A estratégia da decapitação da liderança
As lideranças dos EUA e de Israel, ao agirem como assassinos, sem nenhum senso moral, destroem toda a confiança de que se possa construir uma paz duradoura
A decapitação de lideranças é um fenômeno que vem ocorrendo desde a Antiguidade. Nos contextos de lutas e guerras entre grupos, cidades, etnias, impérios e Estados, era comum queimar, decapitar, degolar, enforcar ou crucificar líderes inimigos capturados. Quase sempre, esses atos eram consequência das ações de combate, e não um objetivo estratégico específico. Tratava-se de uma tática no interior da estratégia de guerra.
Líderes rebeldes, revolucionários, lutadores sociais, místicos, chefes de bando, reis, rainhas, governantes e opositores derrotados foram mortos de forma quase sempre brutal, em atos revestidos de cerimônias. Os objetivos dessa violência eram também simbólicos, visando conter ações contrárias aos vencedores.
Na história mítica da Bíblia, o líder arquetípico Moisés não pensa duas vezes em mandar matar milhares de israelitas porque adoraram um bezerro de ouro (Êxodo 32), ou em exterminar os rebeldes liderados por Corá, Datã e Abirão, que contestavam sua liderança e a de seu irmão Aarão. A violência exterminadora sempre foi mais uma prática das elites dominantes do que dos rebeldes. Exemplos disso foram os assassinatos brutais de Tibério e Caio Graco, na República Romana, e do próprio Júlio César, massacrado pela nobreza.
Na Era Moderna, os exemplos de decapitação de líderes também são profícuos. O rei Luís XVI, sua consorte Maria Antonieta, na França, e Carlos I, na Inglaterra, foram decapitados em contextos revolucionários. A rainha Ana Bolena foi decapitada a mando de Henrique VIII para atender a interesses pessoais e políticos.
Robespierre e Danton sucumbiram às tramas da própria Revolução e enfrentaram a guilhotina. Os bolcheviques mandaram fuzilar a família Romanov em 1917. Zumbi dos Palmares e Lampião são exemplos nativos que mostram que o Brasil não foge à regra.
Embora a tese da decapitação da liderança já fosse debatida nas teorias estratégicas clássicas, somente após meados do século XX ela assumiu o estatuto de estratégia específica. Ela foi desenvolvida por estrategistas que defendiam a supremacia e a preeminência do poder aéreo, a exemplo do coronel John Ashley Warden III. Ele foi um dos principais estrategistas da Primeira Guerra do Golfo, defendendo a tese da batalha ar-terra.
Warden propõe que o poder aéreo deve neutralizar a liderança e destruir a infraestrutura crítica do inimigo, seja ele um Estado ou uma organização, visando resolver o conflito rapidamente. Ao contrário de outras estratégias, essa formulação foca o planejamento do ataque e não leva em consideração fatores históricos, ideológicos e culturais que sustentam os oponentes. Também não considera fatores morais relativos à morte de civis, mulheres e crianças, nem os crimes de guerra.
A estratégia da supremacia do poder aéreo foi lapidada pelo secretário de Defesa de Ronald Reagan, em 1984, com a divulgação da “Doutrina Weinberger”. O objetivo era evitar a ocupação militar terrestre, estabelecendo seis princípios rígidos para que ela pudesse ocorrer. Weinberger queria evitar um novo e traumático Vietnã e conflitos prolongados e malsucedidos. A estratégia da supremacia do poder aéreo e a estratégia da decapitação da liderança, assim, convergiram para o mesmo ponto de aplicação.
O surgimento de organizações de resistência, classificadas como terroristas por Israel e pelos Estados Unidos, fez com que ambos os países passassem a usar em larga escala as estratégias de decapitação de lideranças e de supremacia do poder aéreo. Israel assassinou vários líderes da OLP e do Hamas, a exemplo de Wael Zwaiter, do escritor Ghassan Kanafani, Ismail Haniyeh, Yahya Sinwar, Saleh al-Arouri e Mohammed Deif, entre tantos outros.
No ano passado, Israel exterminou a liderança do Hezbollah e matou o comando militar do Irã. Agora, Estados Unidos e Israel assassinaram toda a liderança civil e militar do Irã, incluindo o líder máximo, o aiatolá Khamenei. Os Estados Unidos já haviam assassinado o general Qassem Suleimani, comandante da Guarda Revolucionária Quds, em 2020, no primeiro governo Trump. No caso da Venezuela, Maduro não foi decapitado, mas foi extraído em um sequestro-relâmpago.
A estratégia da decapitação da liderança tem alguns pressupostos. O primeiro é usar o poder aéreo, com armas e tecnologias de precisão, mapeamento prévio e comandos especiais, para suprimir o “cérebro” — os dirigentes e comandantes das forças inimigas —, fazendo com que percam a capacidade de coordenar ataques e fiquem paralisadas. Sem a liderança, algumas variáveis são esperadas: perda de capacidade do inimigo, desorganização do sistema de comando, possíveis insurgências de novos líderes ou da população, mudança de regime e ascensão de líderes mais moderados, dispostos a aceitar os termos do poder dominante.
Além dos líderes, a estratégia pressupõe a destruição de sistemas essenciais, como petróleo, eletricidade e água; da infraestrutura, como transportes e comunicações; e ataques a instalações e à população civil, visando desencadear uma revolta ou pressão sobre o governo. No caso de Gaza, até mesmo os hospitais foram sistematicamente destruídos. É certo que os EUA e Israel vêm impondo pesada destruição da estrutura militar e civil do Irã. Mas, até agora, não há evidências de que os resultados esperados da estratégia de decapitação da liderança estejam se efetivando.
Existem críticas consistentes à estratégia de decapitação da liderança. Tanto alguns analistas da CIA quanto estrategistas das forças terrestres americanas acusam essa estratégia de ser uma mera técnica de matar e destruir. Sustentam que podem ocorrer ganhos de curto prazo, mas que não há evidência de que, no longo prazo, ocorram mudanças substantivas rumo à realização dos objetivos. O caso da Líbia e da morte de Gaddafi é citado como exemplo.
No livro Strategic Targeting of Terrorist Organizations, a professora Jenna Jordan analisa vários casos de aplicação da estratégia de decapitação da liderança, principalmente em organizações consideradas terroristas. Ela é categórica ao afirmar que a estratégia tem se mostrado “altamente ineficaz para enfraquecer e desestabilizar as organizações”. Pelo contrário, os grupos tendem a uma radicalização e a uma violência maiores, impulsionados pelo sentimento de vingança.
Por fim, duas considerações: uma legal e outra moral. De acordo com resoluções da ONU, assassinar deliberadamente lideranças civis, religiosas e militares fora do contexto de um combate direto é crime de guerra. Trump, Netanyahu e seus comandos, sem dúvida, são criminosos de guerra. O Tribunal Penal Internacional deve investigar essas ações criminosas e punir os responsáveis.
Israel é um Estado genocida e terrorista: desloca milhões de pessoas, mata pela fome e pela sede, massacra mulheres e crianças e vem praticando toda sorte de crimes em larga escala. Com Trump, os EUA querem recuperar a liderança perdida pela força, pela violência e pelos crimes, além da supressão de liberdades democráticas internas.
As lideranças dos EUA e de Israel, ao agirem como assassinos, sem nenhum senso moral, destroem toda a confiança de que se possa construir uma paz duradoura no futuro. A única paz que eles querem é a da destruição e da morte — como diria Kant, a paz dos cemitérios.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e poder.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



