A Doutrina Donroe – Mistura de Don Corleone com James Monroe
Trump é o Império desnudado. O Império sem máscaras, sem desculpas esfarrapadas, sem valores hipócritas
O que aconteceu na Venezuela já era esperado há tempos.
O que pode ter causado surpresa aos desavisados (há muitos e são vocais) foi a facilidade com que a operação foi feita e a “franqueza” de Trump.
“Don Trump” deixou claro que agrediu a Venezuela e sequestrou Maduro para ter acesso facilitado ao petróleo e a outros recursos naturais (bauxita, ouro etc.) da Venezuela.
Confessou que a agressão não tem nenhuma relação com defesa da democracia, e dos direitos humanos, escusa esfarrapada que os EUA sempre usaram para derrubar regimes não-alinhados a seus interesses e destruir países.
Trump e os EUA também confessaram que a agressão não tem nada ver com “narcoterrorismo”. Qualquer pessoa minimamente informada, que lê os relatórios do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), sabe muito bem que a participação da Venezuela no tráfico internacional de drogas e muito secundária (cerca de 7%) e que o terrível “Cartel de los Soles” nunca passou de peça de ficção. Libretto giocoso de ópera-bufa.
Afinal, ninguém convoca um porta-aviões nuclear e força militar tão expressiva apenas para assassinar algumas supostas “mulas” do narcotráfico.
Há uma frase, atribuída a Bertold Brecht, que se aplica ao caso. A frase é a seguinte: o fascismo é a “verdade” do capitalismo.
Pois bem, Trump é o Império desnudado. O Império sem máscaras, sem desculpas esfarrapadas, sem valores hipócritas.
O “Corolário Trump” da Doutrina Monroe nada mais é que o aggiornamento do “Corolário Roosevelt” (Teddy, bem entendido) da mesma doutrina.
Voltamos aos tempos das canhoneiras, da pilhagem, da expansão territorial, do roubo.
Agora, no entanto, com um toque da máfia da construção civil de Nova Iorque, as cloacas de onde emergiu Trump para um mundo amedrontado e incrédulo.
Trump quer o petróleo de volta. Para quem não sabe (a mídia inteira parece desconhecer), antes da Chávez a Venezuela tinha relação simbiótica com os EUA, tanto geopolítica quanto geoeconômica. A maioria do petróleo da Venezuela ia para os EUA.
Por que muitas grandes refinarias estadunidenses situadas no Golfo do México são especializadas no refino de petróleo pesado, se o petróleo do Texas e do Oriente Médio é leve? Ora, porque o petróleo da Bacia do Orinoco é muito pesado, espesso, que precisa de refino especial e do uso de diluentes para ser utilizado. Essas refinarias foram construídas, basicamente, para receberem o petróleo que vinha da Venezuela.
Diga-se de passagem, a Petrobrás comprou a refinaria de Pasadena, situada naquela região, justamente por causa disso. Na época, o Brasil tinha apenas o petróleo do pós-sal, também pesado como o da Bacia do Orinoco.
Pois bem, Chávez rompeu parcialmente com essa relação. Embora a nacionalização das jazidas venezuelanas tenha se dado já em 1976, em 2007 Chávez exigiu das petroleiras estrangeiras que atuavam no país um aumento de até 83% no repasse da renda do petróleo ao Estado da Venezuela.
A Chevron (estadunidense), a norueguesa Statoil, a BP (britânica) e a francesa Total fizeram um acordo. Porém, a Exxon Mobil e a ConocoPhillips, estadunidenses, se recusaram a fazer acordo. O que fez Chávez? Expropriou os poços e outros bens e expulsou as duas do país, o que motivou processos judiciais nos EUA contra a Venezuela, que se arrastam até hoje.
As grandes refinarias do Golfo do México ficaram, então, bastante ociosas.
Esse foi o” grande crime” de Chávez e é por isso que Trump fala que a Venezuela tem de “devolver o que roubou dos EUA”.
