Emir Sader avatar

Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

965 artigos

HOME > blog

A história do mundo

O grosso da história foi escrito por quem vivia nas cidades, e concentrou -se na vida de quem vivia nas cidades

A história do mundo (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Peter Frankopan, que eu considero o primeiro grande historiador do século XXI, publicou um segundo livro importante, que deu o nome de A história do mundo, com o subtítulo – Do Big Bang até os dias de hoje.

Ele considera que o livro tem três objetivos. O primeiro é devolver o clima à narrativa do passado enquanto tema subjacente, crucial e muito subestimado na história global, e mostrar onde, quando e como as condições meteorológicas, os padrões climáticos a longo prazo e as alterações climáticas tiveram um impacto relevante no mundo.

O segundo é expor a narrativa da interação humana com o mundo natural ao longo dos milênios e ver como a nossa espécie explorou, moldou e vergou o ambiente à sua vontade, para o bem e para o mal.

E o terceiro é expandir os horizontes de como olhamos para a história. O estudo do passado tem sido dominado pela atenção prestada ao “norte global”, ou seja, as sociedades abastadas da Europa e da América do Norte, com a história dos outros continentes e das outras regiões a ser, amiúde, relegada para um lugar secundário, quando não ignorada por completo. 

O grosso da história foi escrito por quem vivia nas cidades, e concentrou -se na vida de quem vivia nas cidades. E, contudo, a “civilização” é, de longe, o maior fator na degradação ambiental e a mais importante causa da alteração climática antropogênica, devido à exigência imposta pelas populações das cidades sobre a energia e o consumo de recursos naturais, também os alimentos e a água. 

Embora as cidades ocupem apenas 3 por cento da superfície terrestre do nosso planeta, as zonas urbanas alojam mais da metade da população mundial. As cidades não só são responsáveis por uma proporção substancial do aquecimento global, como também serão bastante afetadas por ele nas décadas que se avizinham.

Assim sendo, não é coincidência que o último século, que assistiu a uma rápida expansão do número, dimensão e população das cidades, também tenha visto um grave esgotamento do ambiente e um sério aumento das taxas de consumo. À medida que as cidades crescem, o mesmo se passa com a pressão imposta sobre a natureza, a biodiversidade e a sustentabilidade devido às alterações no uso e apropriação de terra, por causa da modificação dos sistemas hidrológicos e em virtude do impacto dos ciclos biogeoquímicos alterados e comprometidos.

As novas tecnologias que aceleram a produção e lhe reduzem os custos, levará a alterações radicais na produção, transporte a padrões de consumo. Estima-se que mais de 75 por cento de todos os plásticos virgens já criados tenham ido para o lixo, do qual se reciclou apenas cerca de 9 por cento, 12 por cento foi incinerado e o resto – aproximadamente 5 milhões de toneladas métricas, ou cerca de 60 por cento de todos os plásticos já produzidos – têm vindo a acumular-se em aterros ou no ambiente natural. 

Escrever este livro, diz ele, ensinou-lhe bastantes lições sobre o modo como conceitualizamos o mundo que nos rodeia. Mas também o fez perceber que o motivo para nos encontrarmos numa encruzilhada tão perigosa deriva de tendências enraizadas no passado. 

Desde que há registros escritos que sabemos que as pessoas se preocupam com a interação humana com a natureza e alertam para os riscos da exploração excessiva de recursos e para os danos a longo prazo ao ambiente. Pode ser, conclui ele, que estejamos, por fim, à beira de nos tornarmos vítima de nosso êxito enquanto espécie, e que a pressão exercida pelo nosso comportamento sobre os ecossistemas nos tenha aproximado, ou mesmo levado além de um ponto sem volta com consequências catastróficas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados