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José Dirceu diz que ofensiva dos EUA contra a Venezuela é “guerra” e alerta para ameaça à soberania latino-americana

Ex-ministro afirma que sequestro de reservas busca impor uma nova fase da Doutrina Monroe e critica apoio de governadores brasileiros à agressão

José Dirceu diz que ofensiva dos EUA contra a Venezuela é “guerra” e alerta para ameaça à soberania latino-americana (Foto: TeleSur)

247 – O ex-ministro José Dirceu afirmou que os Estados Unidos travam uma “guerra” contra a Venezuela, sustentada por sanções econômicas, bloqueio comercial e ações de desestabilização, e que o objetivo real seria recolocar a América Latina sob tutela de Washington, em uma retomada “nua e cruel” da Doutrina Monroe. As declarações foram feitas em vídeo publicado no YouTube, no qual o ex-ministro também defende mobilização popular em defesa da soberania nacional e acusa setores políticos brasileiros de aderirem à ofensiva norte-americana.

Logo no início, Dirceu contesta versões de que teria ocorrido um golpe de Estado no país vizinho e afirma que o governo venezuelano permanece de pé. “Primeiro lugar, destacar que não houve golpe de estado na Venezuela. Não houve mudança de governo. O país está sendo governado pela vice-presidente”, diz. Ele também sustenta que há sustentação institucional e militar ao governo: “O parlamento, aliás, toma posse hoje, foi eleito e as Forças Armadas estão apoiando o governo”.

Em um dos trechos mais contundentes, Dirceu afirma que o presidente Nicolás Maduro e sua esposa foram alvo de um sequestro e que a escalada teria múltiplas frentes, incluindo medidas econômicas e pressão militar. “O presidente Maduro e sua esposa foram sequestrados. Houve uma agressão, uma guerra que se desdobrou em sanções, sequestro das reservas da Venezuela, bloqueio das suas exportações, importações, sabotagem da sua economia”, afirma. Na avaliação do ex-ministro, esse conjunto de medidas agravou uma crise que já estaria sendo superada e teria influenciado diretamente o êxodo venezuelano: “Foram sanções à agressão econômica que levou a imigração e não à política do governo”.

Dirceu também cita o que descreve como cerco militar dos Estados Unidos ao país. “Vamos lembrar que houve uma escalada tropas norte-americanas aeronavais cercando a Venezuela e impondo um bloqueio aéreo e naval ao país. E por fim, uma agressão militar”, diz, antes de concluir: “Portanto, há uma guerra”.

“Petróleo é pretexto”: Doutrina Monroe e ameaça à América Latina

Para Dirceu, a justificativa formal de defesa da democracia ou de direitos humanos não explicaria a ofensiva. “A razão não é só o petróleo, a riqueza da Venezuela ou o regime chavista ou a questão da democracia de direitos humanos. Tudo isso é pretexto”, declara. Na sequência, ele aponta o que considera o verdadeiro objetivo: “A questão é que os Estados Unidos decidiu retomar nu e cruelmente a doutrina Monre, que significa simplesmente a volta do imperialismo ou do neocolonialismo”.

O ex-ministro amplia o alerta para além da Venezuela e afirma que o continente corre o risco de perder capacidade de decisão sobre seus próprios destinos. “Nós todos aqui na América Latina seremos tratados como colônia dos Estados Unidos”, afirma, ao listar os efeitos que enxerga como mais graves: “Não vamos decidir o nosso destino político, decidir o destino das nossas riquezas naturais, nossas riquezas minerais, do nosso futuro ou com quem mantemos relações diplomáticas, comerciais”. Para ele, isso representa a perda do essencial: “Ou seja, perderemos aquilo que é o mais importante, que é innegociável, é irrenunciável, é a soberania”.

Constituição brasileira e a defesa da autodeterminação

Dirceu argumenta que a postura brasileira deveria se orientar por princípios constitucionais de não intervenção e defesa da autodeterminação. “A nossa Constituição diz claramente que o Brasil está fundado na defesa das autodeterminações dos países, dos povos, das nações, na independência nacional, na intervenção os assuntos internos, na solução dos conflitos mundiais pela negociação, pela paz e não pela guerra”, diz, citando ainda o respeito ao direito internacional e às Nações Unidas.

Ele associa esse contraste ao comportamento do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao comentar a ofensiva contra a Venezuela. “Tudo que Trump negou com a invasão da Venezuela”, afirma.

“Trump interferiu nas eleições” e a denúncia de “quinta coluna” no Brasil

O ex-ministro sustenta que a estratégia norte-americana envolveria interferência eleitoral e criação de governos alinhados na região. “Trump está interferindo nas eleições em todos os países”, afirma. Em seguida, lista exemplos: “Fez isso na Argentina, fez no Equador, acabou de fazer em Honduras, tá se aliando com governos como do Paraguai e de El Salvador para criar aqui na América Latina seus títeres, suas neocolônias”.

Dirceu também diz que haveria pressão sobre países que tentam manter política externa soberana. “Pressionar países como a Colômbia, o México, o Brasil, o Uruguai, o Chile que mantenham a postura de defesa da independência, da soberania e vai querer interferir nas eleições”, declara.

No trecho mais diretamente voltado à política interna brasileira, ele acusa governadores de atuarem como “quinta coluna” ao apoiar a agressão contra Caracas. “E aqui no Brasil há uma quinta coluna. Nós temos nossos traidores, começando pelo governador de São Paulo, Tarcío Freitas, pelo governador de Minas, Zema, pelo governador Caiado, até pelo governador Ratinho. Todos declararam apoio à guerra que os Estados Unidos faz contra a Venezuela”, afirma. Para Dirceu, apoiar a Venezuela é também proteger o próprio Brasil: “Defender a soberania da Venezuela é defender a soberania do Brasil, que amanhã poderemos ser nós”.

Ele diz ainda que Trump ameaçaria outros países e territórios, citando: “Eu sou Cuba, Canadá, a Groenlândia, Panamá, peço o Irã”.

Frente popular e projeto nacional de soberania

Dirceu conclui defendendo uma ampla mobilização popular e uma agenda de fortalecimento nacional. “Nosso papel, portanto, é defender a soberania e a independência e autodeterminação de todas as nações, o direito internacional e a carte das nações”, afirma, defendendo também a construção de “uma ampla frente de mobilização popular”.

Para ele, soberania não se reduz a discurso e exige bases materiais: modernização das Forças Armadas, indústria de defesa, autonomia tecnológica e financeira. “O Brasil tomar em suas mãos a modernização das suas forças armadas, da indústria de defesa nacional, a sua soberania tecnológica, inclusive sobre as bigtecs, a sua soberania financeira e retomar o projeto desenvolvimento nacional”, diz.

Dirceu vincula diretamente soberania e justiça social, defendendo que o povo só assumirá a defesa nacional se tiver direitos garantidos. “Mas para isso é necessário superar as desigualdades, a pobreza extrema, a concentração de renda em nosso país para que o povo assuma a defesa da nação”, afirma. E finaliza: “Qualquer defesa da democracia e da soberania está vinculada a um projeto nacional que supere a desigualdade e a pobreza e faça do Brasil um país não só soberano, democrático, mas justo”.

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