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Elisabeth Lopes

Advogada, especializada em Direito do Trabalho, pedagoga e Doutora em Educação

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A máquina do consenso: a mídia corporativa como braço da elite financeira

O problema não é a crítica ao governo, mas a diferença de tratamento dada a políticos distintos, dependendo de seus vínculos ideológicos e econômicos

Jornais (Foto: Gerada por IA/DALL-E)

Em sociedades democráticas, a imprensa exerce um papel decisivo na formação da opinião pública. Em tese, deveria ser informar com rigor, pluralidade e responsabilidade, permitindo que a população compreenda os fatos a partir de diferentes perspectivas. 

No entanto, no Brasil, grande parte da chamada mídia corporativa, concentrada nas mãos de poucas famílias e grupos econômicos, extrapolou esse papel e passou a atuar como agente político ativo, interferindo diretamente nos rumos da democracia brasileira. 

Essa atuação se torna ainda mais evidente em períodos eleitorais. Em vez de apenas informar, divulgar com isenção os acontecimentos, não raro a grande mídia constrói narrativas, seleciona quais fatos merecem destaque, quais devem ser omitidos e quais personagens políticos serão tratados como articuladores, moderados ou ameaças. Não se trata apenas de divergência editorial, algo legítimo em qualquer democracia, mas da repetição sistemática de enquadramentos que favorecem projetos alinhados aos interesses do mercado financeiro, das elites econômicas e de setores conservadores historicamente privilegiados.

A democracia, portanto, enfrenta um desafio que vai além das urnas, quando convive com a hegemonia da narrativa construída pela mídia corporativa. Longe de ser apenas veículo de informação, grandes conglomerados atuam como partidos políticos não eleitos, cujo objetivo principal é influenciar a opinião pública com a finalidade de proteger os interesses da elite financeira e do mercado especulativo. 

Ao longo de décadas, o que se observa é a institucionalização da distorção, uma ferramenta utilizada para pavimentar projetos neoliberais e boicotar governos de base popular através da fabricação de crises e da invisibilização de conquistas.

O percurso contemporâneo brasileiro fornece vastas evidências dessa prática. O apoio de grandes conglomerados midiáticos, a exemplo da Rede Globo, Folha de São Paulo, Estadão ao golpe militar de 1964, a cobertura seletiva da crise política que culminou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, e a naturalização de políticas de austeridade que penalizam trabalhadores enquanto preservam privilégios do sistema financeiro demonstram como parte da mídia brasileira atua não como observadora imparcial, mas como participante ativa das disputas de poder.

Em 2026, esse comportamento permanece evidente. Os noticiários, programas de debate e colunas políticas da mídia corporativa seguem reproduzindo análises frequentemente marcadas por seletividade, omissões e distorções que atingem sobretudo governos de perfil popular e progressista. O problema não é a crítica ao governo, crítica é parte essencial da democracia, mas a diferença de tratamento dada a políticos distintos, dependendo de seus vínculos ideológicos e econômicos.

Um exemplo dessa prática ocorreu no programa Estúdio i, da GloboNews exibido nesta semana, durante comentários de um dos jornalistas sobre a viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Europa. A agenda presidencial dessa viagem incluiu compromissos diplomáticos e econômicos relevantes, como a participação na 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum Democracia Sempre, presença na abertura do 42º Encontro Econômico Brasil-Alemanha, voltado a temas estratégicos como inovação, sustentabilidade, indústria de defesa, inteligência artificial e geopolítica, além de reuniões oficiais em Portugal com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o presidente português António José Seguro.

Tratou-se de uma agenda diplomática ampla, voltada ao fortalecimento das relações bilaterais, cooperação econômica e aproximação estratégica entre países. Ainda assim, a leitura apresentada pelo jornalista, muito conhecido por ser um contumaz grilo falante dos Marinhos, reduziu toda a viagem do presidente Lula a um suposto movimento eleitoral para “construção de imagem” visando a reeleição. Essa interpretação reducionista e flagrantemente parcial ignora não apenas a tradição diplomática construída por Lula ao longo de décadas, mas também o reconhecimento internacional que o presidente brasileiro possui desde seus primeiros mandatos.

O presidente Lula sempre manteve forte atuação internacional voltada à construção de parcerias econômicas e políticas estratégicas para o Brasil. Durante seus governos, o país ampliou relações comerciais, fortaleceu alianças multilaterais e ganhou protagonismo internacional. Não por acaso, diversas lideranças estrangeiras reconhecem sua capacidade diplomática. A própria Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, elogiou publicamente Lula ao destacar seu compromisso com a democracia, com a soberania das nações e com uma ordem internacional baseada em regras e cooperação.

