Cazarré quer forjar homens. Cássia Kis expulsou Roberta do banheiro. E se o problema fosse o mesmo?
Frágil ou perigoso? A contradição que o sistema não resolve
Vamos a pergunta que o debate sobre masculinidade recusa sistematicamente: o homem é frágil ou é uma ameaça? Porque as respostas, aparentemente opostas, circulam ao mesmo tempo — e com a mesma naturalidade. Ora nos dizem que o homem está “perdido”, que precisa de tutela, de retiro, de forja, de farol. Ora nos dizem que o mesmo homem é capaz de definir com autoridade quem pode usar um banheiro, quem pode existir num espaço público, quem é real o suficiente para ser mulher.
Dois episódios recentes tornaram esse paradoxo visível com clareza quase didática. E é sobre eles — e sobre o que revelam — que preciso falar.
O Farol e a Forja — ou: como recuperar o homem perdido
Em 2026, o ator Juliano Cazarré anunciou um evento imersivo presencial chamado O Farol e a Forja. A proposta articulava três eixos: masculinidade, espiritualidade cristã e liderança. A premissa central era explícita — os homens estariam “enfraquecidos”, deslocados, sem norte numa sociedade que os teria deixado à deriva.
O evento prometia palestras, práticas espirituais, empreendedorismo, disciplina pessoal, paternidade. Um pacote completo de reconstrução do sujeito masculino segundo coordenadas conservadoras e religiosas. A polêmica foi imediata, sobretudo no meio artístico: a leitura crítica dizia que o evento reedita hierarquias de gênero sob verniz espiritual e reativa discursos que, historicamente, sustentaram violência simbólica e material contra mulheres, crianças e dissidências.
O banheiro do BarraShopping — ou: quando o corpo trans é o problema
No mesmo período, uma mulher trans chamada Roberta relatou ter sido constrangida num banheiro feminino do BarraShopping. Segundo o relato, a atriz Cássia Kis questionou sua presença, nomeou-a como “homem”, declarou que “o Brasil estava perdido” — e transformou um espaço cotidiano num tribunal de identidade.
Roberta afirmou que foi uma das experiências mais humilhantes da sua vida. Gravou parte da cena. Anunciou medidas legais. A atriz não se pronunciou publicamente até o fechamento das reportagens. O caso repercutiu como mais um episódio da série que combina o nome do banheiro com a questão de quem tem permissão para habitar o gênero que afirma ser.
O mesmo regime, a mesma lógica
À primeira vista, os dois episódios parecem opostos. Num deles, o homem aparece como ser em crise, necessitado de cuidado e reinvenção. No outro, a mulher trans aparece como ameaça a ser expulsa, nomeada e corrigida. Mas essa oposição é superficial. O que os une é o mesmo sistema sexo-gênero funcionando em registros complementares.
Não é uma coincidência que o mesmo dispositivo que produz o homem como frágil também o autoriza a agir como policial do gênero alheio. A fragilidade masculina e a violência masculina não são contrários — são faces do mesmo mecanismo. Um regime que precisa constantemente se reparar, se reafirmar, se reconstituir através de rituais, retiros, discursos sobre “enfraquecimento” é um regime que sabe, em algum nível, que sua autoridade não é natural. Que precisa ser produzida, reiterada, defendida.
A masculinidade hegemônica não é um dado. É uma prática contínua de manutenção — e toda manutenção pressupõe a possibilidade do colapso.
É isso que Judith Butler nos ensinou décadas atrás: o gênero é performativo não porque seja livre, mas porque é compulsório. Você não nasce homem e pronto. Você precisa continuar sendo homem todos os dias, em cada gesto, em cada escolha de banheiro — e, aparentemente, em cada retiro espiritual de fim de semana.
A pergunta que a contradição esconde
Quando Cazarré propõe um evento para “recuperar” a masculinidade perdida, ele parte de um diagnóstico implícito: o feminismo, a diversidade, a “ideologia de gênero” teriam enfraquecido o homem. O homem precisaria ser refeito segundo coordenadas pré-feministas — espiritualidade, hierarquia, paternidade, disciplina. O discurso é de restauração, não de inovação.
Mas ainda tem uma incongruência estrutural que esse projeto não consegue resolver: se o homem é tão frágil que precisa de forja, como ele pode ser ao mesmo tempo o árbitro do que é real no gênero alheio? Como pode a mesma figura que supostamente precisa de tutela e recomposição exercer com tanta segurança o poder de dizer a uma mulher trans onde ela pode ou não existir?
