HOME > América Latina

Refinaria de Cuba avança no uso de petróleo nacional

Refinaria Hermanos Díaz processa 20 mil toneladas de petróleo cubano e busca reduzir impactos do bloqueio energético dos EUA

Cuba condena e denuncia a nova escalada do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos (Foto: Granma)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

247 - A Refinaria de Petróleo Hermanos Díaz, em Santiago de Cuba, avançou no processamento de petróleo nacional em meio ao agravamento das restrições energéticas impostas pelos Estados Unidos, em um esforço tecnológico para garantir derivados essenciais à economia cubana. As informações são do Granma.

De acordo com reportagem do Granma, a unidade, vinculada à União Cuba-Petróleo (Cupet), já havia conseguido, em 2024, processar petróleo bruto pesado importado com o uso de um solvente criado por especialistas da própria refinaria, elevando o material a 16 graus API e permitindo sua conversão em petróleo bruto médio para posterior obtenção de derivados.

A engenheira Irene Barbado Lucio, diretora-geral da refinaria, afirmou que aquela inovação marcou uma virada para a empresa, após anos de dificuldades produtivas. “Essa façanha tecnológica permitiu que nossa empresa deixasse para trás o período entre 2016 e 2021, marcado por prejuízos, produção escassa e o lamentável êxodo de engenheiros, técnicos e pessoal de serviço”, declarou.

O cenário, porém, voltou a se agravar em 2026. Segundo Barbado Lucio, “a situação tornou-se extremamente complexa devido ao bloqueio energético imposto pelo governo Trump, impedindo que o petróleo que costumávamos comprar no exterior chegasse às nossas instalações”. Donald Trump é o atual presidente dos Estados Unidos.

Uma refinaria projetada para petróleo leve

A Hermanos Díaz é uma das quatro refinarias existentes em Cuba e foi ampliada na década de 1980. Apesar de sua importância estratégica, a planta foi originalmente concebida para processar petróleo bruto leve, o que tornou mais complexo o desafio de trabalhar com petróleo pesado e, posteriormente, com o petróleo nacional cubano.

Víctor Manuel Díaz Despaigne, diretor da área de refino, afirmou que a saída encontrada foi apostar na capacidade interna da indústria. “Mais uma vez, a opção era nos emanciparmos por nossos próprios esforços, conforme aconselhado pelo Comandante-em-Chefe no conceito de Revolução. Foi ele quem promoveu a expansão e modernização de nossa planta na década de 1980, mas quero enfatizar que ela foi projetada para processar petróleo bruto leve”, disse.

Quando iniciou o processamento do petróleo bruto pesado importado, a refinaria produzia nafta, gasolina, combustível para perfuração de poços, óleo combustível para termelétricas e geração distribuída, além de insumos destinados à produção de asfalto e à indústria do níquel.

O avanço foi atribuído ao trabalho de mais de 700 trabalhadores, à adoção de ajustes tecnológicos e ao papel dos inovadores e racionalizadores da refinaria. Segundo a direção da unidade, esses resultados permitiram gerar e distribuir lucros, além de reduzir a saída de profissionais qualificados para outras empresas da Cupet e para o setor privado.

Barbado Lucio destacou que a adaptação exigiu estudos, experimentação e participação de diferentes áreas técnicas. “Foi um processo complexo, que envolveu muito estudo e experimentação, no qual nossa equipe de manutenção — responsável, como o próprio nome indica, por garantir o funcionamento da indústria — e a Diretoria de Refino de Cupet também desempenharam um papel fundamental”, afirmou.

A diretora também ressaltou que a empresa precisou superar limites considerados quase intransponíveis. “Se no final da última década tivéssemos nos resignado às limitações tecnológicas que, obviamente, impossibilitavam o refino de petróleo bruto pesado, o destino dessa importante indústria teria sido muito incerto. Por isso, unidos, superamos o que parecia invencível”, declarou.

Modernização e controle ambiental

Com cerca de sete décadas de operação, a refinaria passa por melhorias em sua infraestrutura, nos processos produtivos e nas condições de trabalho. Entre os avanços citados estão o projeto de medição de vazão, voltado a garantir rastreabilidade no processamento, evitar perdas de combustível e reforçar sistemas de segurança.

Também foram aprimorados sistemas de combate a incêndio, proteção contra raios e mecanismos de contenção de derramamentos, medidas consideradas importantes para reduzir impactos ambientais na Baía de Santiago.

A pressão sobre o fornecimento externo de petróleo, segundo a direção da refinaria, levou a empresa a buscar uma nova alternativa: processar o próprio petróleo bruto nacional. Barbado Lucio afirmou que fornecedores passaram a ser pressionados pelo governo dos EUA para interromper vendas de petróleo bruto a Cuba.

“Por meio de coerção e chantagem, o governo dos EUA ditava aos nossos fornecedores que não nos vendessem mais petróleo bruto. Mas o maior risco era que o país ficasse sem nafta, essencial para continuar a extração em nossos poços de petróleo”, disse.

