A hipocrisia enlatada
Entre o moralismo seletivo e o silêncio conveniente, o país se distrai com o samba enquanto decisões bilionárias seguem blindadas nos bastidores do poder
No Brasil, há dois tipos de escândalo: o que vira trending topic e o que vira silêncio. O primeiro tem fantasia, tamborim e desfile na avenida. O segundo veste gravata, brinda com champanhe e acontece em festas discretas — ou nem tanto — onde banqueiros e autoridades circulam sem incômodo.
Basta uma escola de samba ousar tocar em temas políticos para surgir uma legião de guardiões da moral republicana. De repente, arquibancadas lotadas se transformam em tribunais improvisados e multiplicam-se especialistas em direito eleitoral. Fala-se em propaganda antecipada, abuso de poder, ameaça à democracia. O samba vira perigo institucional.
Já quando empresários do sistema financeiro confraternizam com figuras do poder em mansões paradisíacas no sul da Bahia, a régua muda. Tudo passa a ser “vida privada”. Se decisões bilionárias aparecem semanas antes ou depois desses encontros, trata-se apenas de coincidência — dessas que só acontecem com quem tem acesso aos bastidores.
No governo Bolsonaro, vendeu-se a ideia de ruptura com o “sistema”. Mas o sistema, esse personagem resiliente, parecia bastante confortável. O crédito consignado virou terreno fértil, fundos ganharam novas modelagens, bancos médios cresceram em ritmo acelerado. Alguns grupos financeiros expandiram operações sob ambiente regulatório favorável e clima político amistoso. Nada necessariamente ilegal — mas tudo profundamente dependente de relações, proximidades e portas abertas, com pitadas à la Epstein que muita gente prefere fingir não enxergar.
É curioso observar como funciona a indignação seletiva. A Acadêmicos de Niterói desfila e logo é acusada de conspirar contra a família brasileira. Já encontros festivos entre poder econômico e poder político são rebatizados como networking patriótico. A fantasia incomoda mais do que a planilha.
É quase poético — se não fosse tão previsível.
O discurso bolsonarista prometia combater privilégios. Mas o mercado não viu privilégios desaparecerem; ao contrário, muitos foram reforçados. Porteiras abertas, negociatas expostas por câmeras escondidas, trilha sonora, convidadas estrangeiras — tudo documentado. A retórica era antissistema; a prática, frequentemente sistêmica. Enquanto parte da militância extremista se mobiliza contra a cultura popular na Sapucaí, decisões estruturais sobre crédito e fundos públicos, que impactaram milhões de brasileiros, seguem fora do debate central.
E sempre que surgem questionamentos sobre relações entre bancos e altas patentes do governo Bolsonaro, a resposta parece ensaiada: cria-se uma nova polêmica. Discutem-se fantasias, alas, latas. A fumaça sobe, o público se distrai e as conservas permanecem bem fechadas.
O problema nunca foi a festa. O problema é a assimetria moral. Para o samba, lupa. Para o sistema financeiro, cortina.
Talvez a maior performance não esteja na avenida, mas na habilidade de transformar distração em método político. Enquanto os holofotes iluminam o carro alegórico, o verdadeiro desfile segue longe deles — silencioso, técnico e bilionário.
E assim seguimos: indignados com o tamborim, entretidos com a coreografia, alheios às planilhas.
Se a República fosse julgada pelo barulho, já estaria salva. Mas ela vive — ou perece — no silêncio das decisões que quase ninguém quer discutir. Enquanto isso, a imprensa gasta dias, páginas e bytes debatendo a família enlatada, que nada mais é do que uma alegoria — incômoda justamente por ser verdadeira.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



