A maior monstruosidade no mundo de hoje são os feminicídios
A naturalização da violência contra as mulheres revela uma sociedade que ainda tolera o inaceitável e falha em garantir o direito básico à vida e à liberdade
Em um mundo com tantas desigualdades, com tantas violências, a maior monstruosidade é não apenas a sobrevivência dos feminicídios, mas, ao que tudo indica, o seu aumento.
É a maior monstruosidade que uma pessoa – não direi um ser humano – pode cometer e comete, em grande quantidade, como crimes cotidianos. Alegar que o casamento dá ao homem o direito de propriedade sobre o destino e a vida das mulheres é uma monstruosidade, que desemboca em grande quantidade de crimes diários, de assassinato das ex-mulheres.
Não basta tratar de compreender a concepção radicalmente machista que preside esse tipo de atitude, mas de saber como várias gerações de homens ainda mantêm essa concepção, assassinar suas ex-mulheres por não lhes dar o direito de romper o casamento.
São dezenas, centenas diários, milhares por mês e vários milhares por ano. No Brasil e em tantos outros países do mundo.
Como podemos conviver com isso? Com impedir às mulheres o direito de terminar com um casamento?
São pessoas monstruosas que cometem esses crimes. Diariamente, tragicamente para a nossa sociedade.
É como se o direito de terminar com uma relação, o direito ao divórcio, uma conquista histórica das mulheres, não seja aceito por milhares de homens e condene milhares de mulheres à morte.
Uma brutalidade que os feminicídios sejam um fenômeno corrente, que convivamos com isso como convivemos com os acidentes de trânsito ou acidentes naturais.
Quando é um fenômeno humano ou desumano, se preferirmos. São gente de várias gerações, não gente como a gente, mas pessoas com as quais muitos de nós convivemos.
Pessoas que namoraram com mulheres, casaram com elas, em muitos casos tiveram filhos com elas. Depois, alegando que sua honra teria sido ferida quando a mulher decide se separar, se dão o direito de tirar a vida dela, algumas vezes até na presença dos filhos.
É um fenômeno que faz com que vivamos em uma sociedade profundamente desumana. Já não bastam as desigualdades sociais, tropeçarmos com gente vivendo nas ruas, ao lado das lojas em que o consumo se expande.
Além dessas tremendas desigualdades, convivemos com os feminicídios, os crimes mais brutais que uma pessoa pode cometer. E, em muitos casos, o criminoso escapa sem sequer ter que pagar por seus crimes hediondos.
O que fazer diante do aumento desses crimes monstruosos? Somos impotentes diante deles.
A educação não basta, ainda que se tenha que colocar ênfase na formação dos valores das crianças desde cedo. O papel das famílias é igualmente importante, não só na educação das crianças, mas, principalmente, na forma de convivência dos pais, sem nenhum tipo de violência.
O grau de civilidade e de democracia real tem que depender da situação dos feminicídios na nossa sociedade.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




