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Sara York

Sara Wagner York é jornalista, psicanalista, PhD em Educação, pós-doutora em Semiótica, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. Especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, é autora do primeiro trabalho sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido no mestrado em 2020. Tem um filho, é avó e foi a primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro, pela Brasil 247, tornando-se referência nacional nas discussões sobre mídia, educação e direitos humanos. É imortal da Academia de Letras e Artes do Estado do Rio de Janeiro.

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28 de Junho e a Vanguarda Trans na América Latina

De Stonewall ao Brasil, luta LGBTQIA+ avança entre conquistas judiciais, resistência ao conservadorismo e ocupação trans de espaços de poder

28 de Junho e a Vanguarda Trans na América Latina (Foto: Scarlett Rocha)
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Por Sara York / Buenos Aires - AR 

O dia 28 de junho não é uma data de conciliação; é o eco de uma revolta. Quando Marsha P. Johnson e tantas outras ergueram a voz e o corpo em Stonewall, em 1969, elas não pediam licença — exigiam o direito de existir. Décadas depois, no Brasil, essa marcha continua. Mas com uma peculiaridade histórica que desenha a nossa democracia: aqui, a cidadania LGBTQIA+ não foi entregue por um Legislativo historicamente covarde e sitiado pelo fundamentalismo; ela foi arrancada, linha por linha, através do sistema judiciário.

Da garantia do casamento civil à criminalização da LGBTfobia equiparada ao racismo, passando pelo direito à retificação do nome e gênero diretamente no cartório: todas as nossas grandes conquistas estruturais recentes nasceram das cortes de justiça. É o Supremo Tribunal Federal (STF) cumprindo o papel que o Congresso se recusa a exercer. Essa judicialização da vida nos protege, mas também escancara a fragilidade de direitos que dependem da caneta de magistrados, e não da consolidação de leis perenes.

Essa fragilidade se manifesta na crueza do cotidiano. Se olharmos para o retrovisor recente de 2025 e os primeiros meses de 2026, os paradoxos são bizarros. Assistimos a tentativas sistemáticas de censura a livros em bienais, projetos de lei municipais inconstitucionais tentando proibir a linguagem inclusiva até em conversas informais e a persistência de uma violência que insiste em nos empurrar de volta para a margem. Celebramos mais um ano de orgulho sob a sombra de uma reação conservadora que se calibra exatamente na proporção dos nossos avanços.

Mas a beleza da nossa história é que nós paramos de apenas resistir; passamos a ocupar a estrutura. E contra a violência deles, nós seguimos felizes, produzindo amor e pensamento crítico.

A resposta orgânica às frentes conservadoras e ao neofascismo encarnado por figuras como Romeu Zema e Nikolas Ferreira em Minas Gerais tem nome, sobrenome e identidade: a coragem pedagógica de Érica Hilton e Duda Salabert. Elas transformaram o parlamento em trincheira contra o retrocesso. No Nordeste, a luta ganha contornos de profunda interseccionalidade com a atuação de Thabatta Pimenta no Rio Grande do Norte, que encampa a pauta trans coadunada à luta PCD (Pessoas com Deficiência), trazendo a vivência real do cuidado e do afeto que herdou na criação de seu irmão, desde o falecimento de sua mãe.

Na máquina do Estado, Symmy Larrat — a primeira Secretária Nacional de Direitos das Pessoas LGBTQIA+ — consolida, desde 2022, a nossa transição de corpos vigiados para mentes que formulam políticas institucionais.

E a nossa ocupação também é intelectual. A academia e as letras, espaços historicamente usados para nos patologizar, agora curvam-se à nossa excelência. Érica Hilton acaba de se tornar Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) — um feito monumental para uma trajetória tão jovem e potente. Na Academia Brasileira de Letras do Cárcere, vozes como a de Indianara Siqueira e da própria Érica subvertem a lógica da exclusão.

E me permitam aqui a primeira pessoa: ocupar uma cadeira como imortal da Academia de Letras e Artes do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) não é um triunfo individual. É a demarcação de que nossas corpas, nossas travestilidades e nossas memórias são literatura, são arte, são patrimônio imaterial deste país. Não somos mais o objeto de estudo; somos as intelectuais que escrevem a história.

O 28 de junho no Brasil de 2026 nos lembra que a nossa emancipação é um projeto em andamento, sofisticado e plural. E que ninguém se engane sobre as bases teóricas que sustentam essa revolução de corpos e mentes: as principais teóricas dos estudos feministas e LGBT do Brasil ainda são as mulheres lésbicas, um reflexo vivo e inestimável da luta mundial por direitos.

Escrevo e comemoro esta data diretamente de Buenos Aires, celebrando não apenas a nossa história coletiva, mas também os muitos jovens que vivem o amor trans, lésbico, Intersexo e queer sem fronteiras, porque Stonewall é aqui, acolá e onde quer que estejamos vivas, amando e brilhando.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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