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Sara York

Sara Wagner York é jornalista, psicanalista, PhD em Educação, pós-doutora em Semiótica, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. Especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, é autora do primeiro trabalho sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido no mestrado em 2020. Tem um filho, é avó e foi a primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro, pela Brasil 247, tornando-se referência nacional nas discussões sobre mídia, educação e direitos humanos. É imortal da Academia de Letras e Artes do Estado do Rio de Janeiro.

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A Globo, o farol e a nossa ignorância consentida

"Durante o programa, Cazarré afirmou que mais mulheres matam homens do que homens matam mulheres — dado falso"

Juliano Cazarré / Vera Iaconelli (Foto: Reprodução/Twitter - Reprodução Instagram @vera.iaconelli / IA / Brasil 247)
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A cena que não sai da minha cabeça e de milhares de jornalistas pelo Brasil é a de William Bonner, gravata impecável, microfone na mão, diante de Jair Bolsonaro exibindo um livro que chamava de "kit gay" e uma mamadeira com formato de pênis no melhor horário da TV aberta e sem interrupções. A Globo deixou passar, o editor-chefe diante da cena, não interrompeu, não contextualizou, não confrontou. E o país assistiu àquilo como se fosse notícia, quando era desinformação e mentira na maior emissora do país e em horário nobre.

Não chegamos onde estamos por acidente. Chegamos porque a maior emissora do país, em um momento decisivo, escolheu a audiência em vez da verdade, escolheu dar palco a uma mentira porque a mentira tinha público — e o público era rentável.

Anos depois, a Globo não aprendeu nada e trocou apenas o cenário.

O programa, o ator e o problema que ninguém nomeou

Na terça-feira, o GloboNews Debate reuniu o ator Juliano Cazarré, a psicanalista Vera Iaconelli e o pesquisador em saúde coletiva Pedro de Figueiredo para discutir masculinidade, comportamento e os desafios das relações contemporâneas. O debate aconteceu em torno do curso O Farol e a Forja, descrito como o "maior encontro de homens do Brasil", estruturado em três pilares: vida profissional e legado; vida pessoal, incluindo paternidade e dieta; e "vida interior", aprofundando masculinidade e cristianismo, culminando com celebração de uma Santa Missa.

Tudo bem e cada um tem o direito de organizar o retiro que quiser. O problema não é Cazarré, o problema é a Globo, que o sentou ao lado de uma psicanalista doutora pela USP e de um pesquisador em saúde coletiva — e tratou as três falas como equivalentes. Como se formação acadêmica, trajetória de pesquisa e popularidade nas redes fossem a mesma moeda. Como se o debate sobre relações de gênero, violência e subjetividade masculina fosse um assunto em que qualquer pessoa com opinião forte tem autoridade para circular como especialista.

Não tem!

Juliano Cazarré é bacharel em Artes Cênicas pela UnB. Ator talentoso, carreira respeitável, pai de seis filhos, católico convicto. Nada disso o qualifica para falar com autoridade técnica sobre masculinidade, saúde mental, estrutura de gênero ou dinâmicas relacionais contemporâneas. E ele mesmo, com uma sinceridade que merece ao menos crédito, admitiu que o vocabulário usado no debate era complexo e inacessível para os homens de seu círculo.

Para e releia essa frase!

Se os homens para quem ele fala não conseguem acessar sequer o vocabulário básico de uma discussão sobre relações de gênero — uma discussão que acontece nas universidades brasileiras há pelo menos quatro décadas — como vamos avançar para as questões subjetivas que são infinitamente mais densas? Como vamos falar de contrato narcisista, de pactos denegativos, de subjetividade descartável, de prolepCIS, de toda a arquitetura psíquica que organiza a violência de gênero, se o vocabulário mínimo já é um obstáculo?

A resposta honesta é que não vamos. Não enquanto a televisão continuar confundindo audiência com autoridade.

A desinformação que voltou a circular como dado

Durante o programa, Cazarré afirmou que mais mulheres matam homens do que homens matam mulheres — dado falso que ninguém no debate teve coragem de ao menos solicitar a fonte para desmentir em tempo real.

Aqui está o nó e o retorno ao William Bonner.

A Globo reuniu uma psicanalista competente e um pesquisador em saúde coletiva no mesmo programa em que um dado falso circulou sem interrupção, sem checagem, sem contexto. A desinformação não precisou de 1994 para chegar. Nem de 2018, ela chegou em 2026, no mesmo formato, com a mesma dinâmica: a emissora oferece o palco, o convidado traz a mentira, e o prestígio do veículo a reveste de credibilidade. 

