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Pepe Escobar

Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

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A Barbária ataca novamente

"É melhor o Sul Global ir se preparando – rápido", alerta o jornalista Pepe Escobar

Nicolás Maduro, Donald Trump, navio anfíbio USS Iwo Jima navegando no mar do Caribe e o mapa da América do Sul ao fundo (Foto: Divulgação I Logan Goins/Marinha dos Estados Unidos)

Ainda assim, o neo-Calígula não irá parar – imitando sua boca motorizada. O que Império do Caos, sob a Doutrina Donroe, pretende é domínio estratégico, a qualquer custo, sobre os corredores de energia e comércio.

Não culpe César, culpe o povo de Roma que tão entusiasticamente o aclamou e adorou e se alegrou, com a perda de sua liberdade, que dançou em seu caminho e dedicou a ele procissões triunfais. Culpe o povo que o aplaude quando ele fala no Fórum sobre a nova sociedade, boa e maravilhosa, que Roma agora será interpretada como significando ‘mais dinheiro, mais bem-estar e mais segurança, mais vida fácil às custas dos industriosos’.

Marcus Tullius Cícero

Os Frenéticos Anos Vinte começaram com um assassinato: o do General Soleimani, em Bagdá, em 3 de janeiro de 2020. Ordenado por Trump.

A segunda metade dos Frenéticos Anos Vinte começa com um bombardeio/sequestro. Um mini Choque e Terror sobre Caracas, um ataque da Força Delta. Em 3 de janeiro de 2026. Ordenado por Trump 2.0.

O enfurecido Donald Trump disse que iria comandar a Venezuela.

Esse neo-Calígula mequetrefe, o autoproclamado Imperador da Barbária, no final das contas, talvez não venha a comandar coisa alguma, nem sequer sua própria boca motorizada.

A operação Venezuela foi conduzida com base em uma cartilha imperial clássica. Sanções sanguinárias aplicadas durante anos, bloqueando o comércio e a movimentação de capital, causando hiperinflação e crises humanitárias incontroláveis. O alvo: causar o máximo possível de sofrimento aos venezuelanos para que um golpe militar se tornasse inevitável.

O sequestro de um presidente em seu quarto de dormir, no meio da noite, como ocorreu na Venezuela, obedeceu à clássica cartilha da CIA. Eles conseguiram subornar o chefe da segurança de Maduro, bem como seu círculo mais próximo, mas não (itálicos meus) os militares venezuelanos.

Maduro estava sob a proteção apenas de agentes venezuelanos, e não de russos, como confirmado por fontes independentes de Caracas. Quando um comando russo chegou à residência de Maduro, eles, de início, encontraram resistência por parte de integrantes da segurança corrupta do presidente.

Quando estes foram neutralizados e os russos entraram na residência, Maduro já havia sido levado pela Força Delta, com importante ajuda interna. O chefe da equipe de segurança de Maduro foi então apreendido – e devidamente executado.

No dia seguinte ao sequestro, soldados venezuelanos revelaram que a Força Delta pretendia estabelecer uma cabeça de ponte em uma de suas unidades em Caracas como base operacional para uma invasão terrestre ao estilo Baía dos Porcos. Mas, nas palavras de um soldado, “Nós lutamos, abrimos fogo e forçamos o helicóptero a decolar sem tomar a unidade militar”.

O Ministério da Defesa venezuelano informou então que a maior parte da equipe de segurança Maduro foi morta durante a operação, sem especificar nomes. E Cuba anunciou a morte de 32 de seus soldados – que certamente não faziam parte da equipe de segurança corrompida.

O governo chavista permanece no poder – chefiado pela formidável Delcy Rodriguez, constitucionalmente declarada presidente interina. Nenhum dos quinta-colunistas internos ao governo foram desmascarados até agora.

