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Hondurasgate: áudios expõem articulação entre EUA, Israel e aliados contra governos progressistas na América Latina

Diálogos vazados indicam articulações para a criação de uma rede de desinformação contra Claudia Sheinbaum e Gustavo Petro

Juan Orlando Hernandez e Donald Trump (Foto: Reuters)

247 - Uma série de gravações atribuídas ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández revelou uma suposta articulação internacional envolvendo setores da direita dos Estados Unidos, Israel e América Latina para desestabilizar governos progressistas da região. As informações foram divulgadas pelo jornal espanhol El País, com base em investigações do Diario Red.

Segundo os áudios vazados, Hernández — condenado nos Estados Unidos por narcotráfico e posteriormente perdoado pelo presidente norte-americano Donald Trump — teria coordenado ações para criar uma estrutura de desinformação voltada contra os governos da presidente mexicana Claudia Sheinbaum e do presidente colombiano Gustavo Petro. As gravações também mencionam apoio político e financeiro do presidente argentino Javier Milei.

De acordo com o material divulgado, a operação envolveria a criação de uma plataforma digital sediada nos Estados Unidos para disseminar conteúdos contra lideranças de esquerda latino-americanas. Em uma das conversas, Hernández afirma ao atual presidente de Honduras, Nasry Asfura, que precisava de US$ 150 mil para montar um escritório em território norte-americano.

“Vamos montar uma célula, presidente. A partir daqui, dos Estados Unidos, informativa, para que não nos rastreiem em Honduras. Vai funcionar como um site de notícias latino-americanas”

Na mesma conversa, o ex-presidente hondurenho afirma ter conversado com Javier Milei e sugere uma ação coordenada em nível continental.

“Estive em uma ligação com o presidente Javier Milei e foi exitosa. Muito, muito, muito boa, e acredito que neste momento podemos fazer coisas grandes para toda a América Latina”

Hernández também afirma que seriam preparados “dossiês” contra México, Colômbia e integrantes da família Zelaya, tradicional grupo político hondurenho ligado à esquerda.

Outro trecho das gravações aponta que Asfura teria concordado em enviar recursos adicionais para sustentar a operação. Segundo o áudio, o dinheiro seria retirado da Secretaria de Infraestrutura e Serviços Públicos de Honduras.

Em uma segunda conversa, desta vez atribuída a Hernández e à vice-presidente hondurenha María Antonieta Mejía, o ex-mandatário volta a falar sobre a necessidade de financiamento para “atacar e extirpar o câncer da esquerda” na América Latina.

As gravações ainda citam o envolvimento de aliados mexicanos não identificados e apontam que Javier Milei teria contribuído com US$ 350 mil para o projeto.

“Contei ao presidente Asfura que conseguimos falar com Javier Milei e ele está apoiando também com 350 mil dólares”

Segundo o portal Hondurasgate, os áudios foram extraídos de aplicativos como WhatsApp, Signal e Telegram e teriam sido gravados entre janeiro e abril de 2026. O site afirma que o conteúdo passou por análise forense utilizando a plataforma Phonexia Voice Inspector, tecnologia empregada por agências de inteligência e forças de segurança em diversos países.

Sheinbaum reage e denuncia rede internacional de fake news

A presidente mexicana Claudia Sheinbaum comentou o caso durante entrevista coletiva nesta quarta-feira. Sem citar diretamente nomes, ela afirmou que há uma articulação internacional da extrema direita envolvendo grupos da Espanha, Estados Unidos e Argentina para disseminar desinformação contra o governo mexicano.

Sheinbaum também fez referência indireta à presidente da Comunidade de Madri, Isabel Díaz Ayuso, que está em visita ao México.

“Podem montar um escritório de campanhas sujas contra o nosso governo em Honduras, com recursos de um povo amigo. Não haverá impacto”

Ela acrescentou que o projeto político de seu governo não será afetado por campanhas de desinformação.

“Porque pode haver dias de confusão, mas se mantivermos nossos princípios (...) ninguém vai afetar o projeto de transformação”

Relação com Trump e Netanyahu aparece nas gravações

Juan Orlando Hernández governou Honduras entre 2014 e 2022 pelo Partido Nacional. Em 2024, foi condenado em Nova York a 45 anos de prisão por associação com narcotraficantes responsáveis pelo envio de mais de 400 toneladas de cocaína aos Estados Unidos. O ex-presidente hondurenho foi acusado de receber propina do traficante mexicano Joaquín “El Chapo” Guzmán.

As gravações indicam que o perdão concedido por Donald Trump não teria sido apenas um gesto político, mas parte de um acordo mais amplo. Em um dos áudios, Hernández afirma:

“O dinheiro do perdão nem sequer saiu de vocês. Saiu de uma junta de rabinos e de pessoas que apoiavam Israel”

Em outra fala, ele diz que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu teve participação direta na negociação que resultou em sua libertação.

Crise diplomática amplia tensão regional

As revelações surgem em meio ao agravamento das tensões entre México e Estados Unidos. Washington acusa o governador licenciado de Sinaloa, Rubén Rocha Moya, e outros integrantes do governo mexicano de ligação com o narcotráfico, além de pressionar o México por medidas mais duras de combate ao crime organizado.

Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, voltou recentemente a mencionar a possibilidade de ações mais agressivas contra cartéis mexicanos, elevando a crise diplomática entre os dois países.

Na Colômbia, a relação entre Trump e Gustavo Petro também atravessa momentos delicados. Embora ambos tenham reduzido tensões após reunião em Washington, persistem divergências sobre políticas de segurança e combate ao narcotráfico.

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