Entretanto, parte da mídia corporativa parece incapaz de reconhecer qualquer avanço ou ação positiva de governos progressistas. Há comentaristas a exemplo desse jornalista, que transformam toda iniciativa do atual governo em suspeita, marketing político ou populismo, enquanto relativizam ou silenciam diante de figuras do Centrão e da extrema direita envolvidas em escândalos graves.

Essa diferença de tratamento torna-se ainda mais evidente quando determinados setores da imprensa tentam construir equivalências artificiais entre o presidente Lula e figuras como os ex governadores Romeu Zema, Ronaldo Caiado e o senador Flávio Bolsonaro. Trata-se de uma comparação inadmissível, que ignora não apenas a dimensão histórica e política de cada trajetória, mas também o impacto concreto de suas atuações na vida nacional.

Enquanto Lula consolidou-se como um estadista de projeção internacional, associado a políticas de inclusão social, expansão das universidades e institutos federais, valorização real do salário mínimo, fortalecimento do emprego formal e programas de combate à desigualdade e à fome, Flávio Bolsonaro desenvolveu uma trajetória política marcada por baixa relevância legislativa e por recorrentes controvérsias públicas. Seu nome aparece associado a reportagens envolvendo suspeitas ligadas ao caso das rachadinhas, à aquisição de uma mansão de valor incompatível com os rendimentos declarados e a relações controversas envolvendo homenagens a personagens ligados às milícias do Rio de Janeiro. 

Soma-se a esse histórico a divulgação, nesta semana, pelo jornal Folha de S. Paulo, de seu plano de governo de orientação ultra neoliberal para uma eventual eleição à Presidência. O documento aponta para a redução de direitos sociais ao propor o fim dos ganhos reais do salário mínimo sobre aposentadorias, pensões e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), medida que tende a aprofundar a perda do poder aquisitivo de amplas parcelas da população trabalhadora. Além disso, prevê que os mínimos constitucionais destinados à saúde e à educação passem a ser corrigidos apenas pela inflação, eliminando o crescimento real anteriormente atrelado ao PIB.

Ainda assim, a cobertura da mídia corporativa, liderada pela Globo e seguida pelos demais grupos midiáticos de mesma inclinação, insiste em colocar no mesmo patamar projetos políticos, biografias e legados absolutamente distintos, como se fosse possível comparar um líder reconhecido internacionalmente por sua capacidade de governar e promover inclusão social com um político de trajetória medíocre, baixa produção legislativa e histórico cercado de suspeitas. A distância entre as estaturas políticas, institucionais e históricas entre Lula e Flávio é simplesmente abissal.

Todavia, constata-se que propostas econômicas de caráter neoliberal costumam receber tratamento benevolente da grande mídia, mesmo quando implicam redução de direitos sociais, congelamento de investimentos públicos e arrocho sobre trabalhadores e aposentados. Medidas de austeridade apresentadas como a velha cantilena da “responsabilidade fiscal” pela direita e extrema direita por agradar a Faria Lima, são estimuladas repetitivamente, enquanto políticas de distribuição de renda e fortalecimento do Estado social são tratadas como ameaça econômica.

Nesse panorama, esse padrão revela problemas estruturais graves. A concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucos grupos econômicos cria um ambiente em que interesses empresariais acabam influenciando diretamente a construção das narrativas públicas. A chamada mídia hereditária ou corporativa frequentemente atua em sintonia com setores financeiros que defendem privatizações, redução do papel do Estado e flexibilização de direitos trabalhistas e previdenciários como previsto nos planos de governo dos candidatos presidenciáveis do centrão e da extrema direita. Os exemplos históricos dessa postura são contundentes. Durante décadas, setores da grande mídia apoiaram agendas econômicas que ampliaram desigualdades sociais, defenderam privatizações controversas e legitimaram políticas de austeridade que atingiram principalmente os mais pobres. 

Torna-se necessário reiterar a sistemática deturpação dos fatos, a exemplo do recente powerpoint da Globo News sobre as falsas imputações de relações suspeitas do banqueiro Daniel Vorcaro com o governo Lula, o presidente do Bacen, Gabriel Galípolo e o Partido dos Trabalhadores, omitindo os personagens do Centrão e da extrema direita comprovadamente envolvidos no escândalo financeiro, além do presidente do Bacen à época da aprovação de funcionamento do Banco Master, Roberto Campos Neto, atualmente executivo no Nubank em que o Grupo Globo tem participação acionária. Outro agravante é o uso recorrente de fontes controversas e politicamente comprometidas sem o devido rigor crítico que também fragilizam a veracidade dos fatos noticiados. Isso levanta questionamentos legítimos sobre os critérios editoriais adotados por veículos que se apresentam como defensores da imparcialidade jornalística. 