Um artigo publicado no pasquim de propaganda Miami Herald, usando, como única fonte, o suspeitíssimo ex-presidente da Colômbia Santos Calderon, sem qualquer confirmação de fontes venezuelanas, espalhou a ficção de que Delcy Rodriguez fez um pacto com o Trump 2.0 para entregar Maduro.

Passaram-se menos de 48 horas para que a narrativa bombástica do Calígula da Casa Branca começasse a desmoronar. O jornalista investigativo Diego Sequera, no terreno na Venezuela, já havia desmentido o tsunami de bobagens que alagava tanto a imprensa convencional quanto as redes sociais.

Além disso, podem esquecer os 29 milhões de venezuelanos saudando como “o libertador” o neo-Calígula gringo e boquirroto. Agora ele se vê obrigado a fazer novas ameaças pessoais a Delcy Rodriguez e – novidade nenhuma – prometer que o Império do Caos irá bombardear novamente a Venezuela.

A Doutrina Donroe decodificada

Vamos direto ao ponto. Além das notórias “maiores reservas de petróleo do planeta”, de importância essencial para um império em dificuldades financeiras para construir garantias, há diversas outras razões importantes para o ataque à Venezuela.

1. Bellum Judaica. Além de manter estreitas relações com os membros dos BRICS Rússia, China e Irã, Caracas, claramente, tomou o partido da Palestina e criticou a peste sionista. Então, de um só golpe, temos não apenas a aplicação prática do “corolário à Doutrina Monroe”, explícita na Nova Estratégia de Segurança, mas principalmente, da “Doutrina Donroe” usada como a “Doutrina Sionroe” por um bobo da corte sionista que, por acaso, é também o neo-Calígula.

Haveria maneira melhor de ensinar mais uma lição a todo o Sul Global sobre a ilimitada Pax Judaica – aliás, Bellum Judaica? Porque eles agora encontram-se em modo Guerras Eternas intermináveis contra todos os “amalequitas”, e todos os que não se ajoelharem frente a seu altar serão taxados de “amalequitas”. Não é de admirar que Delcy Rodriguez tenha ido direto ao ponto, qualificando, em seu primeiro discurso, as “conotações sionistas” da operação de sequestro ordenada pelo Neo-Calígula.

2. Trovão heavy metal. Menos de 24 horas após o bombardeio/mini Choque e Terror/sequestro, e por uma bagatela de 8 bilhões, Washington fechou um enorme negócio com uma empresa de fundição para processar nada menos que um trilhão em metais preciosos venezuelanos.

O negócio foi financiado pelo J.P.Morgan – que acontece de estar em sérias dificuldades em razão de suas massivas posições vendidas em prata física. O bom é que a Venezuela está bem no meio do Arco Minero, que concentra incontáveis trilhões de ouro e prata ainda não extraídos.

3. O ângulo do petrodólar. O cerne da questão não são as gigantescas – e ainda intactas – reservas petrolíferas em si, que provocam salivação no neo-Calígula. O principal é o petróleo denominado em petrodólar. Imprimir uma quantidade infinita – e intrinsecamente sem valor – de papel higiênico verde para financiar o complexo industrial-militar exige que o dólar dos Estados Unidos permaneça como a moeda de reserva internacional, o petrodólar inclusive.

O Império do Saque simplesmente não poderia permitir que o petróleo venezuelano fosse vendido em yuans, rublos, rúpias ou uma cesta de moedas ou, em um futuro próximo, em um mecanismo sancionado pelos BRICS lastreado em petróleo e ouro. O alerta vermelho já estava ligado quando a Venezuela se juntou ao sistema CIPS de pagamentos transfronteiras da China.

Então, no front do petróleo, há a questão de roubar o petróleo venezuelano do Citgo – a subsidiária do PDVSA sediada em Hudson – para beneficiar o bilionário sionista Paul Singer e seu fundo hedge, o Elliot Investment Management. Um “sionista orgulhoso” e membro do conselho da AIPAC, Robert Pincus, foi indicado por um tribunal para facilitar a fraude, resultante de o Citgo dever mais de 20 bilhões de dólares a credores: um outro efeito tóxico de anos de sanções.