Impressionante como a nossa mídia não fornece essas informações básicas, elementares, sobre a Venezuela ao seu público.
Outra coisa que a mídia não informa é a da relação estreita entre a situação econômica lamentável da Venezuela e as sanções que os EUA e a Europa impuseram unilateralmente a esse país. É como se elas não existissem.
É fato que crise econômica da Venezuela começou entre 2012 e 2016, quando o preço internacional do barril de petróleo caiu de US$ 102 para US$ 36. Para um país no qual o petróleo respondia por 90% do valor das exportações e por mais da metade da receita fiscal, tal queda teve um impacto enorme.
Contudo, a situação saiu do controle quando os EUA e a Europa passaram a impor sanções draconianas contra a Venezuela, a partir de 2017.
Não obstante, a partir de 2017, quando os preços de petróleo começam a subir de novo e os países da OPEP iniciam a sua recuperação econômica, a Venezuela, em contraste, tem uma queda contínua e acentuada da sua produção e receitas.
Tal nova queda foi ocasionada, sim, pelas sucessivas sanções. Em primeiro lugar, houve as sanções financeiras, que impediram a Venezuela de transacionar mundialmente e que até mesmo congelaram suas reservas internacionais. Em segundo lugar, em momento posterior, ocorreram as sanções petroleiras, que reduziram fortemente a possibilidade de a Venezuela exportar sua produção. E, em um terceiro momento, se verificaram as sanções contra sócios estrangeiros que tinham ajudado a Venezuela a vender sua produção de petróleo.
Como consequência, ao final desse processo, a renda petroleira da Venezuela, vital para sua sobrevivência, havia caído 93%. Dos mais de 50 mil poços de petróleo que estavam em operação, cerca de 30 mil foram paralisados. Mesmo os que continuaram operando, reduziram sua produção.
O abrandamento de algumas sanções ao petróleo, no período Biden, em razão dos gargalos criados pela guerra na Ucrânia, levou algum alívio recente à economia venezuelana. Contudo, a produção de hidrocarbonetos da Venezuela está em apenas 25% do seu antigo volume.
E, de forma correspondente, o PIB da Venezuela, medido em dólares, é apenas um quarto do que era em 2010, por causa, essencialmente, dessas sanções unilaterais e, portanto, ilegais, perante o Direito Internacional Público. Ninguém fala disso.
Maduro era um mau governante? Considero que sim. Do meu modesto ponto de vista, traiu os princípios da revolução chavista e foi desleal com o Brasil, que era fiador dos Acordos de Barbados. Chegou mesmo a agredir o governo Lula.
Maduro, um nanico político e intelectual, se comparado a Chávez, fez um cálculo geopolítico errado. Achou que poderia se manter apenas com o apoio da China e da Rússia. Fez o jogo arriscado e equivocado da nova Guerra Fria. Esnobou os vizinhos e alguns países europeus, e se recusou a fazer uma transição política pacífica e negociada. Ficou isolado.
Mas não foi por isso que ele foi sequestrado.
O fato é que, nessas condições, a Venezuela, qualquer que seja seu governante, não tem condições de resistir às pressões do Império.
Maduro, na realidade, já tinha procurado negociar com a Trump a retomada do acesso privilegiado das companhias americanas ao petróleo venezuelano e a outros recursos minerais críticos.
Marco Rubio, no entanto, convenceu Trump a não fazer o acordo com Maduro, para não se desmoralizar e para dar um recado para nossa região e para o mundo: quem não se curvar, será destruído. Maduro tinha de servir de exemplo.
A facilidade da operação realizada pelos EUA é reveladora da incapacidade de resistência. Sem desmerecer o sacrifício daqueles que foram assassinados pela Força Delta, parece que a disposição geral era a de não apresentar muita resistência. Ou, alternativamente, houve grosseira incompetência. Provavelmente, ambas as coisas.