Cumpre assinalar que em muitos momentos, vozes dissonantes da grande mídia foram sistematicamente marginalizadas, caricaturadas ou desacreditadas, enquanto comentaristas alinhados aos interesses do mercado financeiro passaram a ocupar posição dominante no debate público. Políticos que ousaram confrontar esse poder midiático hereditário frequentemente sofreram campanhas de desgaste e ataques permanentes à sua imagem pública. Um dos exemplos mais expressivos foi o de Leonel Brizola, líder histórico do trabalhismo brasileiro, reconhecido não apenas por sua firmeza política, mas também por seu extraordinário legado na educação pública. 

Sua trajetória foi marcada pela defesa da soberania nacional, da democracia e da inclusão social. Brizola tornou-se um dos mais ferrenhos críticos do poder exercido pelo Grupo Globo sobre a política e a opinião pública brasileira. Após denunciar a manipulação da cobertura eleitoral no episódio da Proconsult, em 1982, e enfrentar reiterados ataques da emissora, eternizou uma frase que sintetizava sua desconfiança em relação ao alinhamento político da empresa: Se a Globo é a favor, eu sou contra; se é contra eu sou a favor. Sua crítica não era dirigida apenas a uma linha editorial específica, mas ao risco de uma concessionária pública de comunicação ultrapassar os limites do jornalismo para atuar como agente político e formador de consensos em favor de determinados interesses econômicos e ideológicos.

Cabe destacar que, se a prioridade atribuída por Brizola à educação pública integral, à inclusão social e à formação crítica da população tivesse sido mantida ao longo do tempo, possivelmente teria contribuído para a formação de gerações do Rio de Janeiro mais politicamente conscientes e menos suscetíveis à manipulação midiática, ao clientelismo eleitoral e a discursos simplistas baseados no medo e na desinformação. Seu projeto educacional ia além do ensino formal, buscava formar cidadãos com senso crítico, dignidade social e capacidade de participação ativa na vida democrática.

Em vez do cenário de degradação institucional, violência estrutural e sucessivos escândalos de corrupção que marcaram a política fluminense nas últimas décadas, o estado poderia ter consolidado uma cultura política baseada em escolhas mais conscientes de seus dirigentes e de seus parlamentares por parte de uma população educada e socialmente amparada. O contraste torna-se ainda mais graves quando se observa que diversos governadores do Rio de Janeiro acabaram presos, afastados ou envolvidos em graves denúncias de corrupção, evidenciando o fracasso de modelos políticos que privilegiaram interesses privados, alianças espúrias e projetos de poder em detrimento do investimento abrangente em educação, cidadania e desenvolvimento humano. 

Diante desse cenário, torna-se inevitável questionar se parte da mídia corporativa brasileira tem cumprido efetivamente o papel previsto no artigo 221 da Constituição Federal de 1988, que estabelece princípios para os serviços de radiodifusão, entre eles a promoção de finalidades educativas, culturais e informativas. Quando a informação é constantemente filtrada por interesses políticos e econômicos, a democracia enfraquece e a sociedade perde sua capacidade de discernimento crítico.

A democracia depende de uma imprensa livre, mas também responsável, plural e comprometida com a verdade dos fatos. Quando grandes conglomerados midiáticos utilizam seu poder para selecionar narrativas, manipular percepções e favorecer determinados projetos políticos e econômicos, deixam de cumprir apenas um papel informativo e passam a atuar como agentes de influência sobre o destino do país.

O problema não está na crítica ao governo ou na divergência ideológica, ambas são legítimas e necessárias, mas na seletividade sistemática, na omissão de contextos importantes e na construção de discursos que favorecem interesses específicos em detrimento do debate público honesto.

Por essas razões, torna-se fundamental que a população desenvolva consciência crítica diante da informação consumida diariamente. Nenhuma democracia saudável pode sobreviver quando a verdade é substituída por enquadramentos manipulativos e interesses econômicos travestidos de neutralidade jornalística. O cidadão precisa aprender a questionar, comparar fontes, identificar omissões e compreender quem se beneficia de determinadas narrativas.

Mais do que nunca, o Brasil necessita de pluralidade informativa, democratização da comunicação e fortalecimento do pensamento crítico. Sem isso, a mídia corporativa continuará exercendo um poder desproporcional sobre a percepção da realidade nacional, influenciando eleições, formando consensos artificiais e ajudando a preservar estruturas históricas de desigualdade e privilégio.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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