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Ben Norton alerta: agressão de Trump à Venezuela pode marcar volta da Operação Condor

Jornalista diz que sequestro do presidente Maduro e ataque dos EUA indicam tentativa de recolonizar a América Latina e controlar minerais estratégicos

Ben Norton (Foto: Reprodução Youtube)

247 – O jornalista Ben Norton avaliou como “um momento muito perigoso” a ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, afirmando que a ação sinaliza uma tentativa de Washington de retomar mecanismos de dominação típicos da Guerra Fria e das ditaduras militares latino-americanas.

A declaração foi feita em entrevista concedida à CGTN, na qual o analista alerta que a agressão norte-americana se insere em uma estratégia mais ampla de reconfiguração geopolítica do continente sob comando de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos.

Logo no início da entrevista, Norton faz uma comparação direta com a década de 1970, quando os EUA apoiaram regimes militares de extrema direita em diversos países sul-americanos. Para ele, o que está em curso agora se assemelha a uma “reversão” do ciclo histórico de lutas anticoloniais e soberania nacional vivido na segunda metade do século 20.

 “É um momento muito perigoso. O que estamos vendo é uma espécie de reversão dos movimentos anticoloniais do final do século 20. E isso me lembra os anos 1970, quando os EUA tinham algo conhecido como Operação Condor, na qual os EUA apoiavam uma série de ditaduras militares de direita em toda a América do Sul.”

Segundo Norton, o que se desenha é uma tentativa explícita de impedir que países latino-americanos sejam independentes e soberanos, forçando-os a seguir fielmente as orientações de Washington.

 “O que vimos essencialmente é que os EUA estão tentando voltar a essa era. Não querem que os países da América Latina sejam independentes e soberanos. Querem garantir que todos os países da região sigam obedientemente Washington.”

O jornalista afirma que essa política não é episódica nem improvisada, mas integra o que ele chama de “mentalidade de Guerra Fria” que domina o establishment norte-americano. Um dos pontos centrais dessa estratégia, segundo ele, é o controle dos recursos naturais e das cadeias produtivas ligadas a minerais considerados críticos.

Norton cita, como evidência, documentos oficiais da política de segurança dos Estados Unidos que estabelecem como meta a criação de uma nova cadeia de suprimentos para minerais estratégicos — incluindo terras raras — para reduzir dependências externas e preparar o país para futuros conflitos globais.

 “A estratégia de segurança nacional diz muito claramente que o governo Trump quer criar uma cadeia de suprimentos inteiramente nova para minerais críticos, incluindo terras raras.”

Ele ressalta que a Venezuela não é apenas um dos países com maiores reservas de petróleo do mundo, mas também possui gás, ouro e minerais estratégicos de grande interesse para a indústria militar e tecnológica.

 “Além de ter petróleo, gás e ouro, a Venezuela também tem minerais críticos e terras raras.”

Na análise do jornalista, a agressão contra Caracas estaria inserida em uma visão de mundo que trata toda a região como uma zona de influência exclusiva dos EUA, convertendo o hemisfério ocidental em uma espécie de “Fortaleza América” — expressão usada por setores estratégicos de Washington.

 “Isso faz parte de uma mentalidade de guerra nos Estados Unidos, em que eles querem transformar todo o hemisfério ocidental no que chamam de ‘Fortaleza América’ e criar uma nova cadeia de suprimentos, usando os recursos naturais da região para se preparar para futuros conflitos.”

Ao final, Norton afirma temer que a Venezuela seja apenas o primeiro alvo de uma escalada mais ampla. Para ele, o continente pode voltar a viver uma fase de ataques e intervenções diretas norte-americanas em outros países latino-americanos.

 “Tenho medo de que veremos mais ataques dos EUA em outros países da América Latina em um futuro próximo.”

A fala reacende o debate sobre a volta de métodos intervencionistas, típicos do século 20, em um novo contexto de disputa global por matérias-primas estratégicas. Para Norton, a América Latina pode estar novamente diante de um ciclo de coerção imperial, agora motivado não apenas por ideologia, mas também pela corrida por recursos fundamentais à economia de guerra e à indústria tecnológica.

Entenda o que foi a Operação Condor

A Operação Condor foi uma articulação repressiva internacional estabelecida na década de 1970 entre ditaduras militares da América do Sul — especialmente as do Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Brasil — com apoio dos Estados Unidos, tendo como objetivo perseguir, sequestrar, torturar e assassinar opositores políticos, inclusive fora das fronteiras nacionais.

O esquema funcionava como uma rede de cooperação entre serviços de inteligência e forças de segurança dos regimes autoritários. Militantes de esquerda, sindicalistas, estudantes, intelectuais e lideranças populares eram identificados como “inimigos internos” e alvo de ações conjuntas. Em muitos casos, pessoas perseguidas em um país eram capturadas em outro e transferidas ilegalmente, sem qualquer processo judicial, em operações clandestinas.

Documentos desclassificados e investigações históricas apontam que os EUA, por meio de agências como a CIA e de sua política externa durante a Guerra Fria, ofereceram apoio logístico, informações e respaldo político às ditaduras envolvidas, dentro da estratégia de combate a movimentos populares e governos considerados “ameaça” ao domínio norte-americano no continente.

A Operação Condor se tornou um dos símbolos mais brutais do terrorismo de Estado na região e deixou como legado milhares de mortos, desaparecidos e vítimas de tortura, além de ter consolidado regimes autoritários alinhados aos interesses geopolíticos de Washington.

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