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Cibele Amaral

Defensora do Direito Constitucional do Acesso à Alimentação e Nutrição

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A bioquímica do açúcar e a política do pânico: por que o “vício” é uma construção pseudocientífica

A dietoterapia baseada em evidências demonstra que a proibição total baseada na tese do vício é contraproducente

Açúcar (Foto: Eric Gaillard / Reuters)

A discussão sobre o açúcar na dieta contemporânea transcendeu os laboratórios para se tornar uma ferramenta de controle social e retórica política. Enquanto a ciência nutricional busca entender o impacto dos açúcares adicionados nas doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), uma vertente de médicos "dissidentes" — frequentemente alinhados a ideologias de extrema direita — propaga a ideia de que o açúcar é uma substância viciante. Esta narrativa ignora a bioquímica fundamental e as diretrizes de saúde pública, focando na patologização de nutrientes para validar discursos de autoridade e moralismo biológico.

Bioquímica e Metabolismo: Glicose vs. Frutose

Para entender por que o açúcar não vicia, é preciso analisar como ele é processado. O açúcar de mesa (sacarose) é um dissacarídeo composto por glicose e frutose.

O Papel da Glicose

A glicose é a moeda energética universal. Sua regulação é estritamente controlada pela insulina. O cérebro depende dela para funcionar e a ativação do sistema de recompensa ao consumi-la é um sinal fisiológico de sobrevivência, não de patologia.

O Metabolismo Hepático da Frutose

Críticos costumam citar a frutose como a "vilã" por ser metabolizada quase exclusivamente no fígado.

- Fisiologia: A frutose não estimula a secreção de insulina nem de leptina (hormônio da saciedade) da mesma forma que a glicose.

- O Mito do "Veneno": Embora o excesso de frutose livre (especialmente em xaropes de milho) possa sobrecarregar o fígado (lipogênese de novo), isso é um processo metabólico dose-dependente e não um processo neuroquímico de vício.

A Instrumentalização pela Extrema Direita e a Medicina "Alternativa"

A tese do vício em açúcar encontrou terreno fértil em movimentos de extrema direita que pregam o "retorno à natureza" de forma distorcida e a autossuficiência absoluta.

- Descrédito às Instituições: Assim como no movimento antivacina, esses grupos atacam a OMS e o Ministério da Saúde, alegando que as diretrizes oficiais fazem parte de um sistema para "viciar a população".

- Moralismo Individualista: Ao tratar o açúcar como droga, remove-se o debate sobre a desigualdade social — onde os ultraprocessados são mais baratos e acessíveis — e foca-se na "falta de caráter" ou "fraqueza" do indivíduo que não consegue "largar o vício".

Desvio Científico: Médicos que utilizam essa retórica frequentemente buscam vender "detox" e métodos de emagrecimento rápido que não possuem respaldo em ensaios clínicos controlados.

A dietoterapia baseada em evidências demonstra que a proibição total baseada na tese do vício é contraproducente.

- Comportamento Alimentar: O desejo intenso por açúcar é, na maioria das vezes, resultado de dietas hipocalóricas severas ou restrição cognitiva ("não posso comer").

- Ambiente Obesogênico: A solução para o alto consumo de açúcar não é o pânico moral, mas sim políticas públicas como a taxação de bebidas açucaradas e a rotulagem frontal de alimentos (Lupa de Nutrientes).

O açúcar é um nutriente que deve ser consumido com moderação, mas sua classificação como substância viciante é uma falácia bioquímica. A promoção dessa ideia por médicos que ignoram a ciência e por grupos políticos reacionários serve apenas para gerar ansiedade e lucro privado. A verdadeira saúde pública se faz com ciência, regulação estatal e acesso a alimentos reais, e não com a demonização de moléculas.

Referências Bibliográficas 

BENTON, D. The plausibility of sugar addiction and its role in obesity and eating disorders. Clinical Nutrition, v. 29, n. 3, p. 288-303, 2010.

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.

HEBEBRAND, J. et al. "Eating addiction", rather than "food addiction", better captures addictive-like eating behavior. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, v. 47, p. 295-306, 2014.

LUSTIG, R. H. Fructose: It’s Alcohol Without the Buzz. Advances in Nutrition, v. 4, n. 2, p. 226-235, 2013. (Referência utilizada para contrapor a visão de que o metabolismo hepático equivale ao vício).

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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