Além disso, e contrariamente ao que reza a ficção do neo-Caligula de que “esse petróleo é nosso”, o historiador venezuelano Miguel Tinker Salas provou conclusivamente de que forma o país nacionalizou seu setor petrolífero em 1976: “Ele era controlado por venezuelanos. Ele era gerido por venezuelanos”. As empresas estrangeiras, incluindo “a subsidiária mais lucrativa” da ExxonMobil foram integralmente indenizadas, “muito acima do que elas já haviam extraído”.

E então há o crucial ângulo chinês.

Houve um tsunami de especulações esplendidamente estúpidas de que a China não fez nada para “salvar” a Venezuela. A China é sofisticada demais para entrar em brigas de rua. Pequim enfrentará o Império do Caos nos tribunais.

Silenciosamente, sem bravatas, Pequim deixou claro que qualquer ataque estadunidense a projetos das Iniciativa Cinturão e Rota (ICR) seladas por contrato em todo o Sul Global – 150 países participantes no mínimo – será respondida com arbitragem internacional em todos os tribunais de Caracas a Jacarta. Tradução – da única maneira que os bárbaros ocidentais entendem: o custo legal das operações de mudança de regime se tornará proibitivo.

Um teste talvez venha muito em breve. Supondo-se que o neo-Calígula de fato “comande” a Venezuela – e aqui paira uma grande dúvida – tudo o que Pequim precisa é exigir o cumprimento de um único contrato com uma Venezuela controlada por Trump. Veremos se o neo-Calígula tem colhões para impedir que o petróleo venezuelano seja vendido à China. E boa sorte para a tentativa de impor mudança de regime depois disso.

Minha Força tem Razão

Ainda assim, o neo-Calígula não irá parar – imitando sua boca motorizada. O que o Império do Caos, sob a Doutrina Donroe, pretende é domínio estratégico, a qualquer custo, sobre os corredores de energia e comércio. Não há como obrigar o neo-Calígula a desistir do petróleo venezuelano. Porque esse seria o precedente estratégico supremo do novo paradigma: Minha Força Tem Razão é o lema da nova desordem internacional baseada em regra absolutamente nenhuma.

O que quer que venha a acontecer na Venezuela, portanto, interessa diretamente a todo o Sul Global/Maioria Global.

Pelo menos agora as coisas estão cristalinamente claras. Direito internacional é para os trouxas. Nós buscamos e destruímos, bombardeamos, sequestramos, fazemos seja o que for – porque nós podemos. Não há limites para o combo Barbária/Bellum Judaica.

E o que vem a seguir?

O Irã. O criminoso de guerra de Tel Aviv já deu ordens à Bellum Judaica. Mesmo que a única “guerra” que o governo Trump 2.0 e seu Secretário das Guerras Eternas conseguem levar a cabo se resuma a um bando de Forças Especiais tentando conseguir uma “cabeça de ponte”, lançando carregamentos inteiros de armas de longo alcance. Washington é pateticamente incapaz de iniciar uma operação de armas combinadas em larga escala.

Groenlândia. Não por “razões de defesa”, como se gabou o neo-Calígula, e sim por razões de pilhagem de recursos naturais em modo lebensraum imperial e de Guerra no Ártico. Trump acaba de dar à insignificante Dinamarca apenas tempo o bastante para digerir a notícia: “Nós nos preocuparemos com a Groenlândia daqui a dois meses”.

E então há Cuba – o projeto de estimação do gusano Marco Rubio, que, em seu obscuro passado, era bastante próximo às elites narcoterroristas.

Diversos outros nós do Sul Global – Colômbia, México. E, caso eles não se comportem, diversos nós dos BRICS. Agora é Totalen Krieg. E o combo Império do Caos/Bellum Judaica “estará assistindo como a um programa de televisão”. É melhor o Sul Global ir se preparando – rápido.

Tradução de Patricia Zimbres

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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