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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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A máscara social e o abismo íntimo: o custo invisível dos casamentos de fachada

O resultado é um estado de estresse permanente que transborda para a parceira na forma de controle e irritabilidade

A máscara social e o abismo íntimo: o custo invisível dos casamentos de fachada (Foto: Reuters)

No cenário das aparências impecáveis, onde o status de "homem de família" atua como a moeda mais valiosa do capital social, reside um fenômeno silencioso, sofisticado e, muitas vezes, cruel. Vamos falar sobre o uso das tecnologias de genero usadas por homens socialmente identificados como cis-heterossexuais e heteronormativos. 

Posso citar os três casos como episódios midiáticos distintos e sem sensacionalismo, já que todos foram amplamente noticiados como formas de instrumentalização do feminino - simbólica, afetiva ou corporal - por homens:

 Caso 1. O caso do pastor que performava o feminino para realização de suas fantasias e desejos. Segundo as reportagens, ele se apresentava encoberto por uma performance feminina - usando peruca loira, roupas e maquiagem - para produzir situações de confusão identitária. O ponto central, aqui, não é a performance em si, mas o uso do feminino como estratégia de captura, manipulação e violência, reforçando uma lógica misógina em que o feminino é tratado apenas como fetiche. 

Caso 2. O caso do homem oriental que se fazia passar por mulher para obter vantagens. Amplamente divulgado em redes e na imprensa internacional, envolve um homem que se apresentava como mulher em ambientes digitais, solicitando comida, presentes, dinheiro e favores. Embora nem sempre enquadrado juridicamente como abuso sexual, o caso é paradigmático do uso do feminino como dispositivo de exploração afetiva, em que a imagem da mulher é mobilizada como recurso de consumo, cuidado e doação, reforçando estereótipos de disponibilidade e passividade.

 Caso 3. O caso francês do marido que dopava a esposa para exploração sexual coletiva. Este é um dos casos mais graves e documentados, um homem francês dopava sistematicamente a própria esposa, tornando-a inconsciente, e oferecia seu corpo a outros homens para estupros recorrentes, muitos deles filmados. Aqui, o feminino é reduzido à condição extrema de objeto, e o casamento aparece como estrutura de autorização patriarcal da violência, em que a mulher é tratada como propriedade e moeda de troca.

Os três casos não dizem respeito a identidade de gênero ou orientação sexual, mas à apropriação violenta do feminino como tecnologia de poder, seja para sustentar fantasias, obter vantagens, mascarar práticas abusivas ou autorizar a violência masculina.

Conceitos? Podemos ir de misoginia estrutural, economia libidinal, sustentação psíquica masculina ou performatividade instrumental do feminino.

A investigação que emerge é o da advogada Jaíne Hellen Machnicki, de 33anos que expõe as entranhas de um arranjo que nomearei como o ápice da heteronormatividade compulsória: homens que utilizam o matrimônio heterossexual como um escudo tático para camuflar desejos e fetiches que a moralidade pública, sob a qual eles próprios se abrigam, condena.

Este não é um debate sobre a liberdade de orientação sexual, performance, identidade ou desejo, mas sobre a instrumentalização do outro. Quando o altar se torna um esconderijo, o casamento de fachada, a esposa deixa de ser parceira para se tornar um "dispositivo de sustentação psíquica" - uma fachada necessária para que o sujeito mantenha seus privilégios em ambientes religiosos, militares e corporativos. O caso realça a relação entre homens que compõem o grupo Legionários, do qual o marido de Jaíne faz parte.

A anatomia do abuso silencioso

No início, nada parecia fora do lugar. Ele era atencioso, bem-visto socialmente, religioso, respeitado no trabalho e cuidadoso com a imagem de marido correto. Falava de família, futuro e compromisso. Quando trouxe o primeiro pedido "diferente", veio envolto em cuidado: dizia ter vergonha, pedia paciência, solicitava compreensão. Ela estranhou, hesitou, fez perguntas simples - e foi aí que algo começou a mudar.

As perguntas passaram a gerar silêncio e estranhamento. Depois o silêncio virou castigo. Por que perguntou demais, passou a ser ignorada ou tratada com menosprezo. A casa ficou pesada, os dias longos, a comunicação reduzida a ironias. Aos poucos, ela começou a se desculpar por coisas que não tinha feito, a ceder para que ele voltasse a falar. O desejo deixou de ser escolha e virou encenação. O que antes era relação passou a ser negociação emocional. Para que houvesse paz na casa, já que no leito era distante, ela precisava concordar. Para que houvesse diálogo, precisava se adaptar cada vez mais. Só mais tarde ela entenderia que não estava vivendo uma fase difícil do casamento, mas sendo conduzida, de forma encoberta e sistemática, a ocupar um lugar que não era o dela.

