A democracia é o inferno dos fascistas
Os fascistas de hoje são herdeiros do passado e ainda integram o grupo dos que trabalham contra os direitos da classe trabalhadora
Foi lamentável ver o deputado Otoni de Paula, MDB/RJ, que se apresenta como pastor evangélico, criticar o presidente Lula por vetar o inconstitucional projeto de lei da dosimetria, cujo objetivo era diminuir as penas aplicadas aos criminosos que atentaram contra o estado democrático de direito e tentaram dar um golpe de estado, nos eventos que culminaram no oito de janeiro de 2023.
De 2023 a 2025, travou-se uma luta histórica no Brasil para processar, condenar e levar à prisão todos aqueles que participaram da destruição das instalações das sedes dos Três Poderes em Brasília, incluídos organizadores, mandantes e executores da trama golpista.
Parcela expressiva da classe dominante nacional trabalhou para impedir o julgamento e as condenações, sob o surrado argumento de que “o país precisa de paz” e que “melhor seria virar a página”. Ou seja, mais uma vez, tentaram impor a cultura política da pacificação, que vem desde o segundo reinado, formalizado no gabinete da conciliação, que teve à frente o Marques de Paraná (1853-1856); uma sempre tirada do colete quando o objetivo é impedir qualquer mudança política significativa e/ou deixar tudo como está.
Não por acaso, a ausência dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal no evento do 8 de janeiro de 2025 foi a representação do desprezo que parte do parlamento brasileiro devota à democracia, instituição duramente atacadas pelos golpistas, cujos integrantes não tinham nada de inocentes.
É preciso lembrar que as pessoas que se pretendia beneficiar, primeiro com anistia e depois com dosimetria, integravam o grupo que chegou a tentar explodir um carro-tanque de combustíveis no aeroporto de Brasília, na véspera do Natal de 2022. Gente “boa e gentil”, que destruiu patrimônio público tombado nas sedes dos poderes da República, com o fim de apagar parte da memória nacional.
A propósito, um dos flagrados na tentativa de explosão do carro-tanque, condenado a nove anos e quatro meses de prisão, tornou-se foragido ao ser beneficiado com o cumprimento da pena em regime semiaberto. Isto é, o criminoso golpista que participou dos acampamentos em portas de quarteis e atentou contra a vida de milhares de brasileiros foi beneficiado com a progressão da pena, porém não respeitou a lei e fugiu, sendo recapturado em setembro de 2025.
Na verdade, como bem falou o presidente Lula, o projeto da “dosimetria” foi a forma encontrada pela maioria dos integrantes do parlamento brasileiro para tentar apagar e jogar no esquecimento os atos que atentaram contra a Constituição, a democracia e as instituições brasileiras.
Infelizmente, existe uma significativa parcela do parlamento brasileiro, com péssimos comportamentos na atual legislatura, que trabalha contra a Constituição e ainda tenta inocentar os meliantes condenados por sentença passada em julgado, que queriam revogar, pela força do autoritarismo e da tirania, a ordem constitucional e introduzir uma ditadura, igual ou pior do que a de 1964-1985.
O deputado pastor Otoni, ao criticar o presidente Lula (a quem anteriormente tinha dado uma “benção” no Palácio do Planalto) pelo referido veto presidencial, estava tentando garantir espaço junto ao seu eleitorado no Brasil, os fascistas que seguem tramando contra a democracia, instituição que desprezam e tentam destruir a todo custo.
A propósito, uma pesquisa recente apontou que o Partido Liberal, do ex-presidente meliante e condenado, tem a preferência de 12% dos eleitores brasileiros. Muita gente se espantou com a divulgação desse percentual de apoiadores do PL, porém, é preciso lembrar que, nos anos de 1930, o partido integralista (dos fascistas brasileiros daquela época) chegou a contar com mais de um milhão de participantes, que tinham como slogan o mesmo usado pelo ex-presidente na campanha eleitoral de 2018, “Deus, pátria e família”.
Ou seja, os fascistas do presente são herdeiros desse passado e integram hoje o grupo dos que trabalham contra os direitos da classe trabalhadora, em favor da classe dominante, contra a soberania e o desenvolvimento nacional.
Como denunciado por Luís Carlos Prestes no manifesto da ANL de 1935, a grande luta que se travava no Brasil naquele tempo era contra o imperialismo, o latifúndio e o fascismo; infelizmente, essas forças seguem vivas, especialmente o fascismo, que tem ramificações em diversas organizações sociais e ainda está plenamente ativo no país, como denunciado pelo ministro Alexandre de Moraes em decisões diversas no STF.
Portanto, fez muito bem o presidente Lula ao vetar o inconstitucional projeto da “dosimetria”, em ato de reprovação ao equívoco do legislativo, que, na verdade, tinha como objetivo apagar da memória nacional a tragédia que foi o 8 de janeiro de 2023 e perdoar os fascistas, que têm na democracia seu verdadeiro inferno.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




