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Julimar Roberto

Comerciário e presidente da Contracs-CUT

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E o mundo aplaude a verdade contada pelo cinema brasileiro

Com estatueta ou sem ela, o orgulho já está consolidado

Cena do filme "O Agente Secreto" (Foto: Divulgação/Vitrine Filmes)

Os sucessos internacionais de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto não são obra do acaso. Eles revelam uma escolha estética e política clara de contar histórias profundas, socialmente comprometidas e ancoradas na memória histórica. Quando o cinema brasileiro assume essa postura, não apenas conquista prêmios como afirma o valor cultural do país diante do mundo.

Dirigido por Walter Salles, Ainda Estou Aqui entrou para a história ao vencer o Oscar de Melhor Filme Internacional em março de 2025. A recepção internacional veio de açoite. O The New York Times descreveu o filme como “belo e devastador”, destacando a atuação precisa e emocional de Fernanda Torres. Meses depois, o reconhecimento foi ampliado quando a Fipresci elegeu o longa como Melhor Filme do Ano, em votação que reuniu centenas de críticos de dezenas de países, numa demonstração surpreendente de respeito artístico.

O mesmo caminho foi trilhado por O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, com Wagner Moura no papel principal. O filme acumulou prêmios em Cannes e no Critics’ Choice Award, sendo celebrado por veículos como Variety e The Guardian por sua força política, rigor narrativo e densidade humana.

Que orgulho nos dá ao ver que o cinema brasileiro encara o autoritarismo, a violência de Estado e as marcas da repressão sem atalhos nem suavizações. 

É impossível dissociar esse reconhecimento da ideologia demonstrada por seus realizadores. Tanto Salles quanto Mendonça Filho pertencem a uma tradição cultural que entende a arte como instrumento de crítica social, defesa dos direitos humanos e preservação da memória. Esse compromisso não limita o alcance das obras. Ao contrário, é ele que as universaliza. Quanto mais honestas com sua história e mais firmes em sua posição ética, mais esses filmes dialogam com os mais diversos públicos ao redor do planeta.

O êxito de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto confirma uma lição antiga, mas frequentemente atacada. Não há contradição entre engajamento político e excelência artística. O cinema brasileiro atinge seu ponto mais alto quando não se omite, não relativiza e não abdica de seu papel crítico.

Agora, com O Agente Secreto figurando entre os indicados ao Oscar, essa trajetória ganha um novo capítulo. Não como concessão, mas como consequência lógica de um cinema que escolheu a verdade, a memória e a justiça social.

Com estatueta ou sem ela, o orgulho já está consolidado. O reconhecimento internacional, a repercussão crítica e o impacto cultural dessas obras são conquistas que não dependem de um troféu para existir. O cinema brasileiro mostrou, mais uma vez, que quando fala com coragem, compromisso histórico e sensibilidade social, ele se impõe, emociona e permanece. E isso, por si só, já é uma vitória coletiva digna de celebração.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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