A liberdade e a doutriação do pensamento
Em São Paulo ou em estados onde se instalaram as escolas do atraso, as cívico-militares, está chegando a hora de retirar o poder de quem as instalou
Os sistemas de opressão contra a humanidade devanearam sempre com a possibilidade de vigiar o pensamento. Por que as pessoas pensavam, podiam escapar da vigilância. Pelo mesmo motivo, constituíam, em si, verdadeira ameaça. Associados a religiosos, tiranos se sentiam seguros, desde que Igrejas os acompanhassem, o que, muitas vezes fizeram ao longo dos séculos. Na modernidade democrática, tais práticas de pregação parecem anacrônicas, desprovidas de sentido, ainda que se exerçam, aqui e ali, nos bolsões do atraso. O bolsonarismo, quando governou (e, em seguida, com os seus seguidores postos em cargos executivos estaduais), colocou em ação alguns de seus postulados nas escolas públicas, entregando-as ao que denominaram de exercícios “cívico-militares”. Agora se vê o desastre a que chegaram.
Num educandário paulista (Escola Estadual Professora Luciana Damas Bezerra, em Caçapava), flagrados por câmeras, dois homens fardados oferecem um exemplo do que não se deve e não se pode fazer no que diz respeito aos jovens. Num quadro, um escrevia descançar (!) com cedilha e continêcia assim mesmo, sem o ene. Precisou corrigir rapidamente, advertido por alguém na porta da sala. Pior exemplo haveria como fornecer? Por seu turno, um aliado do governador Tarcísio de Freitas, o Silas Malafaia, diante de evangélicos no Recife, destilou ódio contra professores, tidos por ele como subversivos e esquerdistas. O pregador, misto de político de direita e religioso, sonha com uma comunidade de robôs, na qual a um sinal do dedo todos obedecem e votam nos seus candidatos.
Felizmente, nós nos encontramos num ambiente de liberdade. No exercício do saber, em todas as suas formas, na infância e na idade madura, no ensino fundamental e nos laboratórios científicos, não se ignora a contribuição imprescindível da liberdade. Nas universidades, em sala de aula ou fora dela, alunos e professores sabem que o pensamento se vincula ao conhecimento, entre outras coisas, por intermédio de uma capacidade única de homens e mulheres: o voo infinito do pensar. Sem ele, ainda estaríamos na Idade da Pedra, arrastando-nos pelas florestas da ignorância e apavorados com o cerco de inimigos, inclusive da espécie animal. Sempre em altos decibéis, à beira de um ataque de nervos, Malafaia crê que a voz extremada e intimidante, acoplada a conceitos caducos, possui força persuasiva para conquistar crentes e simpatizantes. No país como um todo, não tem vez. O povo pobre sente quem lhe é favorável e termina por realizar suas escolhas mais livre de preconceitos do que se imagina.
Em São Paulo ou em estados onde se instalaram as escolas do atraso, as cívico-militares, está chegando a hora de retirar o poder de quem as instalou. Votos também servem para isso. Se desejam tanto assim uma farda, por que não seguiram a carreira militar? Aliás, em educandários das três forças, não há paralelos de exercício de ignorância elevados à condição de exemplos. Em suas especificidades, são modelos – e não o inverso. Não há dúvida de que a estupidez atualmente se configura como bandeira política... Por enquanto, pelo menos, está na defensiva... ou na cadeia!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