As engrenagens da dissimulação por fachada

A manutenção de uma vida dupla parece um ato isolado, mas na verdade tarta-se do resultado de pressões sistêmicas que forçam o indivíduo a escolher entre sua verdade e seu pertencimento social. Esses pilares sustentam o que chamamos de "armário relacional":

A Pressão das Comunidades de Fé, onde em contextos religiosos conservadores, o casamento é um requisito para a aceitação. Aqui, a esposa é utilizada como um "certificado de cura" ou um selo de moralidade. O objetivo é evitar o ostracismo, mas o custo é uma repressão interna onde o sujeito tenta "corrigir-se" através da performance conjugal.

O Ambiente Corporativo e a Hiper-masculinidade, pois em setores como o militar ou o agronegócio, a imagem do "homem de família" gera confiança e facilita promoções. O casamento funciona como um passaporte para círculos de poder onde o homem solteiro é visto com desconfiança. A parceira torna-se uma acompanhante estratégica, enquanto o homem vive sob vigilância constante.

A Linhagem Familiar e a Expectativa dos Pais, onde a necessidade de dar continuidade ao sobrenome é um dos motores mais fortes da norma. A mulher é reduzida à função de geradora de herdeiros, servindo como o anteparo que protege a honra da família contra o "escândalo" da diversidade. Herança cruel que tem mais de 500 anos entre nós. Relatos do Santo Ofício indicam que, para evitar que famílias fossem dizimadas ao longo de gerações, filhos considerados "sodomitas" - aquilo que hoje reconhecemos como pessoas LGBTQIAPN+ - eram expulsos de casa, e o assunto passava a ser silenciado, pois qualquer menção poderia trazer punições severas àqueles que permaneciam.

O Conflito Interno e a Negação, afinal trata-se do homem que não aceita o próprio desejo e utiliza o casamento como ferramenta de autonegação (ego-distônica). O resultado é um estado de estresse permanente que transborda para a parceira na forma de controle e irritabilidade, já que ela é o lembrete constante da vida que ele tenta personificar.

Engenharia da dissimulação

O conceito de Down Low (DL) descreve essa arquitetura de vida dupla preservada a qualquer custo. Historicamente conhecidos como Lavender Marriages (Casamentos Lavanda) na Hollywood clássica, esses arranjos persistem. Dados de saúde pública indicam que entre 2% a 5% dos homens em casamentos heterossexuais vivem sob essa tensão, com incidência maior nas gerações Baby Boomer e X, onde o estigma social era uma sentença de morte civil.

É crucial analisarmos este fenômeno sob um viés polissêmico e com seus ecos pois nem todo casamento de fachada é desprovido de afeto. Frequentemente existe um carinho genuíno, mas esse afeto é hierarquizado abaixo da norma social. No entanto, quando o "Real" (o desejo) é soterrado pelo "Imaginário" (o homem ideal), a relação adoece. A incapacidade de simbolizar o próprio desejo transforma a intimidade em uma performance de submissão exigida da parceira. Sabe aquele cara super-vigilante? 

A violência e um olhar psicanalítico

A denúncia torna-se urgente quando o segredo transborda em abuso. O uso do "tratamento de silêncio" serve para moldar a esposa como facilitadora de cenas que ela não compreende. Estima-se que 30% das mulheres em relações estáveis sofram coerção emocional ligada à intimidade. Quando o homem não assume a autoria de seu desejo, ele transfere o custo psíquico para a parceira, transformando o lar em um tribunal. A casa vira um inferno, mas só para quem anida não entendeu o jogo.

Na psicanálise, esses homens operam em uma lógica binária, ou estão em fusão com a norma (contando até um por que "JAMAIS fariam tal coisa") ou em um embate entre o que são e o que mostram (contando até dois, ele quer usa-la, mas foi ela quem não entendeu direito que era só uma brincadeira). O sofrimento de mulheres como Jaíne ocorre porque elas estão presas nessa lógica do "dois". O marido não consegue chegar ao "três" - o estágio de aceitar a própria falta, a impossibilidade de ser o homem perfeito da norma e, finalmente, dar nome e ética ao seu desejo real. Sem isso, a mulher é reduzida a um objeto de cenário, que ele considera pronto para usar.

Para além da máscara

A sofisticação do dano reside na invisibilidade. A saúde pública já sente os reflexos, o sigilo impede a busca por saúde sexual, elevando as taxas de ISTs entre mulheres casadas que acreditam na monogamia plena. A alegria do companheiro que ri e extrapola com os amigos do futebol, mas é incapaz de mesmas emoções quando estão com os seus - objetos. 

O caminho para a ruptura dessa engrenagem não é a exposição por vingança, mas a responsabilização subjetiva. Enquanto a sociedade premiar a performance da "normalidade do homem perfeito" em detrimento da verdade ética, o casamento continuará sendo utilizado como uma armadilha onde o amor desaparece para que a fachada sobreviva. A liberdade só começa quando o sujeito para de exigir que o corpo do outro preencha o abismo de sua própria negação.

Histórias assim eu conheço bem porque como homem, falhei no prostíbulo. Como jovem adoeci tentando ser relevante ao patriarcado e como trans continuo assistindo homens diversos usando mulheres para usarem em seus fetiches mais covardes.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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