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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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A Estátua da Liberdade parece, mas não é

“É ingenuidade pensar que o monumento americano expressa a força da mulher”, escreve Moisés Mendes

Estátua da Liberdade (Foto: Reuters/Brendan McDermid)
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Sobrevive nas redes sociais, com abordagens previsíveis e insistentes, a conversa sobre o vídeo iraniano em que o Cristo Redentor é atacado pela Estátua da Liberdade, reage e massacra a escultura americana. A abordagem mais usual é a mais rasa: o macho Cristo ataca a fêmea que expressa as liberdades.

Associam a estátua ao poder da mulher. Como diziam nos antigos cursinhos de pré-vestibular, lembremos que a figura feminina está, desde a Grécia Antiga, em toda representação artística de monumentos que a identificam com liberdade ou sentimento de pátria e de justiça.

Temos estátuas por toda parte. Porto Alegre tem um belo exemplo na sua área central. Uma deusa Themis, que parece querer voar da parede do antigo prédio do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, é uma justiça feminina e poderosa, porque sem a venda nos olhos.

Sentem-se nas escadarias da Praça da Matriz, onde estão a Catedral Metropolitana, o Palácio Piratini e o Theatro São Pedro, e fiquem olhando para a figura criada pelo talento do arquiteto Carlos Maximiliano Fayet. É a mais bela de todas as deusas Themis. Não é conversa de gaúcho.

Na mesma praça, a poucos metros de Themis, há um monumento majestoso, com todas as representações possíveis do poder dos homens, com a mulher como expressão da República. É uma representação clássica.

Bem acima, lá no alto do monumento, protegendo Júlio de Castilhos, que governou o Estado entre 1893 e 1898, está a República mulher. A obra é do escultor Décio Villares. É a mulher que vai aparecer, com variações, em muitos outros monumentos pelo mundo, também na forma de liberdade.

A jornalista Eliane Brum explicou há muito tempo, em reportagem em Zero Hora, cada figura e cada detalhe desse monumento. É a exaltação do positivismo de Auguste Comte e de seu discípulo Júlio, que acabou orientando quase tudo o que somos, no Rio Grande do Sul e no Brasil, para o bem e para o mal. Leiam 'Júlio de Castilhos e sua época', de Sérgio da Costa Franco.

Há mais três figuras femininas no monumento, representando a pátria, a sabedoria e a coragem. O homem poderoso está cercado de mulheres. Há esculturas e monumentos semelhantes no Brasil e no mundo em que a mulher seria a expressão das qualidades da humanidade.

Os artistas pareciam saber mais do que os políticos que representavam em suas obras. Mas não era bem assim. Tanto que essa Estátua da Liberdade agora envolvida em controvérsias foi criada para ser a representação da liberdade, presenteada pela França aos Estados Unidos, mas nunca foi aceita pelas americanas antifascistas como uma figura feminina que expresse liberdade.

O poder se apropriou da estátua e do sentimento de liberdade do feminino expresso desde a Revolução Francesa. Todos nós estudamos isso no colégio. E ficamos sabendo que a liberdade, a igualdade e a fraternidade são mulheres.

Quem quiser saber mais, que procure historiadores que estudam ou estudaram a reação das mulheres americanas a esse presente. As mulheres sufragistas, que deflagraram a luta pelo direito ao voto, sempre tiveram desprezo pela estátua.

A figura de Nova York tem o nome de liberdade, mas é, desde a sua origem, uma representação bajulatória ao poder econômico e político dos Estados Unidos, e não necessariamente das liberdades.

É triste, mas é a verdade que a História reafirma cada vez mais hoje e a todo momento. Essa estátua representa a imposição da arrogância, do dinheiro, da guerra e da morte. É desolador, porque nos apegamos a ela e desejamos que fale pelas mulheres.

A estátua de Nova York, se votasse, teria votado em Trump, e não em Kamala Harris. Não são poucas as abordagens críticas a esses monumentos que sequestram o feminino para, na dissimulação, expressar o poder masculino. A arte, em muitas das suas expressões, fez a mesma coisa em outras áreas.

A Estátua da Liberdade é talvez a maior expressão do poder do macho belicista branco americano, do supremacista hétero, da imposição de um império. E não das liberdades. Nunca das liberdades, nem das mulheres.

O corpo da mulher é apenas explorado, também nesse caso, para que se crie essa representação ‘feminina’. É uma casca. O poder, na sua essência, está na hegemonia do macho. A concessão desse macho dominador à mulher é apenas a da representação. É a realidade resumida ao simbólico: transformem a mulher em monumentos.

E aqui encerro minha participação nesse debate, porque não tenho o lugar de fala feminino e apenas escrevo porque me senti incomodado. O Cristo Redentor sabe: ele é mais feminino do que a estátua americana.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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