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Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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Os imigrantes, os novos proletários mundiais!

'A miséria da África é um grito desesperado de quem, explorados e discriminados, pedem ajuda', escreve o sociólogo Emir Sader

Imigrantes africanos no porto da ilha italiana de Lampedusa (Foto: Yara Nardi/Reuters)

Nada mais degradante, em um mundo com tantas coisas degradantes do que os precários barcos em que africanos têm suas embarcações naufragadas, tentando chegar à Europa!

Quem são esses africanos? São alguns dos milhões de africanos cujos familiares foram tirados das suas casas e trazidos, nos porões de navios negreiros, para ser escravos na América, produzindo, como escravos, riquezas para a Europa!

Simples e terrível, mas muito real. São seus descendentes que agora, miseráveis e abandonados, que tentam cruzar o Mediterraneo, da forma que seja, buscando sobrevivência em condições menos ruins. Mesmo, quando conseguem chegar, sendo dicriminados, como negros, como africanos, como miseráveis.

Me lembro de estar em um seminário na Espanha, há algum tempo, quando um barco desses virou no Mediterrâneo e todos os seus ocupantes morreram. Embora fosse um seminário de gente progressista, não causou nenhuma reação, nenhuma indignação, nenhuma manifestação.

Os imigrantes, sejam de origem africana ou de outra origem, circulam pela Europa, pelos Estados Unidos ou mesmo em países da América Latina, buscando alguma forma de vida menor cruel do que a que tem nos seus países de origem. Eles, que não nasceram escravos. Foram escravizados, tornados escravos, fazendo com que escravos e negros se tornassem quase sinônimos.

O mundo convive tranquilamente com a opressão e a exploração brutais da África, um continente ao lado da Europa. Basta conseguir cruzar o Mediterrâneo, para poderem chegar lá, onde serão tratados como raça inferior, onde serão discriminados e às vezes até expulsos de volta para seus países de origem.

Destino que acontece quando alguma embarcação é socorrida antes de naufragar, quando sua população é devolvida para suas condições miseráveis de vida na África. Ou quando alguns deles, por serem indocumentados, são expulsos para seus países de origem.

É um mundo “civilizado”, que produz a barbárie. Um mundo branco, loiro, ou de qualquer tez. Menos negro ou da cor de pele dos muçulmanos, igualmente discriminados.

“Civilização ou barbárie”, como disse um prócer latino-americano. Ambos convivem, lado a lado, por uma – a tal da “civilização” produz a barbárie, que ela continua a explorar, como empregados e empregadas negras, a seu serviço.

A miséria da África é um grito desesperado de quem, explorados e discriminados, pedem ajuda. Quem ouve suas vozes, se sua miséria é funcional, para desempenharem funções subalternas, que brancos não topariam cumprir? O que seria da “civilização” branca sem a miséria negra?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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