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Jeffrey Sachs

Professor da Columbia University (NYC) e Diretor do Centro para o Desenvolvimento Sustentável e Presidente da Rede de Soluções Sustentáveis da ONU. Ele tem sido um conselheiro de três Secretários-Gerais da ONU e atualmente serve como Defensor da iniciativa para Metas de Desenvolvimento Sustentável sob o Secretário-Geral da ONU, António Guterres.

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A derrota de Trump no Irã e o declínio inegável do império americano

A questão agora é se Washington pode aceitar um mundo multipolar ou se continuará travando batalhas perdidas em busca de um passado que não pode ser restaurado

Donald Trump, 18 de abril de 2026 (Foto: REUTERS/Nathan Howard)

Publicado originalmente no Scheerpost

Em uma conversa abrangente e historicamente fundamentada com Glenn Diesen, Jeffrey Sachs argumenta que a Guerra do Irã se tornou o momento em que a mitologia da onipotência americana finalmente colidiu com a realidade. Os Estados Unidos, diz Sachs, atingiram os limites de seu poder — não por causa de uma campanha militar fracassada, mas porque o mundo que antes tornava possível o domínio americano não existe mais.

O fim da hegemonia ocidental não começou com Trump — começou em 1945.

Sachs começa por situar o conflito iraniano num contexto muito mais amplo. O domínio ocidental — primeiro europeu, depois americano — nunca foi permanente. Foi uma anomalia histórica construída sobre a industrialização, a exploração colonial e os monopólios tecnológicos, que não poderia durar. Após a Segunda Guerra Mundial, com o colapso dos impérios europeus, a Ásia iniciou uma ascensão lenta, mas imparável: alfabetização, industrialização, urbanização e convergência tecnológica.

Quando a União Soviética se dissolveu em 1991, os EUA confundiram um vácuo temporário com supremacia permanente. Washington se autoproclamou a “nação indispensável”, abraçou a fantasia de um mundo unipolar e construiu uma política externa baseada na premissa de que nenhum rival jamais poderia surgir.

A argumentação de Sachs é direta: o momento unipolar foi uma ilusão desde o início.

O Irã como ponto de ruptura

A guerra com o Irã, argumenta Sachs, revelou o que Washington se recusa a admitir: os EUA não podem mais impor resultados às principais potências regionais. O Irã sobreviveu a sanções, guerras por procuração, operações secretas e confrontos diretos. Manteve a coesão interna, fortaleceu alianças regionais e expôs os limites do poder coercitivo dos EUA.

Para Sachs, isso não é apenas uma falha militar — é uma falha estratégica e ideológica. A classe política dos EUA ainda se comporta como se qualquer país que resistisse à pressão americana estivesse violando a ordem natural. A recusa do Irã em se submeter é tratada não como geopolítica, mas como heresia.

O colapso do mito do "ponto de estrangulamento"

Um dos temas mais marcantes da entrevista é a desconstrução, por Sachs, da crença de que os EUA podem controlar os sistemas globais indefinidamente. Sejam sanções SWIFT, bloqueios financeiros ou ameaças militares, Washington tem repetidamente superestimado sua influência. A Rússia sobreviveu à "opção nuclear" do isolamento financeiro. A China construiu sistemas paralelos. O Irã se adaptou.

A ideia de que os EUA podem congelar as economias à vontade, diz Sachs, pertence a um mundo que já não existe.

A Ascensão da Ásia: A Verdadeira História que Washington Ignorou

Sachs enfatiza que, enquanto Washington se preocupava obsessivamente com a supremacia militar, a verdadeira transformação estava acontecendo em outros lugares. A Ásia — lar de 60% da humanidade — estava se reindustrializando, inovando e superando o Ocidente em tecnologias-chave. A China agora é uma concorrente de peso em manufatura, infraestrutura e indústrias avançadas. A Índia está em ascensão. O Sudeste Asiático está se integrando.

Na visão de Sachs, a Guerra do Irã não é um fracasso isolado. É o momento em que os EUA mergulharam de cabeça em um mundo que já não controlam.

Ideologia como substituto da estratégia

Sachs e Diesen discutem como as elites ocidentais continuam a se basear em narrativas do século XIX sobre a superioridade civilizacional — a visão de mundo "jardim versus selva" — para justificar políticas que já não funcionam. Essa herança ideológica impede que os formuladores de políticas percebam as mudanças estruturais que estão remodelando o poder global.

O resultado é uma política externa que oscila entre a negação e a escalada, incapaz de aceitar que outras nações têm capacidade de agir, interesses e a possibilidade de resistir.

O aparato de segurança americano não consegue imaginar um mundo multipolar.

Sachs argumenta que o establishment da política externa dos EUA — desde os think tanks até o Congresso — está preso a uma mentalidade que vê qualquer potência independente como uma ameaça. Não se pode permitir que a Rússia continue sendo uma grande potência. Não se pode permitir que a China ascenda. Não se pode permitir que o Irã resista. Até mesmo a Índia, observa Sachs, acabará sendo tratada com suspeita.

Essa visão de mundo torna a diplomacia praticamente impossível. Ela também garante conflitos perpétuos.

A derrota de Trump foi estrutural, não pessoal.

Embora a entrevista discuta o papel de Trump, Sachs enquadra o fracasso no Irã como um sintoma de forças mais profundas. Nenhum presidente dos EUA — republicano ou democrata — pode reverter o declínio a longo prazo da hegemonia ocidental ou a ascensão da Ásia. O problema não é a personalidade de Trump, mas a recusa de Washington em se adaptar a um mundo onde não é mais a única superpotência.

Um último aviso: Impérios caem quando não conseguem se adaptar.

Sachs conclui com uma lembrança histórica: as vantagens tecnológicas desaparecem, as disparidades econômicas diminuem e os impérios que se apegam a pressupostos ultrapassados desmoronam sob o próprio peso. A Guerra do Irã, sugere ele, é o momento em que os EUA foram forçados a confrontar essa realidade — e optaram pela negação.

A questão agora é se Washington pode aceitar um mundo multipolar ou se continuará travando batalhas perdidas em busca de um passado que não pode ser restaurado.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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