Diante desse quadro, a refinaria decidiu aplicar ao petróleo nacional a experiência adquirida no tratamento do petróleo pesado importado. “Se conseguíssemos converter petróleo bruto pesado importado em petróleo bruto médio, dada a urgência, nos propusemos a fazer o mesmo com o petróleo bruto nacional”, afirmou a diretora.

Primeiros resultados com petróleo cubano

Após estudos e ajustes intensivos, a Hermanos Díaz realizou em março a primeira extração a partir do petróleo bruto nacional. O processo permitiu obter gasolina, diesel e óleo combustível, além de manter em funcionamento a exploração dos campos petrolíferos do país.

“Realizamos uma primeira extração do petróleo bruto nacional no mês de março; obtivemos gasolina, diesel e óleo combustível e, sobretudo, a exploração de nossos campos petrolíferos não parou”, destacou Barbado Lucio.

Os resultados iniciais foram considerados encorajadores, mas também demonstraram a necessidade de novas adaptações na planta. O petróleo cubano apresenta alta viscosidade, acidez e teor de enxofre, características que tornam o processamento mais difícil e exigem medidas adicionais de controle operacional.

Nesta etapa inicial, a refinaria passou a trabalhar com petróleo bruto da região oeste de Cuba. Segundo o engenheiro Irenaldo Pérez Cardoso, diretor adjunto da Cupet, esse petróleo “apresenta melhores condições, flui melhor e tem menor viscosidade”.

As ações ocorreram em paralelo aos trabalhos do Centro de Pesquisa do Petróleo, baseados na termoconversão, e foram discutidas pelo presidente Miguel Díaz-Canel Bermúdez com integrantes do Conselho Nacional de Inovação.

Díaz-Canel afirmou que o país rompeu uma visão considerada limitadora sobre o uso do petróleo nacional. “Quebramos um critério, um tabu que existia no país, de que o petróleo bruto nacional não podia ser usado para outros fins, e praticamente o condenamos a ser usado diretamente em um grupo de usinas termoelétricas”, declarou.

Cupet processa 20 mil toneladas de petróleo nacional

Nos últimos seis meses, segundo as informações apresentadas, Cuba recebeu apenas um navio-tanque russo. Nesse contexto, a Cupet manteve o trabalho com petróleo bruto nacional e processou 20 mil toneladas.

A refinaria Hermanos Díaz assumiu novamente o desafio tecnológico. De acordo com Irene Barbado Lucio, a experiência apresentou “resultados superiores à primeira fase piloto, com a produção de nafta solvente destinada a poços e óleo combustível”.

O diesel obtido a partir do petróleo nacional ainda não atende a todos os padrões exigidos para comercialização. Por isso, foi necessário misturá-lo a um combustível com características adequadas para tornar possível seu uso.

O teste realizado em maio atingiu os objetivos previstos. O óleo combustível extrapesado já está sendo utilizado na Usina Termoelétrica Antonio Maceo, com resultados considerados positivos, e seu aproveitamento na indústria do níquel está em avaliação.

Embora o volume processado ainda não seja suficiente para atender à demanda nacional, o avanço é considerado relevante para ampliar o uso eficiente dos recursos energéticos internos de Cuba.

Ajustes técnicos e inovação

A especialista sênior do Departamento de Tecnologia, Yanet Revé Luna, explicou que as características do petróleo nacional exigiram cálculos e adaptações no processo produtivo. “Por isso, reiteramos que, devido ao alto teor de enxofre, acidez e viscosidade do petróleo bruto nacional, os especialistas tiveram que realizar cálculos e ajustes para otimizar e facilitar o processo de refino”, afirmou.

Entre as medidas adotadas, foram reabilitados sistemas de lavagem de petróleo bruto e definida a dosagem de um novo produto, o Vapen 220 pe, usado para neutralizar ácidos corrosivos no topo da torre de destilação atmosférica.

“Foi estabelecida a dosagem de um novo produto chamado Vapen 220 pe, que serve como neutralizador no topo da torre de destilação atmosférica dos ácidos corrosivos que se formam durante o processo de fracionamento”, explicou Revé Luna.

Considerando as características do petróleo cubano, a refinaria também construiu uma linha para coletar gases poluentes emitidos no topo da torre de destilação a vácuo. Esses gases passaram a ser queimados nos fornos, medida voltada à preservação ambiental e à proteção da saúde dos trabalhadores.

Outro problema operacional estava relacionado à dificuldade de circulação do combustível pelas tubulações de dez polegadas de diâmetro até a unidade de sucção e processamento. “Fizemos uma interconexão com uma tubulação de 20 polegadas”, afirmou Revé Luna.

Com essas transformações, a equipe da Hermanos Díaz segue aplicando ciência, inovação e soluções próprias para ampliar, dentro das possibilidades atuais, a disponibilidade de derivados de petróleo em atividades estratégicas de Cuba.

Artigos Relacionados

Tags