HOME > América Latina

Peru tem eleições neste domingo, com 35 candidatos à presidência

Eleição peruana ocorre com Congresso desacreditado e forte influência externa

Peru vai às urnas em eleição fragmentada (Foto: Reuters)

247 - O Peru vai às urnas neste domingo (12) em um cenário marcado por fragmentação política, crise institucional e forte influência internacional. Com 35 candidatos na disputa presidencial e nenhum ultrapassando 15% das intenções de voto, o processo eleitoral reflete um ambiente de instabilidade e baixa confiança nas instituições.

As informações foram publicadas pelo Brasil de Fato, que destaca o contexto de crise estrutural enfrentado pelo país. Segundo a reportagem, além da presidência e vice-presidência, também será eleito um novo Congresso bicameral, composto por deputados e senadores, modelo que havia sido rejeitado em referendo, mas posteriormente restabelecido pelo próprio Parlamento.

O cenário eleitoral ocorre após um período de intensa instabilidade política, em que o Peru teve quatro presidentes em apenas cinco anos. Ao mesmo tempo em que ocupa posição estratégica global como um dos maiores produtores de cobre, o país enfrenta desigualdade social persistente, precariedade nos serviços públicos e descrédito generalizado nas instituições políticas.

Mesmo com participação elevada devido ao voto obrigatório, o entusiasmo da população é limitado. O processo eleitoral também é atravessado por interesses internacionais: enquanto a China amplia investimentos no setor mineral, os Estados Unidos reforçam sua presença militar no país.

Disputa entre direita e fragmentação popular

O dirigente político Santos Saavedra, presidente do partido Unidad Popular e da aliança Venceremos, descreve o momento como crítico. Segundo ele, o Peru chega às eleições “em meio a uma confusão total, com instituições capturadas e uma política cada vez mais distante da população”.

Entre os candidatos da direita, destacam-se Rafael López Aliaga e Keiko Fujimori. López Aliaga é frequentemente comparado a figuras como Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e Javier Milei, da Argentina, por seu discurso ultraconservador e defesa do livre mercado. Já Fujimori representa a continuidade do fujimorismo, corrente política de direita com forte presença histórica no país.

Ambos aparecem com índices entre 10% e 13% nas pesquisas e compartilham propostas alinhadas ao modelo neoliberal, com foco na segurança pública e no fortalecimento do Estado em áreas repressivas.

Do lado das forças populares, o campo é fragmentado. A candidatura mais competitiva registra cerca de 7% das intenções de voto. Parte desse grupo mantém vínculo político com o legado de Pedro Castillo, eleito em 2021 e posteriormente destituído e preso, episódio que segue influenciando o debate político nacional.

Economia e propostas em disputa

Os projetos em disputa refletem visões distintas de país. Candidatos da direita defendem a ampliação da abertura econômica, incentivo à mineração, privatizações e redução do papel do Estado. Em setores como saúde e educação, há tendência de maior participação da iniciativa privada.

Já as forças de esquerda propõem mudanças estruturais, incluindo a convocação de uma Assembleia Constituinte, industrialização da economia, revisão de incentivos fiscais a grandes empresas e fortalecimento dos serviços públicos. Também defendem maior controle nacional sobre recursos estratégicos.

No cenário internacional, a direita mantém alinhamento com os Estados Unidos e governos conservadores da região, enquanto a esquerda busca maior integração latino-americana e autonomia nas relações externas.

Impacto regional e disputa geopolítica

A eleição peruana ocorre em um momento decisivo para a América Latina, com outros pleitos previstos na região ao longo do ano. O resultado pode influenciar o ambiente político regional.

Para os Estados Unidos, o Peru tem importância estratégica tanto militar quanto política. Já a China vê o país como peça fundamental para garantir acesso a minerais essenciais para sua economia.

Nesse contexto, a disputa eleitoral ultrapassa o âmbito interno e se insere em um cenário global de disputa por influência e recursos.

Mobilização social e desafios futuros

Nos últimos anos, o Peru registrou intensas mobilizações populares, especialmente após a destituição de Pedro Castillo. Os protestos exigiram sua libertação, respeito ao voto e reformas estruturais, sendo reprimidos com violência, resultando em mais de 100 mortes, além de milhares de feridos e perseguições judiciais.

Apesar da repressão, os movimentos sociais seguem ativos, indicando que a disputa política no país também se dá fora das instituições formais.

O resultado das urnas deve manter o padrão recente de fragmentação no Congresso, com predominância da direita e divisão das forças de esquerda, o que levanta dúvidas sobre a governabilidade. Como aponta Saavedra, o principal desafio não é apenas vencer a eleição, mas conseguir governar em um cenário de profunda instabilidade política.

Artigos Relacionados