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Julimar Roberto

Comerciário e presidente da Contracs-CUT

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A dor da gente não vende jornais

Mais de 4,12 milhões de trabalhadoras e trabalhadores precisaram se afastar temporariamente de suas funções em 2025 por motivos de saúde

Carteira de trabalho digital (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Enquanto um raio que caiu sobre manifestantes rende milhares de manchetes e teorias da conspiração – mesmo em uma região onde raios caem aos montes –, um dado muito mais grave atravessou o noticiário quase em silêncio. Longe do espetáculo que alimenta algoritmos e caça curtidas, o Brasil enfrenta uma crise concreta em que o trabalho adoece, em massa, aqueles e aquelas que sustentam a economia.

Mais de 4,12 milhões de trabalhadoras e trabalhadores precisaram se afastar temporariamente de suas funções em 2025 por motivos de saúde, segundo o Ministério da Previdência Social. É o maior número desde 2021 e 15% superior ao de 2024. Não é um desvio estatístico. É a conta chegando. É o preço humano de um modelo econômico que exige produtividade máxima e oferece proteção mínima.

Pelo terceiro ano consecutivo, as dores nas costas lideram o ranking de afastamentos. Mais de 237 mil pessoas foram retiradas do trabalho por dorsalgia. Em seguida vêm as hérnias de disco e as fraturas de perna e tornozelo. Não é coincidência, é o corpo – que não é máquina - gritando contra jornadas extenuantes, postos de trabalho precarizados, metas inalcançáveis e a lógica da exploração contínua. O adoecimento não é um acidente do sistema — é um produto dele.

E quando não é o corpo que quebra, é a mente que colapsa. Transtornos de ansiedade e episódios depressivos já estão entre as principais causas de afastamento. Mais de 166 mil trabalhadores saíram por ansiedade, mais de 126 mil por depressão. Esses números crescem ano após ano porque o mundo do trabalho foi reorganizado para normalizar o esgotamento. A cultura da disponibilidade permanente, do medo do desemprego, da cobrança infinita e da substituição instantânea transforma sofrimento em regra.

O recorte de gênero escancara outra face da desigualdade. Mulheres se afastam principalmente por dores na coluna e ansiedade — reflexo da dupla jornada e da sobrecarga invisível que sustenta famílias inteiras. Homens lideram em fraturas e lesões físicas graves — resultado de ocupações de risco concentradas na base da pirâmide social. O adoecimento segue a cartografia da desigualdade de classe e gênero. Não é uma tragédia individual. É estrutural.

E é impossível discutir esses dados sem falar da permanência absurda da jornada 6x1 — um resquício de um modelo de trabalho que trata descanso como privilégio. Trabalhar seis dias para folgar um não é produtividade, é exaustão institucionalizada. É a formalização do cansaço como política econômica. Cada afastamento médico é também um atestado de falência desse arranjo. Um país que naturaliza jornadas assim não pode se surpreender quando seus trabalhadores e trabalhadoras adoecem em escala industrial.

O auxílio por incapacidade temporária é uma conquista civilizatória que impede que o trabalhador e a trabalhadora doentes sejam empurrados diretamente para a miséria. Mas o aumento explosivo de concessões não pode ser tratado como um problema fiscal. O verdadeiro escândalo não é o valor total do benefício que está sendo pago — é o adoecimento em larga escala que gera essa despesa.

A pergunta necessária não é quanto custa proteger quem adoece. A pergunta que requer urgência é quanto custa manter um sistema que adoece deliberadamente. Não existe economia forte com trabalhadoras e trabalhadores quebrados. Não existe crescimento sustentável baseado em dor crônica, lesão permanente e colapso emocional. Um modelo que suga até o limite e depois descarta não é eficiente — é predatório e covarde.

Valorizar o trabalho exige romper com essa lógica. Significa reduzir jornadas, fortalecer direitos, investir em prevenção, ergonomia, saúde mental e fiscalização. Significa admitir que o corpo e a mente da classe trabalhadora não são insumos descartáveis de uma planilha de lucros.

O país gosta de celebrar recordes de produção. Mas o indicador mais realista do nosso modelo de desenvolvimento é brutal, milhões de pessoas precisaram parar porque seus corpos e suas mentes não suportaram mais. Ignorar isso é cumplicidade. Encarar esses dados é o primeiro passo para construir um Brasil onde trabalhar não seja castigo. Porque, mesmo que a dor da gente não venda jornais, ela está sustentando — e adoecendo — o país inteiro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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