A conta chegou: Globo depende de publicidade e vê seu mundo encolher
Dependência extrema do mercado anunciante, queda do lucro e erosão das receitas recorrentes mostram que o desafio já não é competir, é sobreviver a mudanças
O balanço de 2025 da Globo, divulgado em março de 2026, desmonta a narrativa de solidez e revela uma empresa pressionada por transformações estruturais profundas.
A receita líquida chegou a cerca de R$ 18,3 bilhões, mas o crescimento não veio do dinamismo do negócio principal. Veio da compra da Eletromidia, empresa de publicidade urbana fora do núcleo histórico da companhia. Sem essa aquisição, a receita teria ficado próxima de R$ 16,7 bilhões, sinal de avanço orgânico fraco.
Não é expansão — é compensação.
O ponto mais alarmante é a dependência da publicidade, responsável por aproximadamente 70% das receitas, ultrapassando 72% no último trimestre. Trata-se de uma concentração típica de empresas vulneráveis ao ciclo econômico e à migração de anunciantes para plataformas digitais globais.
Uma empresa com esse nível de dependência inevitavelmente precisa considerar os interesses de quem financia sua operação. Quando quase 70% da receita vem da publicidade, a independência editorial fica condicionada ao humor do mercado anunciante. Quem paga tende a ter voz — mesmo que não apareça.
Enquanto isso, as receitas de assinaturas e conteúdo caíram para cerca de 29%, refletindo o colapso gradual da TV por assinatura e a perda de relevância das fontes recorrentes de renda. O que antes era previsível tornou-se instável.
O Globo Play cresce em usuários, mas não em rentabilidade. Muitos acessos vêm via operadoras, em pacotes de preço fixo que comprimem a receita por cliente. É a armadilha do streaming: audiência alta, retorno financeiro incerto e custos elevados de produção.
O lucro líquido caiu cerca de 27% em relação a 2024, para aproximadamente R$ 1,46 bilhão, mesmo com receita maior. Ou seja, vende mais e ganha menos. As despesas aumentaram, pressionadas pela integração de novos negócios e pelo custo crescente de conteúdo.
O caixa encolheu cerca de 30%, impactado pelo pagamento antecipado de bônus de dívida externa. Reduz endividamento, mas também reduz a margem de manobra num ambiente de competição tecnológica feroz.
Ao mesmo tempo, a TV por assinatura continua derretendo e a televisão aberta perde audiência e centralidade cultural. O público migra para plataformas digitais, redes sociais e consumo sob demanda, onde a Globo disputa atenção com empresas globais de escala incomparável.
O antigo monopólio da narrativa nacional se dissolveu.
A empresa que por décadas definiu o que o Brasil assistia agora precisa disputar segundos de atenção em um feed infinito. Não há fidelidade, apenas algoritmo.
Os números mostram que o crescimento recente depende mais de aquisições e publicidade do que de um motor próprio de expansão. O modelo que sustentou a hegemonia da televisão aberta já não sustenta o futuro.
A Globo não está à beira da insolvência. Está diante de algo mais difícil: a obsolescência gradual de seu modelo de negócios.
Gigantes raramente caem de uma vez. Encolhem aos poucos, enquanto o mundo muda ao redor.
E, na economia da atenção, perder relevância é perder poder — mesmo que o faturamento ainda seja bilionário.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



