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Milei reabre Casa Rosada à imprensa, mas mantém forte restrição ao trabalho dos jornalistas

Após 11 dias de fechamento e suspensão de credenciais, a reabertura ocorre sob novas regras que limitam circulação e acesso a áreas internas

Presidente da Argentina, Javier Milei (Foto: REUTERS/Denis Balibouse)

247 - O governo do ultradireitista Javier Milei reabriu a sala de imprensa da Casa Rosada após 11 dias de fechamento, com a retomada do acesso de jornalistas à sede do governo argentino nesta terça-feira (5). No período, cerca de 60 credenciais foram suspensas. A liberação, no entanto, ocorreu sob um novo conjunto de restrições, com limitações à circulação dos profissionais e ao acesso às fontes oficiais dentro do palácio presidencial, informa a RFI.

"Comunicamos que o seu credenciamento anual para a entrada à Casa Rosada foi aprovado", informou o governo aos jornalistas que estavam impedidos de entrar desde 23 de abril. "O credenciamento concedido habilita os profissionais da comunicação e representantes dos órgãos à sala de imprensa, à sala de conferências e aos demais salões onde houver atividades para as quais forem convidados", esclarece a nova regra, que restringe a movimentação dentro do edifício.

Restrições ampliam controle de circulação

A partir das novas normas, jornalistas ficam proibidos de circular pelos corredores da Casa Rosada e de acessar áreas onde estão fontes de informação. Também não podem permanecer no chamado "Pátio das Palmeiras", espaço central do palácio.

A sala de imprensa, localizada no primeiro andar, passou por alterações estruturais. Um vidro fosco foi instalado para impedir a visualização da circulação de servidores públicos. A porta de acesso ao local também foi fechada definitivamente.

Nos últimos meses, o acesso já vinha sendo limitado sempre que o presidente Javier Milei entrava ou saía do edifício. Outros três salões utilizados anteriormente pela imprensa também foram interditados.

O chefe de gabinete e porta-voz presidencial, Manuel Adorni, afirmou: "Desde o primeiro dia, este governo abriu as portas ao jornalismo. Sob nenhum outro governo, os jornalistas tiveram tanta liberdade para dizer o que quisessem, quando e onde quisessem. Somos o governo que mais impulsionou a liberdade de imprensa."

Apesar da declaração, a Casa Rosada nunca havia restringido de forma tão ampla o acesso da imprensa em governos democráticos anteriores. A sala de imprensa havia sido fechada apenas por alguns dias após o golpe militar de 1976. Mesmo na ditadura, entrevistas coletivas ainda eram realizadas.

Adorni também comentou o novo protocolo de acesso: "Depois de uma semana de avaliação, foi adotado um novo protocolo. Isto não é ameaçar o jornalismo. Não é ameaçar a liberdade de expressão. Estamos a favor da liberdade de imprensa. Tudo é a favor da segurança do presidente e do cuidado da Casa de Governo."

Conflitos com a imprensa e denúncias

O fechamento da sala de imprensa foi motivado pelo governo após a divulgação de imagens consideradas "clandestinas", gravadas por um jornalista com óculos equipados com câmera dentro da Casa Rosada. O governo denunciou o caso como "espionagem ilegal", enquanto o veículo envolvido afirmou que apenas áreas comuns foram registradas.

A decisão de suspender credenciais gerou críticas de entidades jornalísticas, veículos de imprensa e organizações civis. Paralelamente, o presidente Javier Milei intensificou ataques públicos a jornalistas, especialmente nas redes sociais.

Entre os termos utilizados pelo presidente estão: "Lixos imundos", "lixos repugnantes", "corruptos", "delinquentes" e "ladrões". Milei também afirma que "95% dos jornalistas" recebem subornos e repete a frase "Não odiamos os jornalistas o suficiente".

Aumento de ataques à imprensa

Segundo levantamento do FOPEA, o Fórum de Jornalismo Argentino, foram registrados 278 ataques contra jornalistas em 2025, alta de 55% em relação ao ano anterior. O presidente Javier Milei aparece como principal responsável, com 119 registros de ataques.

O presidente do FOPEA, Fernando Stanich, afirmou: "A presença da imprensa é insubstituível. Se eventualmente houver uma suposta 'má prática' jornalística, ela deve ser investigada. De nenhuma maneira pode haver uma sanção coletiva. O único responsável por garantir a liberdade de expressão é o governo. O que está sendo feito é um bloqueio físico e um apagão informativo na Casa Rosada."

O relatório também aponta aumento de violência digital, processos judiciais contra jornalistas e restrições de acesso à informação.

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