2026: o ano começou ainda em 2025
Até outubro, muita coisa vai acontecer
O 1º de janeiro costuma ser o dia das promessas, mas, no Brasil, ele funciona cada vez mais como uma prévia do que já estava em curso. Quando Lula confirmou que pretende disputar a reeleição em 2026, ainda em outubro de 2025, a disputa deixou de ser hipótese e virou uma operação permanente de tentativas de desgaste, pressão, ataques por antecipação.
Claro que me incomoda alguém ser contra Lula, mas me incomoda ainda mais uma certa assimetria, a facilidade com que certos filtros passam a valer como “bom senso universal” quando o assunto é Brasil. No fechamento de 2025, por exemplo, a revista The Economist publicou um editorial dizendo, em essência, que Lula não deveria concorrer de novo. E aqui eu falo da Inglaterra como país e como contexto político, isto é, do lugar institucional e cultural de onde esse texto é escrito e de onde esse tipo de “bom senso” é exportado com facilidade. A Inglaterra também vive instabilidade política prolongada, erosão de confiança e uma sequência recente de trocas de primeiro-ministro que não cabem num parágrafo moral sobre o que o Brasil “deveria” fazer.
A revista e aqueles que fazem parte dela tem todo o direito de opinar. Eu também tenho o direito de dizer que esse tipo de peça costuma virar munição pronta para um vocabulário que dispensa explicação e, por isso, é bastante útil: o tal “populismo”. Se a palavra “populismo” fosse usada com rigor, eu até aceitaria o debate no plano conceitual. Só que, na prática, ela entra como espécie de carimbo. Ela aparece para reduzir políticas sociais reais do país a uma espécie de truque eleitoral, como se combater fome, recompor renda, ampliar acesso a serviços básicos fosse, por definição, manipulação do “povo”. Um rótulo resolve rápido o que daria trabalho discutir.
Se alguém quiser o rigor, ele existe. O argentino Ernesto Laclau, por exemplo, em A Razão Populista. trata o populismo como uma lógica de construção do político: a formação de um “povo” a partir de demandas diversas, articuladas contra um bloco de poder. Ou seja: não é sinônimo de política social, nem de gasto público, nem de campanha bem-feita. É um modo de organizar o conflito político.
O que se evita, com esse atalho, é justamente a conversa que deveria existir: custo, prioridade, resultado e transparência. Em vez de criticar uma política pelo que ela entrega ou pelo que ela custa, critica-se pelo tipo de eleitor que ela beneficia. A palavra fica até com aparência acadêmica, mas funciona como julgamento moral.
A disputa de 2026, porém, não se fará só em editoriais e colunas. Ela vai se decidir também num terreno mais sujo e mais eficiente: a produção industrial de mentiras, agora turbinada por ferramentas que geram texto, voz, imagem e vídeo com uma rapidez que a checagem não acompanha. Nem falo de boatos isolados, acho que isso ficou na época das fofocas de calçada no interior. Falo dos conteúdos fabricados que parecem plausíveis o suficiente para circular, contaminar conversas familiares, grupos de mensagem e, principalmente, a disposição de algumas pessoas de confiar em qualquer coisa.
O próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já tratou disso ao regular o uso de inteligência artificial e ao proibir ou restringir práticas como deepfakes na propaganda eleitoral, justamente porque o risco é real. Também criou um centro integrado para enfrentar desinformação e defender a democracia, com foco inclusive nesse tipo de ataque ao processo eleitoral. Isso é um sinal claro de que a ameaça é concreta e que 2026 não será uma eleição “normal” para quem leva informação a sério.
E há ainda um fator externo que não pode ser tratado com ingenuidade: a política norte-americana sempre irradiou efeitos sobre a América Latina, seja por interesses econômicos, seja por alinhamentos diplomáticos, seja pelo modo como narrativas são exportadas. Em 2026, tudo isso tende a aumentar porque os próprios Estados Unidos entram no ano carregando crises internas.
O debate público em torno dos arquivos ligados ao caso Epstein, por exemplo, virou um assunto de primeira grandeza, com o Departamento de Justiça revisando milhões de documentos e sendo pressionado por prazos e por transparência. Nesse cenário, “mudar o foco” não é uma teoria conspiratória, é um mecanismo conhecido de sobrevivência política. E quando a agenda doméstica vira um problema, a tentação de exportar conflitos, fabricar inimigos (vide o caso da Venezuela) e reencenar disputas externas aparecem com frequência.
O Brasil, pela dimensão e pelo peso simbólico na região, vira um alvo especialmente útil. E isso também não é novidade histórica. Em outras épocas, os Estados Unidos buscaram no Brasil um aliado regional, influenciaram alinhamentos e sustentaram estratégias na América Latina, inclusive em períodos sombrios, como o das ditaduras. Se antes isso passava por diplomacia, dinheiro e bastidores, hoje passa também por narrativas que atravessam fronteiras em horas.
Some-se a isso um ponto prático: métodos de desinformação viajam muito bem. Técnicas de guerra cultural, ataques coordenados, falsos escândalos e “verdades” prontas atravessam fronteiras como se fossem conteúdo local. Quando chegam, chegam adaptadas, com sotaque brasileiro, mas com manual importado. Por isso, quando digo que 2026 começou ainda em 2025, não estou fazendo figura de linguagem. Estou descrevendo um ambiente em que a eleição é preparada muito antes por uma briga virtual, com uma máquina de desgaste funcionando em tempo integral.
Os questionamentos, para mim, são bastante incômodos: quem vai ter coragem de discutir política social, economia e democracia com critérios, sem esconder preferências atrás de palavras prontas, e sem aceitar que “saídas falsas” determinem o que o Brasil pode ou não escolher? Quem vai sustentar esse debate quando a campanha de desgaste apertar o modo turbo, quando as mentiras parecerem notícia e quando tudo for projetado para cansar e não para convencer o eleitor?
Até outubro, muita coisa vai acontecer. E justamente por isso eu não compro a fantasia de que existe um “fator sorte” capaz de garantir a reeleição por inércia, como se bastasse lembrar que o outro lado é pior. Não basta. A campanha já está em curso e, desta vez, o desgaste não vem em ondas. Ele vem por um bombardeio diário de mentiras. Não adianta torcer para que o adversário erre (mesmo que eles tenham errado bastante ultimamente). Afinal eleição não se vence com torcida. Eleição se vence com muito trabalho e mobilização.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




