A CPI do espetáculo: quando a investigação dá lugar à lacração
O que assistimos na CPI do INSS é a degradação da função parlamentar em prol do engajamento digital e da desinformação
A política brasileira vive um momento de profunda regressão institucional que me causa não apenas preocupação, mas um verdadeiro sentimento de repulsa. Como alguém que exerceu dois mandatos de deputado federal na década de 90 e participou ativamente de CPIs históricas — como a que resultou no impeachment de Collor —, vejo com tristeza o abismo que separa o Parlamento de ontem do atual.
Naquela época, havia um respeito sagrado pelo rito e pela lei, independentemente da coloração ideológica. Hoje, o que assistimos na CPI do INSS é a degradação da função parlamentar em prol do engajamento digital e da desinformação.
O que se vê no Congresso Nacional atualmente é, sem dúvida, a pior composição da sua história. Deputados e senadores parecem ter esquecido que o papel de uma comissão de inquérito é buscar a verdade real através de provas robustas. Em vez disso, transformaram o plenário em um palco de "lacração".
A figura do relator da CPI do INSS, por exemplo, é a personificação dessa decadência. Com seus trejeitos e postura, ele mimetiza perfeitamente o personagem João Plenário, do programa "A Praça é Nossa". É uma caricatura bizarra que desonra a liturgia do cargo e transforma o combate à corrupção em um esquete de humor de mau gosto.
Essa CPI não nasceu para investigar; nasceu para criar factoides contra o governo do presidente Lula. É preciso restabelecer a verdade: as irregularidades no INSS foram gestadas e alimentadas durante a gestão do "Capitão Capiroto". Se ele tivesse vencido, a roubalheira continuaria impune. Foi justamente o atual governo, por meio de uma ação coordenada entre a Polícia Federal e a AGU, que desbaratou a quadrilha e realizou as prisões. Tentar inverter essa narrativa é uma desonestidade intelectual que beira o cinismo, típica de quem não tem projeto de país, apenas sede de cliques.
Minha experiência na presidência da CPI do 8 de Janeiro, aqui na Câmara Legislativa do DF, ensinou-me que a seriedade é o único escudo contra a anulação judicial. Naquela ocasião, quebramos sigilos de coronéis e ouvimos quatro generais sem que um único ato fosse derrubado pela Justiça. Por quê? Porque respeitamos a Constituição. No entanto, o que vemos no Congresso Nacional é o oposto: pedidos de quebra de sigilo feitos sem fundamentação e atropelos regimentais deliberados. Há um método nessa incompetência aparente que precisa ser denunciado.
A estratégia dessa extrema-direita despreparada é perversa: eles produzem atos ilegais e frágeis, sabendo antecipadamente que serão anulados pelo Supremo Tribunal Federal. Quando o STF cumpre seu papel e barra a ilegalidade, eles utilizam suas redes sociais para atacar os ministros e jogar a opinião pública contra a Corte. É um jogo de cartas marcadas. Eles fazem malfeito de propósito para serem barrados e, assim, alimentarem a narrativa de que o Judiciário persegue o Legislativo. É um ataque direto e premeditado às instituições democráticas.
A falta de qualificação de boa parte desses parlamentares é deprimente. Muitos nem sequer compreendem o que estão fazendo ali, mas dominam a arte de editar vídeos para o TikTok. O debate de ideias, a defesa dos direitos dos trabalhadores e a fiscalização séria do dinheiro público foram substituídos pela busca incessante pela polêmica vazia. O Congresso tornou-se um covil de figuras sinistras que utilizam o mandato como ferramenta de autopromoção, ignorando o sofrimento do povo que depende de um INSS eficiente e honesto.
Como um homem de esquerda, que sempre lutou pela transparência e pela justiça social, não posso me calar diante desse teatro de horrores. O povo brasileiro não merece ser enganado por parlamentares que se fantasiam de investigadores enquanto agem como animadores de auditório da pior espécie. A democracia é algo precioso demais para ser deixada nas mãos de quem a despreza em cada gesto e em cada requerimento mal redigido. É necessário que a sociedade civil acorde e perceba que a "lacração" é o veneno que paralisa o desenvolvimento do Brasil.
Encerro com um alerta: enquanto o "João Plenário" da vida real faz suas graças diante das câmeras, o país perde a oportunidade de sanear suas instituições de forma definitiva. Precisamos resgatar a política feita com dignidade, ética e, acima de tudo, com o rigor da lei. Não aceitaremos que a investigação de crimes contra o patrimônio público seja transformada em um picadeiro para satisfazer o ego de políticos sinistros. O Brasil é maior do que essa mediocridade que hoje assola o coração da nossa República.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



