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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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A incômoda presença trans na cena

"Quando uma mulher trans ocupa um espaço de liderança institucional, como faz Erika Hilton, o desconforto não é apenas ideológico, mas também imagético"

A incômoda presença trans na cena (Foto: REUTERS/David Ryder)

Essa semana, em um evento público, vivi uma cena que parece pequena, quase banal, mas que carrega uma pedagogia inteira do poder. Ao me aproximar para sentar, uma médica, representante de uma instituição cultural, me interpelou com delicadeza suficiente para não parecer violenta. Disse que talvez eu devesse ficar de pé e atrás na fotografia. O motivo veio em seguida, quase como um cuidado estético. Eu era alta demais para ocupar aquele lugar naquela fotografia.

Não era sobre a cadeira, era sobre enquadramento.

Esse tipo de gesto não nasce do improviso, ele é treinado. Ele opera dentro de uma lógica que define quem pode aparecer, como pode aparecer e, sobretudo, quem precisa ser deslocada para que a imagem final preserve uma certa harmonia social. A fotografia, nesse caso, não é registro, mas uma curadoria de poder.

Penso nisso ao olhar para as falas recentes de Demétrio Magnoli — Globo — sobre Erika Hilton. Ao comentar a escolha da parlamentar para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, ele não apenas discordou, mas a reposicionou. Disse que sua atuação favoreceria Flávio Bolsonaro, criando um movimento já conhecido. Desloca-se o sujeito do lugar de legitimidade e o reinscreve como instrumento de outro projeto.

De novo, não é sobre opinião, mas é sobre o enquadramento.

Há uma insistência em retirar certas figuras de cena ou, quando isso não é possível, em reorganizar sua presença de modo que ela perca densidade política. No meu caso, a altura virou problema. No caso de Erika Hilton, sua atuação é convertida em efeito colateral de um jogo maior. Em ambos, há uma tentativa de controle da imagem, o que já falamos aqui a partir das teorias decoloniais.

O poder contemporâneo raramente opera por exclusão direta. Ele prefere a sutileza, o passivo-agressivo. Prefere o ajuste fino: quem pode sentar, quem pode falar, quem pode liderar, mas desde que sob certas condições. Desde que não desorganize demais a fotografia.

Quando uma mulher trans ocupa um espaço de liderança institucional, como faz Erika Hilton, o desconforto não é apenas ideológico, mas também imagético. Ela altera a composição esperada porque quebra a narrativa visual de quem historicamente foi autorizado a representar "a mulher" nesses espaços. E isso, para muitos, precisa ser corrigido.

O comentário de Magnoli não é um excesso isolado, ele se inscreve em uma tradição discursiva que transforma presenças dissidentes em problemas estratégicos. Não se discute apenas o que essas pessoas fazem. Discute-se o efeito que sua existência produz no jogo político. Como se sua presença precisasse sempre ser justificada, explicada ou neutralizada.

Enquanto isso, fora dos estúdios e das fotografias oficiais, a violência se materializa de forma brutal. O caso recente de uma mulher trans torturada em Mato Grosso do Sul, marcada com um símbolo nazista, nos lembra que não estamos lidando apenas com disputas narrativas. Estamos diante de uma cultura que, em diferentes escalas, insiste em dizer quem pode existir e em que termos.

Há uma linha contínua entre o pedido "gentil" para que eu não sente ali e a tentativa de deslegitimar uma parlamentar eleita, além da lógica que organiza essas ações. Uma lógica que administra visibilidade, regula corpos e distribui lugares.

O que está em jogo é representação, mas também uma espécie de autorização.

E talvez seja por isso que cenas aparentemente pequenas precisem ser levadas a sério. Porque é nelas que o poder se exercita com mais precisão, não no grito, mas no ajuste. Não na proibição explícita, mas na sugestão singela e inocente que reorganiza tudo.

No fim, a pergunta que fica não é se somos altas demais para a foto. É quem decidiu qual é a altura aceitável para aparecer.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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