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Venezuela tem quase 50 mil desaparecidos e esperança de encontrar sobreviventes diminui a cada hora

Terremotos devastam a Venezuela, deixam milhares de mortos e feridos e impõem corrida dramática contra o tempo nos escombros

Escombros após terremoto na Venezuela (Foto: Gaby Oraa/Reuters)
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247 - A busca por sobreviventes entra em fase crítica na Venezuela, onde equipes de resgate veem a esperança diminuir após os fortes terremotos que atingiram a costa do país caribenho, enquanto o número de mortos, feridos e desaparecidos aumenta em meio à destruição, relata a Folha de São Paulo.

Os trabalhos de resgate chegaram ao quarto dia sob condições cada vez mais difíceis, especialmente nas áreas próximas a La Guaira, cidade costeira situada atrás do El Ávila, região montanhosa que marca a paisagem de Caracas e concentra parte dos esforços humanitários após a tragédia.

Integrantes das equipes que atuam na linha de frente afirmam que as primeiras 72 horas, consideradas decisivas para localizar pessoas com vida sob os escombros, já ficaram para trás. A partir desse ponto, a possibilidade de encontrar sobreviventes diminui drasticamente, embora os resgatistas sigam trabalhando em busca de qualquer sinal de vida.

“Nossa prioridade segue sendo encontrar o máximo de pessoas vivas, mas neste sábado já era claro que só encontraríamos cadáveres”, afirmou a venezuelana Andy, responsável pela logística do grupo mexicano Topos Aztecas, enviado ao país para apoiar as operações de emergência.

O grupo atuou inicialmente em Caracas e depois avançou em direção a La Guaira, considerada o epicentro da crise. No edifício Petúnia, construção histórica que desabou com os tremores, os resgatistas localizaram oito corpos em três dias de trabalho. A estimativa é que ao menos outros seis ainda estejam sob os escombros. Até o momento, o único resgatado com vida no local foi um cachorro.

“Agora já sabemos que a chance de encontrar vivos é de 1%, e então nós apegamos a esse 1%”, diz David Villa, outro integrante da equipe de resgate.

Mesmo diante da queda nas chances de sobrevivência, os grupos afirmam que a retirada dos corpos permanece como uma missão essencial, tanto por razões sanitárias quanto pelo direito das famílias de se despedirem de seus parentes. “Ainda assim, para nós é igualmente importante resgatar os corpos, para que as famílias tenham dignidade e possam estar com seus entes queridos”, afirmou Andy.

A chuva que atinge a região adiciona mais um obstáculo às buscas. Além de dificultar o acesso a áreas afetadas, o mau tempo pode comprometer estruturas já abaladas e retardar a chegada de equipamentos, alimentos, remédios e equipes especializadas.

O balanço mais recente divulgado pelo governo de Delcy Rodríguez aponta ao menos 1.430 mortos e mais de 3,2 mil feridos. Um número anterior informado pelo Ministério da Saúde indicava pelo menos 4,3 mil feridos. Há ainda mais de 3 mil famílias desalojadas. Segundo estimativa da ONU, o total de desaparecidos ultrapassa 50 mil pessoas.

A tragédia também provocou uma reorganização da ajuda humanitária. Após o fim do período considerado mais crítico para os resgates, voluntários e organizações passaram a mapear as necessidades específicas de cada região. A dimensão da destruição torna a resposta mais complexa, pois diferentes áreas demandam itens e serviços distintos.

O WhatsApp se tornou uma das principais ferramentas de mobilização. Por meio de grupos e mensagens instantâneas, voluntários divulgam listas de itens considerados urgentes. Entre as necessidades imediatas estão colírios, devido à presença de cinzas e fumaça nos destroços, e máscaras faciais, usadas tanto por segurança quanto por causa do forte odor de corpos em decomposição.

A coordenadora de comunicação das ONGs Alimenta la Solidaridad e MiConvive, Claudia Astor, afirmou que as organizações, há dez anos dedicadas ao apoio a comedores populares que oferecem alimentação a pessoas de baixa renda, redirecionaram seus esforços para atender as vítimas da tragédia em La Guaira.

Segundo a ONU, mais de 6,7 milhões de pessoas foram afetadas de alguma maneira pelos terremotos em toda a Venezuela. O número revela a escala nacional do desastre, mesmo que a destruição mais intensa esteja concentrada em áreas específicas da costa e da Grande Caracas.

A logística é um dos principais desafios. O acesso a La Guaira se tornou mais restrito, e o governo proibiu a entrada de pessoas sem salvo-conduto, sob o argumento de evitar interferências nas buscas e garantir a circulação de equipes humanitárias. A medida também evidencia a dificuldade de organizar a resposta em uma área com infraestrutura abalada.

Em Caracas, é cada vez mais difícil encontrar alguém que não conheça uma vítima ou uma pessoa desaparecida. Com o passar dos dias, familiares enfrentam a angústia de ver a esperança se transformar em luto, enquanto desaparecidos começam a ser considerados potenciais mortos pelas equipes e comunidades atingidas.

Apesar da comoção, a capital venezuelana ainda mantém parte de sua rotina funcional. Não há relatos generalizados de desabastecimento. As áreas mais afetadas incluem bairros de classe média alta, como Altamira e Los Palos, onde prédios ruíram e outras estruturas permanecem sob risco. A presença policial é intensa.

Nos postos de gasolina, cartazes com fotos de desaparecidos foram afixados em busca de informações. Outros pontos disponibilizam contatos de hospitais, linhas de emergência e redes de apoio para tentar reunir dados sobre vítimas e sobreviventes.

A diáspora venezuelana também começou a se mobilizar. Voluntários e cidadãos que vivem fora do país tentam retornar para ajudar familiares, participar de ações de resgate ou colaborar com a reconstrução. A chegada, porém, é difícil. Com o colapso do aeroporto central da Grande Caracas, os principais pontos de entrada passaram a ser Maracaibo, Valência e Barcelona, todos mais distantes da capital.

Os voos estão lotados de venezuelanos que viviam no exterior e agora tentam voltar ao país. Em uma aeronave que partiu do Panamá com destino a Barcelona, uma mensagem sonora resumiu o clima de solidariedade e dor nacional: “Aos que viajam para estar com seus entes queridos. Aos que viajam para reconstruir e resgatar. Desejamos a vocês força. Há coisas que não podem ser destruídas, como a força de um povo. Força ao grande povo da Venezuela".

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