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Milton Alves

Jornalista e sociólogo

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A 'Cúpula de Trump' em Miami prepara ofensiva conservadora na América Latina

Encontro liderado pelo presidente dos Estados Unidos busca consolidar bloco conservador e conter a influência chinesa nas Américas

O presidente dos EUA, Donald Trump, recebe o presidente da Argentina, Javier Milei, na Casa Branca em Washington, DC, EUA, em 14 de outubro de 2025 (Foto: REUTERS/Jonathan Ernst)

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reúne neste sábado (7), em Miami, os presidentes de direita e extrema direita da América Latina. A reunião, denominada Cúpula Escudo das Américas – Shield of Americas Summit –, tem por objetivo principal adotar mecanismos para conter a influência econômica da China na região, debater a questão da migração, o narcotráfico e a segurança regional.

Comunicado divulgado pelo Departamento de Estado dos EUA classifica a reunião como histórica e afirma que ela visa “promover a liberdade, a segurança e a prosperidade na região. Esta histórica coalizão de nações trabalhará unida para impulsionar estratégias que travem a ingerência estrangeira em nosso hemisfério, as gangues e cartéis criminais e a migração irregular e massiva”.

O encontro trumpista reúne 11 presidentes e uma primeira-ministra no resort de sua propriedade nas cercanias de Miami, o Trump National Doral Miami. Participam da reunião o presidente da Argentina, Javier Milei; o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz Pereira; o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast; o presidente da Costa Rica, Rodrigo Chaves Robles; o presidente da República Dominicana, Luis Abinader; o presidente do Equador, Daniel Noboa; o presidente de El Salvador, Nayib Bukele; o presidente da Guiana, Irfaan Ali; o presidente de Honduras, Nasry Tito Asfura; o presidente do Panamá, José Raul Mulino; o presidente do Paraguai, Santiago Peña; e a primeira-ministra de Trinidad e Tobago, Kamla Persad-Bissessar.

A cúpula convocada pelo presidente estadunidense ocorre no contexto de uma escalada belicista em curso contra o Irã, após a operação de sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro – que completou dois meses – e do acirramento dos ataques ao governo e ao povo de Cuba, com o criminoso bloqueio energético e pressões tarifárias generalizadas contra diversas nações do continente.

Essa articulação demonstra um esforço do governo Trump para consolidar um bloco político conservador e extremista na América do Sul e na América Central, com base no chamado “Corolário Trump”, uma espécie de atualização da Doutrina Monroe, formulada em 1823.

O eixo principal da reunião trumpista é assegurar uma hegemonia política, econômica e militar nas Américas, garantindo uma área de influência consolidada e, com isso, reduzir o protagonismo chinês, que avançou muito nos últimos anos. Ou seja, na prática, trata-se da implementação de uma agressiva agenda política intervencionista, do fortalecimento da presença do Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM) na região, da militarização do combate ao narcotráfico e da instalação de novas bases militares.

No plano interno, Trump amarga uma queda acentuada de popularidade com o ataque ao Irã e pela truculência do ICE contra os migrantes. Ele também enfrenta críticas em sua base de sustentação: setores tidos como os mais “duros” do movimento MAGA – Make America Great Again – rejeitam a política guerreira da administração da Casa Branca, que prometeu durante a campanha eleitoral que não iniciaria nenhuma nova guerra. Há o temor de impacto negativo nas urnas da política executada por Donald Trump nas eleições de meio de mandato em novembro.

Projeto neocolonial e reacionário

A versão trumpista da “Doutrina Monroe” pretende impor um draconiano modelo neocolonial para controlar estrategicamente os recursos minerais e naturais da região, garantindo uma reserva estratégica para o imperialismo norte-americano, que trava uma disputa geopolítica com a China por áreas de influência e pelo domínio de novas rotas comerciais.

Trata-se de uma ameaça existencial para os povos das Américas, que seriam transformados em novas colônias, exportadores de matérias-primas e em nações sem soberania política, militar e tecnológica. Somente uma rede continental de resistência poderá enfrentar e derrotar a sanha imperialista.

Nos últimos anos, o avanço da extrema direita, o enfraquecimento de instrumentos contra-hegemônicos como a Unasul, a Celac e a ALBA-TCP (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América – Tratado de Comércio dos Povos) e a vitória eleitoral de Trump modificaram o cenário político, exigindo uma resistência mais ativa e coordenada dos governos de esquerda e dos movimentos sociais da região.

Países como o Brasil, o México e a Colômbia, alvos em graus variados dos ataques do império do norte, estão diante de enormes desafios para construir uma política alternativa de caráter soberanista, integrador e democrático no continente.

Nesse sentido, as eleições de outubro de 2026 no Brasil ganham um caráter estratégico e definidor de rumos nas Américas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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