Os feminicídios subiram 41% no estado de São Paulo no primeiro trimestre de 2026, esse dado existia e estava disponível. Poderia ter sido colocado na mesa no momento exato em que a desinformação foi enunciada. A apresentadora não fez e o editorial muito menos.

O homem negro como ornamento do debate

Há outro problema nessa composição que precisa ser nomeado com precisão, porque toca em algo que desenvolvo em Programa de Travesti (YORK, 2026) como subjetividade descartável, que é a convocação de corpos marcados como prova de diversidade, como adorno de pluralidade, sem que sua presença produza transformação real no enquadramento do debate.

Ismael dos Anjos, consultor de equidade de gênero e raça, estava no programa, ele é um profissional de excelência. Ele e os outros convidados defenderam que qualquer debate sério sobre masculinidade precisa considerar o impacto da violência contra mulheres e dialogar com outros grupos sociais.

Ismael disse coisas importantes, mas a estrutura do programa não foi construída para que essas coisas importassem de verdade. Foi construída para que Cazarré tivesse um interlocutor negro ao lado — o que, na lógica da diversidade ornamental, serve para proteger o debate de acusações de parcialidade sem alterar em nada a hierarquia de quem ocupa o centro da narrativa.

Isso é meritocracia elástica (já falamos sobre isso em outros textos) operando na televisão, onde os critérios se expandem para acomodar quem não tem formação específica quando esse alguém tem capital simbólico suficiente — popularidade, visibilidade, alinhamento com certos valores — e se contraem para exigir que os outros convidados provem, com rigor acadêmico, o que Cazarré pode afirmar sem qualquer fonte.

A psicanalista Vera Iaconelli reagiu com a precisão e quando Cazarré tentou interrompê-la, ela o colocou em seu lugar com uma frase que resumiu o problema inteiro: "Nem todo homem, mas sempre um homem."

Frase perfeita, que o programa não merecia.

O que a televisão não vai aprender sozinha

Eu não estou pedindo que a Globo silencie Cazarré. Estou pedindo que a Globo tenha honestidade intelectual sobre o que está fazendo quando senta um ator sem formação específica ao lado de pesquisadores e trata as falas como equivalentes.

Isso tem nome, e chama-se falsa equivalência. É uma técnica de desinformação tão eficaz quanto a mentira direta — às vezes mais, porque se disfarça de pluralidade e equilíbrio.

O debate sobre masculinidade é urgente e necessário. A crise dos homens é real — não no sentido que Cazarré usa, de masculinidade enfraquecida por feministas, mas no sentido que as pesquisas indicam, homens morrem mais por suicídio, adoecem mais sem buscar cuidado, constroem identidades frágeis ancoradas em dominação porque ninguém os ensinou outra coisa e isso merece uma análise séria. E eu tenho um filho influencer e cristão, além de ter crescido com 6 homens em casa, todos cis-heteros- se nomeando cristãos, sei do que falo!

Uma análise séria exige interlocutores sérios. Exige que o vocabulário do debate seja construído sobre décadas de pesquisa em gênero, psicanálise, saúde coletiva e ciências sociais — não sobre a percepção de um ator de que "os homens estão sendo chamados de tóxicos há 20 anos" e precisam de um retiro com missa para se recuperar.

Cazarré disse no programa que está falando "para os homens e meninos que estão há 20 anos ouvindo que todos eles são tóxicos só pelo fato de serem homens."

Esses vinte anos, convém lembrar, são os mesmos vinte anos em que o feminicídio foi tipificado como crime, em que políticas de enfrentamento à violência doméstica foram construídas, desmontadas e reelaboradas, e em que intelectuais negras como Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e tantas outras produziram formulações densas e rigorosas sobre gênero, raça e poder. Ainda assim, essas reflexões não apareceram uma única vez no debate da GloboNews.

Não tratarei aqui das masculinidades e do gênero masculino porque isso exigiria outros tantos textos. Mas talvez nunca tenha sido tão superficial discutir relações sociais na televisão aberta diante de questões tão complexas e historicamente atravessadas por desigualdade, violência e disputa de poder. E talvez nunca tenha sido tão urgente exigir mais.

Julia Duailibi é uma jornalista competente, mas essa configuração de debate já parece esgotada desde 1994. Para quem não se lembra, a eleição presidencial daquele ano, vencida por Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno contra Luiz Inácio Lula da Silva, foi profundamente marcada pelo impacto do Plano Real e também pela queda de Rubens Ricupero, flagrado em uma transmissão da TV Globo dizendo a frase que se tornaria histórica: “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. O episódio levou à sua saída do Ministério da Fazenda e tornou-se um marco da crítica à relação entre mídia, poder e narrativa pública.

É curioso perceber como parte dessa memória política e midiática parece desaparecer justamente no jornalismo que deveria preservá-la.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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