Em termos foucaultianos, estamos diante de dispositivos de normatização do corpo operando em dois registros simultâneos: o da produção do sujeito masculino legítimo — por dentro, via retiro e espiritualidade — e o da exclusão do corpo que excede a norma — por fora, via constrangimento e vigilância cotidiana. Não são dispositivos concorrentes. São dispositivos articulados. O regime sexo-gênero precisa de ambos para se reproduzir.
A vigilância como privilégio disfarçado de crise
O que o episódio do banheiro torna visível é algo que o discurso da “masculinidade em crise” costuma encobrir: a autoridade de vigiar o corpo alheio é também uma forma de poder. Quando uma mulher cis questiona a presença de uma mulher trans num banheiro feminino, ela não está apenas exercendo uma convicção pessoal — ela está ativando um repertório que a sociedade lhe forneceu para agir como guardiã da norma.
Esse repertório não está disponível de maneira igualitária. Roberta não poderia entrar num banheiro e questionar a feminilidade de ninguém com a mesma impunidade. A diferença não é de caráter — é de posição social dentro de um sistema que distribui de modo desigual a autoridade sobre a definição do real.
Lélia Gonzalez chamaria atenção aqui para a dimensão racial desse regime: quem tem o poder de nomear o outro como “fora do lugar”? Quais corpos são presumidamente legítimos, quais precisam sempre se justificar? A mulher trans, especialmente a mulher trans preta e periférica, acumula camadas de ilegitimidade que tornam o constrangimento cotidiano uma experiência estrutural, não eventual.
O que O Farol e a Forja e o banheiro do BarraShopping têm em comum
Os dois episódios partilham uma gramática comum: a convicção de que há uma ordem de gênero natural que teria sido perturbada, e que precisa ser restaurada. Num caso, a restauração se dá por dentro — pelo homem que se recompõe, que encontra seu “farol”. No outro, ela se dá por fora — pela mulher trans que é expulsa do espaço, nomeada incorretamente, corrigida.
A diferença é apenas o alvo da intervenção normativa. A lógica é idêntica: existe uma ordem verdadeira de sexo e gênero, existe um desvio dessa ordem, e existe alguém com autoridade para corrigi-lo. No primeiro caso, o próprio homem — que se autocorrige com ajuda espiritual. No segundo caso, a guardiã da norma feminina — que corrige o outro à força.
A crise da masculinidade e a vigilância sobre o corpo trans não são fenômenos separados. São sintomas do mesmo sistema tentando se manter de pé.
O que a epistemologia travesti vê que o debate mainstream recusa
Há algo que a epistemologia travesti — campo teórico que venho desenvolvendo há anos, a partir de Indianarae Siqueira, Marlene Wayar e de minhas próprias pesquisas — percebe com nitidez: o debate sobre masculinidade em crise frequentemente não questiona o sistema. Ele questiona o desempenho individual dentro do sistema.
Não se pergunta: por que precisamos de masculinidade hegemônica? Pergunta-se: como recuperá-la melhor? Não se pergunta: o que a existência travesti revela sobre a arbitrariedade do binarismo de gênero? Pergunta-se: como manter as fronteiras do binarismo mais seguras?
A epistemologia travesti parte de outro lugar. Ela não reivindica um lugar melhor dentro do sistema — ela interroga o sistema como condição de produção de corpos legítimos e ilegítimos. Ela pergunta: quem define o que é homem e mulher, e a serviço de quê? Que relações de poder se naturalizam quando aceitamos que há uma essência de gênero a ser recuperada, preservada, vigiada?
Para concluir — mas não fechar
Não me interessa dizer que Cazarré é um vilão e Cássia Kis é uma vilã. Interessa-me dizer que ambos são agentes de um sistema que os ultrapassa — e que esse sistema produz tanto a fragilidade masculina quanto a violência de gênero como faces da mesma moeda.
O homem que precisa ser forjado e o homem que policia o corpo trans não são tipos diferentes. São possibilidades do mesmo sujeito, autorizadas pelo mesmo regime. O retiro espiritual e o constrangimento no banheiro são, cada um a seu modo, atos de manutenção de uma ordem que só se sustenta pelo esforço contínuo de ser reafirmada.
O problema não é que os homens estejam em crise. O problema é que a crise está sendo gerenciada de maneira a preservar exatamente o que precisaria ser questionado: a hierarquia de gênero como estrutura natural, o binarismo como destino, e a autoridade masculina — mesmo quando se apresenta como ferida — sobre a definição do que é real.
Roberta não estava errada de estar naquele banheiro. Estava simplesmente existindo. E é exatamente isso que o sistema não consegue suportar.
Enquanto a masculinidade for definida pelo que exclui — e não pelo que acolhe —, qualquer “forja” não passa de uma técnica de conservação da ordem que nos mata.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



