponto mais contundente do discurso. De acordo com o levantamento citado por Lula, apenas 4% do total gasto em armamentos seria suficiente para erradicar a fome no mundo. Já 10% desse montante bastariam para eliminar a pobreza extrema do planeta — uma proporção que o presidente utilizou para evidenciar as prioridades que, em sua avaliação, têm orientado as potências globais em detrimento das populações mais vulneráveis.
Um novo relatório divulgado em 28 de julho do ano passado por cinco agências especializadas da ONU revelou que a fome recuou pelo segundo ano consecutivo no mundo. O documento, intitulado O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo (SOFI) 2025, estima que 8,2% da população global — o equivalente a 673 milhões de pessoas — viveram em situação de insegurança alimentar grave em 2024, índice inferior aos 8,5% de 2023 e aos 8,7% de 2022.
O levantamento destaca avanços expressivos no sul da Ásia e na América Latina. Na região formada pelos países latino-americanos e caribenhos, a taxa de subalimentação caiu para 5,1% em 2024, correspondendo a 34 milhões de pessoas — uma redução considerável frente ao pico de 6,1% registrado em 2020.


