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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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O Brasil perde R$ 94 bilhões por ano nos excluindo. Mas o relatório do Banco Mundial não consegue contar o que não tem preço

"A pesquisa ouviu 11.231 pessoas LGBTI+ adultas em todo o Brasil entre junho e setembro de 2025, combinando entrevistas online e presenciais"

O Brasil perde R$ 94 bilhões por ano nos excluindo. Mas o relatório do Banco Mundial não consegue contar o que não tem preço (Foto: Reprodução / Capa do relatório lançado em 2026 pelo Banco Mundial em parceria com o Instituto Matizes)

Existe um número que o Banco Mundial conseguiu calcular e outro que ele não tentou. Vamos entender!

O primeiro está no relatório lançado em 2026 pelo Banco Mundial em parceria com o Instituto Matizes e outras organizações brasileiras: a exclusão de pessoas LGBTI+ do mercado de trabalho custa ao Brasil R$ 94,4 bilhões por ano. Quase 1% do PIB. Uma sangria econômica silenciosa, sistemática e mensurável, distribuída entre salários menores, desemprego mais alto, inatividade compulsória e informalidade imposta.

O segundo número não tem coluna em nenhuma tabela. É o custo de uma travesti que saiu da escola porque o banheiro era uma guerra, de um homem trans que desistiu do emprego formal porque a carteira assinada exigiria expor um nome que não existe mais, de uma mulher lésbica negra da periferia de Belém que nunca chegou a mandar o currículo porque já sabia qual seria a resposta.

Esse custo não tem preço, mas tem nome. E o mais importante é dizer que esse relatório é, ao mesmo tempo, uma das evidências mais robustas já produzidas sobre a nossa exclusão no Brasil e um espelho do que a ciência ainda não sabe ver.

Os números que o relatório conseguiu

A pesquisa ouviu 11.231 pessoas LGBTI+ adultas em todo o Brasil entre junho e setembro de 2025, combinando entrevistas online e presenciais. É a maior coleta de dados primários já feita sobre o mercado de trabalho da nossa população no país.

Os resultados são devastadores na sua precisão. A taxa de desemprego entre pessoas LGBTI+ é de 15,2% — o dobro da taxa nacional de 7,7%. A inatividade chega a 37,4%, contra 33,4% da população geral. E mesmo entre as que conseguem trabalho, a renda relativa é 9% menor do que a de pessoas com as mesmas características demográficas fora da sigla.

As perdas fiscais anuais chegam a R$ 14,6 bilhões em impostos não arrecadados e gastos extras com proteção social. O Brasil está pagando, em dinheiro público, o custo da sua própria transfobia e LGBTIfobia.

As mais afetadas? Mulheres trans e travestis. Pessoas negras LGBTI+. Quem mora na periferia. Quem vive na informalidade não por escolha, mas porque o mercado formal não abriu a porta. O relatório é cuidadoso o suficiente para nomear essas intersecções: mulheres pretas LBTI+ enfrentam disparidades de desemprego e inatividade até duas vezes maiores do que homens brancos GBTI+.

O que o relatório não consegue medir — e precisamos dizer

Aqui começa o que os gráficos não capturam, vamos a alguns:

O relatório reconhece, com honestidade metodológica rara, que provavelmente não alcançou as pessoas LGBTI+ mais vulneráveis — aquelas sem moradia estável, sem acesso à internet, que ocultam suas identidades por questões de segurança física. A amostra é mais jovem, mais urbana, mais escolarizada do que a nossa população real. Isso significa que os números do relatório são, provavelmente, o limite inferior da catástrofe e a realidade é pior.

O que não está no relatório é, por exemplo, o custo do trauma de uma travesti negra que foi expulsa de casa aos 14 anos. O custo da evasão escolar que acontece antes de qualquer currículo ser enviado. O custo de estudar num ambiente onde seu nome não é respeitado e seu corpo é tratado como problema. Aproximadamente 70% das mulheres trans e travestis não concluíram o ensino médio. Apenas 0,02% estão no ensino superior, como já havia apresentado em 2018, no livro no qual homenageávamos João Nery. Naquela época falei de 0,02% cruzando os dados da educação com a sistematização dos nomes trans que encontramos junto ao IBTE (Instituto Trans de Educação). O relatório cita esses dados que trazemos em nossos textos trans, mas não consegue — e talvez não seja seu papel — dizer o que significa carregar essa exclusão no corpo desde a infância.

