Lavrov denuncia “brutal invasão armada” dos EUA na Venezuela após sequestro de Maduro por Trump
No balanço da diplomacia russa de 2025, chanceler diz que Washington ampliou a ofensiva na América Latina
247 – O chanceler da Rússia, Sergei Lavrov, afirmou nesta terça-feira (20) que os Estados Unidos promoveram uma “brutal invasão armada” na Venezuela, em um novo ataque que, segundo Moscou, confirma a escalada de Washington na América Latina após o sequestro do presidente Nicolás Maduro, ordenado por Donald Trump em 3 de janeiro. A declaração foi dada durante a coletiva anual em que Lavrov apresentou o balanço da diplomacia russa em 2025, marcada pelo aprofundamento das tensões internacionais e pelo avanço da política externa baseada na força.
As falas foram registradas em boletins publicados pela Sputnik Brasil, que reuniu os principais pontos da entrevista coletiva do ministro, incluindo a leitura russa sobre Venezuela, Ucrânia e o cenário geopolítico global. Ao citar Caracas, Lavrov recolocou a América Latina no centro do debate mundial, apontando que ações militares unilaterais e sequestros políticos voltaram a ser utilizados como instrumentos de dominação.
“Brutal invasão armada” e o choque regional após o sequestro de Maduro
Ao tratar da Venezuela, Lavrov foi direto ao classificar o ataque norte-americano como uma agressão aberta contra um Estado soberano. “O Ministro das Relações Exteriores da Rússia chamou o ataque dos EUA à Venezuela de uma brutal invasão armada”, registra o trecho divulgado.
A denúncia ocorre em um momento de forte instabilidade regional, depois que Trump anunciou a operação de 3 de janeiro, que resultou no sequestro de Maduro e em sua remoção forçada para os Estados Unidos. Na avaliação russa, esse tipo de ofensiva não apenas viola normas internacionais elementares, como inaugura um precedente perigoso de intervenção direta, que pode ser replicado contra outros países latino-americanos que se recusem a aceitar imposições de Washington.
Ao conectar o episódio venezuelano ao cenário global, Lavrov indicou que o planeta atravessa um período em que a força passou a se impor sobre a diplomacia, com risco crescente de novas agressões, bloqueios, chantagens e operações clandestinas em diferentes continentes.
“Quem é mais forte é que tem razão”: Lavrov descreve lógica dominante no mundo atual
Na mesma coletiva, Lavrov resumiu sua visão do sistema internacional com uma frase que funciona como alerta e diagnóstico. “No mundo moderno ocorre um jogo sobre o princípio de ‘quem é mais forte é que tem razão’”, afirmou o chefe da diplomacia russa.
A avaliação é central para entender por que Moscou apresenta a Venezuela como exemplo. Para a Rússia, a crise não se limita ao conflito interno venezuelano ou a disputas bilaterais com os EUA. O que está em jogo é uma dinâmica internacional em que países e governos são submetidos a pressões militares, sanções e desestabilização quando se tornam obstáculos geopolíticos.
A leitura russa também mira a Europa, que, segundo Lavrov, vem se submetendo a essa lógica, mesmo quando isso significa abdicar de autonomia estratégica e aceitar decisões que aprofundam guerras e tensões em série.
Ucrânia: Lavrov diz que a Rússia sempre buscou saída diplomática
Ao comentar a guerra na Ucrânia, Lavrov declarou que “à Rússia nunca faltou boa vontade para resolver a crise ucraniana”, mas que o Ocidente teria tentado “fazer descarrilar todos os acordos”.
Segundo ele, Moscou continua empenhada em encontrar uma solução diplomática, embora o ambiente internacional esteja cada vez mais condicionado por agendas externas que apostam na continuidade do conflito. A declaração reforça a narrativa russa de que a guerra se tornou um mecanismo de desgaste prolongado, sustentado por potências ocidentais que buscam impor uma derrota estratégica à Rússia.
Rússia promete cooperar sem chantagem e reforça defesa de interesses nacionais
Em outro trecho divulgado, Lavrov afirmou que a Rússia está pronta para trabalhar com todos os que estejam dispostos a cooperar “sem chantagem”, com base na reciprocidade. O ministro também afirmou que Moscou defenderá consistentemente seus interesses e não permitirá que seus direitos legais sejam tratados de forma leviana.
Lavrov acrescentou ainda que o isolamento buscado pelo Ocidente não se concretizou, sugerindo que, apesar das sanções e pressões políticas, a Rússia mantém capacidade de articulação internacional e de construção de parcerias fora do eixo euro-atlântico.
Irã e Venezuela entram no mesmo mapa da instabilidade internacional
Lavrov afirmou que a Rússia está profundamente preocupada com tentativas evidentes de desestabilizar a situação no Irã. Ele declarou também que Moscou está interessada em ajudar a reduzir tensões em todas as frentes, incluindo em torno da Venezuela e do Irã.
A associação entre os dois países revela uma visão mais ampla do Ministério das Relações Exteriores russo: para Moscou, os focos de instabilidade não são eventos desconectados, mas sim manifestações de um mesmo padrão de pressão externa, que combina mudança de regime, operações militares e ameaças permanentes.
América Latina sob ameaça e o retorno da política de força
Ao destacar a “brutal invasão armada” na Venezuela, Lavrov transforma o caso em símbolo de uma era em que o unilateralismo volta a operar sem freios. Na prática, a mensagem russa é que o sequestro de Maduro e a agressão militar contra Caracas não são apenas episódios, mas sinais de uma estratégia maior, na qual governos indesejados passam a ser removidos pela força.
O impacto político e diplomático é profundo. Para os países latino-americanos, o caso impõe uma questão decisiva: aceitar a normalização da violência como instrumento de política externa ou reagir, em bloco, para preservar a soberania regional e impedir a repetição do método.
A fala de Lavrov, ao colocar a Venezuela no centro do balanço da diplomacia russa, indica que a crise já ultrapassou as fronteiras do país e passou a integrar um conflito geopolítico global, no qual o direito internacional é tensionado ao limite e a força tenta substituir a negociação.