Delcy Rodríguez não tem alternativas. Ou aceita as pressões de Trump ou a Venezuela será atacada, de novo. Com um país tão fragilizado, inclusive pelo sucateamento de suas forças armadas, a resistência seria algo suicida.
Um acordo entre o que restou do chavismo e Trump é o resultado ideal para o Império.
Evita-se um agravamento dos conflitos internos e assegura-se, no curto prazo, a estabilidade política necessária para que as companhias estadunidenses voltem a lucrar muito com as maiores jazidas de hidrocarbonetos do mundo.
Corina Machado, que apostou fortemente na agressão estadunidense, “quebrou a cara”, como toda a oposição venezuelana. Uma lição que fica para a direita brasileira, ignorante, traidora e entreguista.
Não obstante, para Venezuela como um todo, as condições serão draconianas.
Em primeiro lugar, o governo venezuelano (qualquer que seja, qualquer que venha a existir) terá de expulsar a China da Bacia do Orinoco. Isso será complicado. Hoje em dia, 68% do petróleo da Venezuela são exportados para a China é há obrigações contratuais a cumprir. Dívidas a pagar.
Em segundo, o petróleo deverá ser explorado (repito, com qualquer governo) com baixo repasse de renda para o Estado da Venezuela, como era antes de Chávez. Talvez até mesmo com repasse mínimo ou nulo, em certos casos.
Trump já até anunciou que as “autoridades provisórias” da Venezuela enviarão cerca de 50 bilhões de barris de petróleo de alta qualidade para os EUA e que a renda proveniente desse óleo será administrada por ele, o Imperador, da forma que lhe aprouver.
Isso se chama, em qualquer lugar do mundo, de roubo.
Assim, a tendência, com Trump, é que a Venezuela se transforme em um protetorado, numa neocolônia, dos EUA, controlada política e geopoliticamente por Washington. Esse é o preço a se pagar para que o país não seja destruído, como o foram países como o Iraque e a Líbia.
Dessa forma, os problemas socioeconômicos graves que a população da Venezuela enfrenta não serão resolvidos. Ao contrário, poderão até se agravar.
Don Trump, é evidente, não está preocupado com isso.
Já está pensando nos novos alvos do seu desenvolto Big Stick, como a Groenlândia, a Colômbia, Cuba, o Irã etc.
Trump, ao contrário do que se diz, não está substituindo a antiga ordem mundial baseada em regras por um uma geopolítica de “zonas de influência”.
Essa, por assim dizer, “análise” é equivocada por 3 grandes motivos:
Estabelece uma falsa equivalência entre EUA, China e Rússia. A China nunca agrediu ninguém e não interfere nos assuntos internos de outros países. E Taiwan, diga-se de passagem, é reconhecida como território chinês pelos EUA, pela ONU e praticamente pelo mundo inteiro, desde a década de 1970. Quanto à Rússia, sua geoestratégia é eminentemente defensiva, a qual resulta de um movimento estratégico de sufocamento geopolítico promovido pelos EUA desde a década de 1990. Os grandes agressores foram e são os EUA.
A “zona de influência” dos EUA, embora com diferenças regionais de prioridades, é o mundo inteiro. Está lá escrito na Nova Estratégia de Segurança:” Os Estados Unidos não podem permitir que nenhuma nação se torne tão dominante a ponto de ameaçar nossos interesses. Trabalharemos com aliados e parceiros para manter o equilíbrio de poder global e regional, a fim de impedir o surgimento de adversários dominantes. Assim como os Estados Unidos rejeitam o conceito nefasto de dominação global para si próprios (acredite, se quiser), devemos impedir a dominação global, e em alguns casos até mesmo regional, de outros países.”
Trump não é isolacionista. Isso é mito. Os EUA, com exceções de períodos históricos muito curtos, como o da década de 30 do século passado, sempre foram expansionistas. Está no seu DNA histórico e geopolítico. Agora, mais do que nunca.
Don Trump, o Imperador desnudo, é planetário. E a Venezuela é somente a sua primeira vítima.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