O que também não está no relatório: o custo do silêncio! Sete em cada dez profissionais LGBTI+ desistiram de se candidatar a vagas por medo da cultura da empresa. Mas quantas nem chegaram a sonhar com aquela vaga? O pesquisador e psicólogo Diego Lanza produziu uma dissertação de mestrado defendida em 2019 fazendo a seguinte pergunta: Pode uma travesti ser doutora no Brasil? Era uma pergunta muito difícil de ser respondida 10 anos atrás, mas temos visto o avanço. Quantas deixaram de desenvolver uma habilidade porque o ambiente de formação era hostil demais para permanecer?

E há algo que o modelo econômico não consegue capturar por design, que é a prostituição como mercado de trabalho compulsório. O relatório inclui, de forma importante, trabalho sexual presencial e digital entre as categorias de emprego. Isso é um avanço. Mas o que os números não dizem é que, para a maioria das travestis negras que estão nessa estatística, não se trata de uma escolha de carreira. Trata-se da única porta que não foi fechada.

O que o relatório acerta — e por que importa

Seria fácil criticar um relatório do Banco Mundial por usar a linguagem da produtividade e do PIB para falar de vidas humanas, é uma crítica legítima. A nossa existência não deveria precisar ser justificada por quanto custamos ou quanto produzimos. Simples assim!

Mas vivemos num mundo em que decisões políticas se movem quando há cifras e R$ 94,4 bilhões por ano é uma cifra que nenhum ministério da fazenda consegue ignorar completamente.

O relatório acerta ao incluir movimentos sociais como parceiros — não como objeto de pesquisa, mas como agente da coleta de dados. Acerta ao chegar a favelas, comunidades quilombolas e ribeirinhas, a lugares que pesquisas online jamais alcançariam sozinhas. Acerta ao nomear a informalidade não como dado neutro, mas como mecanismo de exclusão perpetuada. Acerta ao dizer, sem eufemismo, que os "selos de diversidade" empresariais não mudam o fato de que travestis negras e/ou PcDs — pessoa com deficiência — estão praticamente ausentes de posições de liderança.

E acerta, sobretudo, ao confirmar com dados em escala nacional o que travestis e pessoas trans sabemos desde sempre, que não somos improdutivas, na verdade somos impedidas. E os diversos porquês circulam em nossos textos, notas e perfis.

O que vem depois dos números

O relatório termina com recomendações, que vão de políticas de emprego, cotas (que aliás defendi no meu trabalho de Mestrado defendido em 2020), qualificação profissional, acesso ao crédito. Mas eu quero terminar esta coluna com o que nenhuma tabela registra.

Quero falar da travesti que terminou o doutorado depois de décadas de luta institucional, do homem trans que dá aula numa escola pública de Porto Alegre e todos os dias negocia sua presença no espaço, da pesquisadora cuja primeira dissertação sobre cotas trans foi ignorada pela instituição que depois passou a dar cursos sobre o tema sem citá-la, sobre a farmacêutica trans que foi vulnerabilizada mesmo estando dentro do cis-tema.

O relatório do Banco Mundial nos diz quanto o Brasil perde por nos excluir, mas não consegue dizer quanto nós produzimos apesar de tudo, o quanto construímos nas frestas, o quanto ensinamos sem ser pagas para isso. Quanto resistimos sem que isso apareça em nenhum indicador de desempenho! A ciência econômica tem instrumentos para medir o que falta, ainda não tem instrumentos para medir o que insiste em existir mesmo assim. Esse é o nosso trabalho!

Sara Wagner York é pesquisadora de pós-doutorado no GPS/UNESP com bolsa FAPESP, travesti, jornalista e ativista trans. É autora de "Programa de Travesti: Educação & Mídia" (Diálogo Freiriano, 2026).

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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